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VIAGEM PARA A TERRA DO FOGO
Konsalik
Traduo de ISABEL XAVIER
Ttulo original: lotE FAHRT NACH FEUERLAND
Copyright 1980 by Autor e AVA, Munique
Nmero de edio: 4116
Depsito legal nmero 1149 55/97
ISBN 972-42-1658-6



Ele no era daquelas pessoas que, quando chegam ao limite das
suas foras, desistem, entregando-se assim por inteiro ao 
destino. Nem sequer numa situao como aquela em que se 
encontrava naquele momento, em que parecia no haver hiptese 
de escapar ao inferno de gua e vento. Porm, e embora se 
encontrasse em perigo de vida, restava-lhe sempre uma certeza: 
cada vez que uma vaga atirava o seu barco para um vale de gua 
revolta, voltando logo de seguida a cuspi-lo, projectando-o 
para os ares, ele pensava: "O meu barco, no se afunda! Por 
isso, eu tambm no posso afundar-me! e  um barco feito do 
melhor material sinttico, com cmaras de espuma no casco, que 
fazem com que volte sempre a endireitar-se. e  um barco 
perfeito, com o qual o mar pode brincar  vontade, 
projectando-o das massas de gua violentas, depois erguendo-o 
para o cu carregado de tempestade e fazendo-o cair de novo 
para o mar furioso. O barco voltar sempre a endireitar-se na 
superfcie da gua, como um boneco sempre-em-p. As cmaras de 
ar garantem-lhe o equilbrio. O que importa e  que o casco 
esteja intacto e que o mar no o destrua, aniquilando assim o 
barco e o homem."
Prendera-se ao cadaste com ganchos e com um cinto na barriga e 
nos ombros. Cada vez que surgia uma vaga que ameaava 
despenhar-se em cima dele com um barulho ensurdecedor, 
encolhia a cabea, fechava os olhos, retinha a respirao, 
agarrava-se ao eixo do leme que j h muito fora arrancado e 
rendia-se s toneladas de gua. O pequeno barco girava, dava 
voltas, depois endireitava-se e voltava a danar no mar 
furioso. Peter von Losskov respirava fundo, olhava para aquele 
inferno insuportvel e para o cu cinzento e triste e depois 
voltava a agachar-se perante uma nova vaga coberta de espuma 
que se aproximava.
A tempestade no surgira inesperadamente. Quando partira do 
porto nordeste da ilha de Helgoland, cerca de sete horas 
antes, o guarda da estao meteorolgica, que se encontrava no 
molhe, avisara-o:
- Eu devia obrig-lo a ficar em terra! No v, Peter! Isto j 
no tem nada a ver com investigao cientfica!
Ele rira-se, acenara com as duas mos e girara a vela grande e 
a vela de balo para o vento que soprava com fora. Depois, 
dirigiu-se a alta velocidade para o mar do Norte. H j alguns 
dias que se notava um vento forte, mas s h cerca de uma hora 
e  que fora confirmada a aproximao de um furaco bastante 
forte, vindo da Islndia. Toda a costa do mar do Norte fora 
avisada e os barcos mais pequenos voltavam para trs tentando 
alcanar um porto seguro, a tempo. Nas fotografias de 
satlite, o centro do furaco era claramente visvel.
Peter von Losskov esperara precisamente por esse momento. 
Preparou o seu pequeno barco de sete metros, bebeu trs 
grogues e vestiu o seu fato de nylon cor de laranja. Era um 
fato com duas camadas, equipado com cmaras de ar e um colete 
de salvao incorporado, insuflvel com a ajuda de uma pequena 
garrafa de ar comprimido.

Quando Peter von Losskov chegou  estao meteorolgica para 
se despedir do Dr. Faller, que j trabalhava h dois anos como 
meteorologista em Helgoland, este levou as mos  cabea.
- Ento e  esta a sua espantosa inveno? - perguntou, depois 
de lanar um rpido olhar ao barco e ao equipamento de Peter. 
- Meu Deus! O senhor, sendo um homem do mar, deveria saber 
como isto vai acabar! Aquilo parece um barco de brinquedo!
- Mas no se afunda, doutor! Endireita-se sozinho. E depois 
ainda tenho o meu fato.
-        Uma coisa dessas experimenta-se num simulador!
-        Nem o melhor simulador de vento pode substituir o mar. Eu 
preciso de uma prova vlida para poder continuar a acreditar 
em mim.
-        E se o mar no o deixar voltar?
-        Isso e  impossvel!
-        Ser necessrio que eu lhe fale do que o mar e  capaz?! 
Uma s onda basta para fazer desaparecer um barco de duzentos 
metros de comprimento!
-         exactamente isso que torna to vulnerveis esses barcos 
grandes. Um barco de sete metros, ao contrrio, escapa sempre! 
Experimente pr numa banheira uma saboneteira e a casca de uma 
avel. Sabe o que e  que acontece? A saboneteira enche-se de 
gua e vai ao fundo, enquanto que a pequena casca de avel 
continua sempre  superfcie da gua. Nunca se afundar!
-        Isso e  uma comparao estpida, Peter! - O Dr. Faller 
apontou para o mais recente mapa meteorolgico que acabara de 
ser concludo. - Aproxima-se qualquer coisa perigosa... at 
para as avels. Alm disso, o senhor e  um homem e no uma 
casca de avel! O mar dar cabo de si. Ir afund-lo, rasg-lo 
e desfaz-lo! Sabe bem quantas toneladas pesa uma vaga 
gigante!
-        E tambm sei como eu e o meu barco somos leves. 
Manter-nos-emos sempre  superfcie, enquanto as toneladas de 
gua passaro por cima de ns.
Era impossvel impedir Losskov. H trs semanas que viera de 
Hamburgo para Helgoland, precisamente naquele pequeno barco 
branco, que supostamente no se afundava. Instalara-se em casa 
de Jan Breuners no Nordeste da ilha e s foram precisos alguns 
dias para que ganhasse a sua alcunha: "o doido do continente". 
Quando boiava em frente  ilha com o seu fato especial, 
parecia uma laranja. Assustava os pescadores que no tinham 
sido avisados e que se aproximavam apressadamente para ajudar 
o nufrago e depois ficavam boquiabertos ao verem que se 
tratava de um homem que se divertia descontraidamente, 
recusando qualquer tipo de ajuda. Ele era o principal tema de 
conversa em todas as tabernas da regio, de tal modo que Jan 
Breuners quase teve vergonha de t-lo hospedado em sua casa.
O Dr. Failer, porm, sabia mais do que o resto da populao de 
Helgoland desde o dia em que convidara o "doido" para beber um 
copo. Ficou admirado ao descobrir que Peter von Losskov era 
engenheiro naval e fora tenente da marinha. Conhecia o mar to 
bem como poucos habitantes locais, que normalmente s tinham 
estado na duna mais prxima, conheciam Lange Anna e no mximo 
o mar entre Helgoland e Cuxhaven. Qual deles j dera a volta 
ao mundo num navio-escola  vela, ancorara em Singapura ou se 
envolvera numa pancadaria em Freetown, por causa de uma linda 
prostituta mulata? Losskov tinha muito para contar, mas do que 
preferia falar era da sua mais recente ideia que agora tomava 
conta da sua vida: antes dos famosos descobridores e 
navegadores como Magalhes, Cook, Vasco da Gama, Colombo ou 
Vespcio, tinha de ter havido outros homens a navegar pelos 
mares desconhecidos e a chegar a terras novas. Assim Thor 
Heyerdahl, por exemplo, com a ajuda de uma simples jangada, 
provara que j os Egpcios haviam estado na Amrica e que 
tinham construdo pirmides no Mxico.
-        Ento, o que mais e  que quer provar? - perguntou
o Dr. Faller, sem compreender. - J no h nada por descobrir!
-        Costuma dizer-se que as pessoas hoje em dia tm tudo, que 
esto amolecidas e ociosas de mais para, digamos, dar a volta 
 Terra do Fogo e descobrirem uma nova via martima, como 
Magalhes o fez.
-        Isso e  verdade! Ns metemo-nos num avio e preferimos 
ver tudo l de cima. e  muito mais fcil e menos perigoso. 
Para qu evocar a Idade Mdia na era atmica? - O Dr. Faller 
acendeu um charuto e voltou a encher o copo de Losskov de 
grogue. - O senhor disse que queria navegar de Hamburgo pela 
ponta sul da Amrica para as ilhas do Pacfico e depois 
continuar para o Japo e a China num pequeno barco, com uma 
tripulao mxima de quatro pessoas e sem grandes meios 
tcnicos?
-        Exactamente.
-        E tudo isso s para provar que, por exemplo, j os 
VIquingues teriam sido capazes de o fazer? Meu caro, o que e  
que o mundo ganha com isso?!
-        Um interessante relato em desenhos e a certeza de que, de 
vez em quando, ainda existem pessoas que se tornaro imortais 
atravs de pequenas aventuras como esta.
-        Eu no tenho nada contra a investigao, meu amigo. 
Quando o Piccard mergulhava para o fundo do mar, ele tinha as 
suas razes. Afinal, e  assim que se descobrem mundos 
desconhecidos. Ou vejamos ento a viagem para a Lua! Foi a 
concretizao de um eterno desejo do ser humano. Agora ao 
menos sabemos que no existe nenhuma senhora Luna e que esse 
planeta no se destina a ser um novo paraso. Mas aquilo que o 
senhor pretende fazer, Losskov, e  insignificante para a 
investigao!
-        Eu vejo as coisas de modo diferente - retorquiu Peter com 
um ar sonhador. - Enquanto existirem seres humanos, tudo 
aquilo que e  invulgar os fascinar, e sero atraidos por tudo 
o que parece inatingvel, sendo sempre o seu desejo secreto a 
grande aventura. Alm disso, eu quero pr  prova o meu 
fato... "inafundvel". - Olhou para o Dr. Faller com um ar 
interrogativo, como um rapaz que est  espera de um elogio. - 
Desta forma eu tambm contribuo para o progresso! Em breve 
ser impossvel afogar-se.
Agora, porm, j no estava to convencido daquilo que dissera 
ao Dr. Faller. As enormes vagas que se despenhavam em cima 
dele, pressionando-o contra o cadaste, e a fora das ondas que 
o impedia de respirar faziam-no sentir-se pequeno e impotente. 
No, ele no se afogaria, afinal era igual a uma pequena casca 
de noz que no podia ir ao fundo... Mas iria ele sobreviver ao 
forte embate das vagas ou acabaria por ser modo por elas?
O mastro do barco, que agora parecia um fino pauzinho, j h 
muito que se partira e fora arrastado para o mar. E, como num 
gesto de reconciliao, o vento voltara a insuflar as velas 
amarradas e rizadas.
O mastro voara pela tempestade como um pssaro gigante, branco 
e luminoso, parecendo liberto de gravidade, como se danasse 
em xtase, balanando sobre as ondas espumantes, at 
desaparecer num vale de gua. Losskov observara esse 
espectculo com os olhos bem abertos. Deixara de se sentir o 
senhor dos mares com o seu barco de plstico "inafundvel". S 
lhe restava esperar que uma vaga gigante o esmagasse. Dali a 
dois ou trs dias, o casco do barco branco seria encontrado e 
nele achariam um homem morto e esmagado com um fato de nylon 
cor de laranja que devia supostamente ter evitado que ele se 
afogasse. E, de facto, ele no se teria afogado; se no, teria 
sido abatido pelo mar furioso.
Losskov voltou a encolher a cabea entre os ombros:  sua 
frente formara-se um muro de gua que cobria o cu. 
"Acabou-se", pensou. "Este e  o meu fim. Desta vez, a presso 
rasgar os meus pulmes."
Uma forte corrente de ar arrancou-o para os ares, arrastando-o 
em direco ao muro de gua, ergueu o barco e deixou-o pairar 
na crista da enorme vaga, enquanto Peter via o mar l em baixo 
e um horizonte rasgado por grandes ondas. Parecia voar, 
arrastado pela tempestade, como acontecera com o mastro e com 
as velas e, enquanto ele se agarrava a uma vara com as ltimas 
foras, pde ver mais uma vez essa imagem de uma beleza to 
assustadora. Depois, o barco caiu para o abismo girando como 
um pio. Porm, at mesmo no momento em que mergulhou no mar 
fervilhante, pensou: "Eu sou "inafundvel"... O barco 
endireita-se sozinho." Depois o mar cobriu-o e o mundo 
afundou-se.
Dois dias mais tarde, o pequeno barco branco foi avistado por 
um helicptero da marinha federal, no mar ainda agitado, a 
trinta e sete milhas a norte de Helgoland. O barco de salvao 
aproximou-se dele e encontrou um homem desmaiado. Dava ainda 
fracos sinais de vida e no tinha ferimentos visveis, mas 
estava num tal estado de arrefecimento que, mesmo que fosse 
imediatamente transportado de helicptero para o hospital de 
Wilhelmshaven, no teria hipteses de sobreviver.
Nessa noite, o Dr. FaHer soube na taberna o que acontecera a 
Peter.
-        Pelo menos - disse -, todo este projecto suicida teve uma 
vantagem: se ele sobreviver, desistir do plano de dar a volta 
ao mundo!

Peter von Losskov sobreviveu.
Para salv-lo foi necessrio recorrer ao mtodo de aquecimento 
rpido. Deram-lhe um banho quente e ao mesmo tempo uma lenta 
infuso de 500 ml de Reomacrodex para evitar um colapso 
durante o reaquecimento. Como previsto, o paciente teve 
palpitaes e nessa altura injectaram-lhe 40 mg de 
Dipiridamol. Depois, s restava esperar e ver se Losskov era 
suficientemente forte para sobreviver a esse tratamento. 
Quando o tinham encontrado no mar, a temperatura do corpo 
estava doze graus abaixo do normal, o limite daquilo que o 
corpo humano consegue aguentar.
Trinta horas depois, Losskov j conseguia falar, e a 
temperatura do seu corpo estava normalizada. Tinham-no 
instalado num quarto individual, onde agora bebia o seu ch 
quente com rum e mordiscava uma bolacha enquanto ouvia as 
palavras do mdico-chefe, o Dr. Dehner. Como j era de 
esperar, aquilo que o mdico lhe tinha para dizer no era 
muito agradvel e era quase o mesmo que o Dr. Faller lhe 
dissera anteriormente.
-        Eu sei - anuiu Losskov quando o Dr. Dehner conclura por 
fim a sua crpica. - Eu sei que sou um doido! Mas apesar de 
tudo consegui provar que no me afundo!
-        Afogar-se ou ser encontrado a flutuar completamente 
congelado no mar e  exactamente a mesma coisa, se no se tiver 
em conta a aparncia fsica da pessoa que e  encontrada! - 
retorquiu o Dr. Dehner. - E, no seu caso, o mar foi at 
bastante piedoso. Se isto lhe tornar a acontecer nos mares do 
Sul, a gua talvez tenha uma temperatura mais agradvel, mas 
isso no e  suficiente para que sobreviva. Afinal o seu 
fatinho no o protege de tubares! Mas porque e  que eu lhe 
estou a dizer tudo isto quando o senhor conhece to bem o mar?
-        De facto, conheo-o bastante bem.
-        E isso no o impede de cometer tais disparates?
-        Posso-lhe fazer uma pergunta, senhor doutor?
-        Claro.
-        Quantas pessoas e  que j morreram nos seus braos?
-        O que e  que quer dizer com isso? - perguntou o mdico, 
indignado.
-        Apesar de essas pessoas terem morrido, o senhor continua 
a tratar os doentes e no desiste da luta contra as doenas. 
Umas vezes so os vrus, os bacilos, ou sei l o qu, que so 
mais fortes, outras e  o senhor que os vence. O seu colega da 
cirurgia, por exemplo, opera um estmago ou tira os rins e em 
cada cem operaes duas correm mal. Dever ele, por causa 
dessas duas vezes, desistir de operar?! E no diga que isso e  
completamente diferente, senhor doutor! Qual e  a sua 
especialidade?
-        A pancreopatia, ou seja, tudo o que tem a ver com o 
pncreas! - respondeu Dehner.
-        E a mim calhou-me o mar. Far sentido discutir acerca 
disso?
-        Consigo, de certeza que no! A mim s me interessa saber 
o que e  que vai acontecer agora.
-        A mim tambm! - Losskov riu-se. - Quanto tempo e  que 
terei de ficar na cama?
-        At o seu organismo se ter normalizado. Mas para o seu 
prprio bem, eu quase ouso desejar que fique com algum pequeno 
defeito!
-        O senhor parece-me um mdico perigoso, doutor! No prximo 
sbado, vou-me libertar dos seus cuidados. Est de acordo?
-        S se estiver disposto a assumir todas as 
responsabilidades! - O Dr. Dehner sentou-se na borda da cama e 
tirou um pequeno rdio do bolso da bata. - Material de apoio 
para o quarto nmero dezoito! - disse. E depois, virando-se 
para Losskov, comentou com um sorriso forado: - Vou-lhe dar 
uma injeco que fortalecer o seu corao e lhe proporcionar 
um bom sono. E ainda h outra coisa que deveria saber: o 
senhor tem uma sade de ferro! S muito poucos conseguiriam 
sobreviver a esta aventura! Mas no se orgulhe disso! Nem 
mesmo a sua maldita sade dura para sempre.
Um bom jornalista consegue tornar qualquer histria um 
sucesso, at mesmo sobre a vida amorosa de uma bisav de 
oitenta anos, e se for um bom profissional at fornece algumas 
fotografias. No se pode dizer que Dieter Randler fosse um 
desses excelentes jornalistas; todavia, possua uma 
caracterstica imprescindvel na sua profisso: tinha um 
excelente faro. No seu caso, era um faro para descobrir 
acontecimentos ou situaes que podiam ser transformados em 
temas de sensao.
Quando, por acaso, soube que Peter von Losskov fora encontrado 
no mar do Norte, perto de Helgoland, depois de, cheio de 
coragem e com uma certa estupidez, ter saido para o mar 
durante um violento furaco, Randler manteve-se silencioso 
durante alguns instantes e depois disse para si mesmo: "Tenho 
a certeza de que isto pode dar uma boa histria! A luta 
solitria de um homem contra o mar."
Meteu-se no seu pequeno carro desportivo e cerca de hora e 
meia depois estava em Wilhelmshaven. Ao chegar ao hospital 
teve de confrontar-se com o mdico de Peter.
-        O doente precisa de repouso! - exclamou o Dr. Dehner, 
decidido. - Para alm disso, no vejo o que este caso tem a 
ver com a imprensa. Ser assim to raro algum naufragar e ser 
salvo?! No vale a pena vir para o meu hospital  procura de 
uma histria que lhe ajude nestes maus tempos!
-        Eu estou aqui como amigo do Peter e no como jornalista. 
A propsito, no acha que isto dava um belssimo ttulo: 
"Doutor Dehner vence a morte por arrefecimento?"
O mdico achou melhor no iniciar uma discusso com o 
jornalista acerca daquilo que era um bom ttulo. Fez um gesto 
de mo depreciativo.
-        Pode falar com o seu amigo quando ele sair do hospital - 
declarou. - At l, e isso garanto-lhe, ele ficar na cama sem 
ser incomodado! Muito prazer!
-        Ah! Esse sotaque no e  de Viena? - perguntou Dieter 
Randler, contente.
O        mdico hesitou.
-        Adivinhe! - respondeu. Depois, afastou-se a passos 
rpidos.
Um enfermeiro com um queixo quadrado e ombros largos lanou um 
sorriso irnico a Randler. Ergueu as suas enormes mos e 
mostrou-as como se fossem obras de arte a leiloar.
- Vamos? - perguntou com um ar simptico, mas ao mesmo tempo 
duro.
Randler teve de admitir que no havia nada a fazer contra 
tanta discriminao em relao  imprensa. Nem mesmo uma boa 
gorjeta ajudava. Assentiu com a cabea e dirigiu-se para a 
sada da clnica. Porm, em baixo, ao chegar  recepo, parou 
e mostrou um ar desiludido.
-        Eu sou mesmo estpido! - disse  enfermeira que estava 
sentada em frente ao pequeno ficheiro com os nomes dos doentes 
e que parecia espantada com esta exclamao.
- Acabo de sair do quarto do senhor Von Losskov. Peter von 
Losskov. Ele e  meu amigo de infncia. E eu nem sequer me 
consigo lembrar do nmero do quarto dele! Que estupidez! Ser 
que so os primeiros sinais de esclerose? Afinal, qual e  que 
era o nmero do quarto?
A enfermeira consultou o ficheiro e encontrou o nome.
-         o quarto cento e trinta e nove - respondeu -, dos 
pacientes privados do doutor Dehner. Primeiro andar.
-         verdade! - Randler levou a mo  testa. - Isso fica do 
lado de trs, com vista para o jardim!
A enfermeira confirmou e Randler saiu do hospital. L fora 
olhou para a fachada do prdio e ficou satisfeito com aquilo 
que viu. Depois voltou para a cidade e jantou um bom assado de 
vaca num restaurante.

A meio da noite, Peter von Losskov foi acordado por um 
estranho barulho vindo da varanda, em frente ao seu quarto. 
Conseguiu distinguir um vulto no escuro. A porta de vidro 
mexeu-se e uma voz sussurrou:
-        Cala o bico, Peter, e no te assustes! Sou eu, o Dieter. 
O meu mdico aconselhou-me um pouco de ginstica ao ar livre.
Dieter entrou no quarto, fechou a porta de vidro que dava para 
a varanda e puxou uma cadeira. Losskov ligou a luz. Era mesmo 
Randler. O seu sorrisinho era inconfundvel.
-        Tu deves estar completamente bbedo! - exclamou Losskov. 
- Este quarto no tem uma porta de entrada?
-        Sim, mas ela e  vigiada como se se tratasse da entrada 
para o paraso! Meu Deus, o que e  que tu fizeste! Ser que 
pelo menos te encontraste com o Neptuno ou engravidaste uma 
sereia?!
-        Decidi escrever um livro.
-        Isso e  horrvel! E foi necessrio um furaco para 
tomares essa deciso?
-        Pretendo provar que o homem, hoje em dia, embora seja 
frequentemente acusado de no ser capaz de nada, e  to 
resistente e corajoso como os famosos navegadores dos sculos 
passados. A minha ideia consiste em repetir as grandes viagens 
de Cook ou Vasco da Gama num pequeno barco  vela e sem 
quaisquer meios tcnicos. Apenas com a ajuda das minhas 
prprias mos e sobretudo com a vontade de vencer o mar.
-        Tu dizes isso como se fosse uma coisa muito simples! 
Nota-se que nos aproximamos da meia-noite. Ests a pensar em 
dobrar o cabo Horne e a Terra do Fogo com aquela casquinha de 
noz?
-        Exactamente!
-        E para isso metes-te num furaco?
-        Aquilo foi s um treino.
-        E foi uma estupidez to grande que deveria ficar 
registada para a posteridade! Quando e  que vai ser o momento 
histrico da tua partida?
-        Logo que tenha o dinheiro para isso! Preciso apenas de um 
barco que corresponda aos meus planos.
-        Mais nada? - Randler passou a mo pelo cabelo de Losskov 
como que a acalm-lo. - Bem, deve haver por a algum homem 
rico que por  tua disposio a sua fortuna. Meu Deus, se eu 
tivesse sabido antes que era s isto que tinhas para me 
contar, no teria trepado a maldita parede!
No entanto, at um reprter experiente como Randler s vezes 
se engana! Quando, por acaso, contou a histria do seu amigo 
Peter numa reunio da redaco do jornal, o redactor-chefe 
saltou da cadeira, como se tivesse apanhado um choque 
elctrico.
-        Dieter, isso e  uma mina! Vamos transformar essa histria 
num sucesso! Tenho sessenta linhas  disposio. Todos ao 
trabalho! Quero que o artigo saia amanh!
Dieter Randler fez o melhor que pde, escreveu uma histria 
dramtica com um cheiro a mar, um verdadeiro hino ao heroismo 
moderno e deu-lhe como titulo: "Jovem cientista quer 
conquistar o mundo numa casca de noz."

O Dr. Dehner apareceu no quarto de Losskov s dez da manh com 
um semblante srio, e atirou o jornal para a cama.
-        Eu no posso fazer mais nada - declarou. - Se quiser, v 
para a Terra do Fogo com a sua casquinha de noz. Quem acredita 
firmemente que dois vezes dois so cinco, no pode ser 
convencido do contrrio.
Losskov pegou no jornal, lanou um olhar ao artigo e abanou a 
cabea.
-        Eu no sei nada acerca disso. A ideia central do artigo 
nem sequer corresponde  realidade.
-        Mas conhece o autor?
-        Sim, e  o Dieter Randler.
-        Eu tambm o conheo. Expulsei-o da clnica, ontem.
-        Isso foi um erro, senhor doutor.  noite, ele trepou o 
muro e apareceu no meu quarto.
O Dr. Dehner suspirou.
-        A partir de agora terei de dar um quarto no andar de cima 
a pessoas como o senhor.
-        Ento os curiosos utilizaro as escadas de bombeiros. 
Losskov leu o artigo com calma. Aquilo que Randler escrevia, 
em principio, estava certo, mas os factos tinham sido 
transformados numa histria sensacional. O mdico esperou que 
Losskov tivesse acabado de ler o artigo.
-        Antes de o deixar ir embora, gostava de saber uma coisa - 
proferiu. - O senhor anda  procura de uma equipa que navegue 
consigo pelos mares e que testemunhe que o senhor e  
excepcional! Isso chama-se uma experincia psicossociolgica. 
Se eu bem entendi, a questo principal e  saber se ns, hoje 
em dia, somos uns cobardes, ou se afinal no seremos capazes 
de fazer o mesmo que Cristvo Colombo?
- Eu no diria as coisas de uma forma to extrema, senhor 
doutor. Pretendo provar que os Viquingues com os seus barcos 
eram capazes de alcanar no apenas a Amrica do Norte, isso 
j foi provado!, mas tambm os mares do Sul. Em frica, foram 
encontradas mscaras de dana talhadas em madeira que so 
quase idnticas aos capacetes dos Viquingues! Porque no 
havemos de pr a hiptese de que tenha havido barcos 
viquingues que navegaram ao longo da costa africana, 
atravessaram o oceano at  costa sul da Amrica e depois, 
passando pela Terra do Fogo, chegaram ao Pacfico? 
Naturalmente no existem testemunhos que nos possam dar uma 
resposta. Apenas sabemos que os Normandos no temiam o mar. 
Mas esta questo interessa-me, eu quero analis-la, quero 
repetir esse sonho da conquista do mundo. Eu sei, senhor 
doutor, que o seu interesse cientfico vai para a 
linfogranulomatose, a doena de Hodgkin, embora a progresso 
nessa rea seja quase nula! Porm, o senhor no desiste. E eu 
tambm no vou desistir. - Losskov apontou para o jornal. - De 
resto, h aqui um outro ponto que est incorrecto: "Eu no 
ando  procura de ningum para me acompanhar. Pretendo fazer 
esta viagem sozinho. Sem motor, nem bssola, nada para alm de 
um pouco de tecido no mastro! Os Viquingues tambm no tinham 
gasleo, nem uma bssola." - Dobrou o jornal e colocou-o na 
mesa-de-cabeceira. - A partir de quando e  que precisa de ter 
esta cama livre?
-        Quando o oio falar assim... acho que seria melhor o 
senhor continuar na cama! Um tratamento intensivo aos nervos 
far-lhe-ia muito bem. - O Dr. Dehner encolheu os ombros num 
gesto resignado~ - Pode ir-se embora quando quiser.
-        Dentro de duas horas, por exemplo?
-        Por mim, pode ser!
-        Quero ir  redaco do jornal conversar com o meu amigo 
Randler. Se calhar e  melhor ir j guardando uma cama para ele 
nas urgncias!
Quando, pouco depois, Losskov apareceu na redaco para pedir 
uma justificativa a Randler, este recebeu o seu amigo de 
braos abertos. Era impossvel zangar-se com uma pessoa to 
simptica e alegre.
-        Acertmos em cheio, Peter! - exclamou Randler, 
entusiasmado. - Quem diria! Ficmos surpreendidos. A indstria 
est a morder o anzol! H trs propostas de empresas de bens 
alimentares. Ters carne em lata, conservas de massa e salame! 
Para alm disso, dar-te-o frutos secos ricos em vitaminas, 
barras de fruta cristalizada, chocolates e fortalecedores para 
os msculos e os nervos! Se por acaso te perderes no Plo Sul, 
no precisas de ter medo! Proposta nmero seis: sacos-camas 
com um forro inovador e aquecimento a pilhas, que te 
permitiro pernoitar num icebergue. E tambm fornecem botas 
com uma moderna sola de borracha superaderente que parece um 
man. Ser impossvel cares! Meu Deus, que mais e  que tu 
queres?! At o barco j tens no bolso, ou melhor, na gua.
-        Dieter! - Losskov teve de se sentar. - Isto parece 
inacreditvel.
-        Podes ler as propostas com os teus prprios olhos! De 
momento ainda esto a ser exploradas para um novo artigo. Se 
esse artigo sair amanh, os outros empresrios tambm faro 
propostas. Afinal, e  impensvel que a fbrica de chocolates 
Doce Fim de Tarde te fornea a alimentao e a fbrica 
concorrente Pr do Sol deixe escapar esta oportunidade de 
fazer publicidade. Peter, nos prximos dias vamos receber uma 
chuva de ofertas! Ah, e para o barco j temos a proposta de 
uma empresa de detergentes para a roupa. Apenas exigem que o 
nome do detergente aparea escrito no barco. Do lado esquerdo 
e do lado direito, bem legvel: "Mil Estrelas."
-        Nunca! - disse Losskov, alto.
-        Mas esse nome vale ouro! "Mil Estrelas" at soa muito bem 
para um barco! O cordame fica a cargo de uma subsidiria dessa 
empresa, que fabrica abrasivos. A condio que pe e  que nas 
velas aparea a frase: "A volta ao mundo com os produtos 
Relmpago em casa!"
-        E tu queres que te agradea por iSSO? - perguntou 
Losskov, furioso. - Vocs transformaram a minha ideia num
evento popular! Eu no quero nada disso! No Vou 
precipitar-me. Adiarei o projecto por um tempo indefinido.
-        Isso agora e  impossvel! - Randler afastou-se um pouco 
do seu amigo. - Tudo est em pleno andamento! Tu agora j no 
podes desistir! Ns escrevemos claramente no jornal: "Para a 
realizao deste grande projecto realmente s falta um grande 
investimento...
-        Isso e  um disparate!
-        Mas o pblico gosta de ouvir essas coisas, Peter! As 
pessoas agora esto do teu lado. Sofrem contigo, navegam 
contigo, passam fome contigo e contigo estendero o traseiro 
por cima do bordo para as ondas o limparem. Meu amigo, tu nem 
imaginas o que significa tanta fama! Implica certas 
obrigaes! e  como um contrato entre ti e os leitores! Tu 
deixas de pertencer a ti prprio e passas a ser propriedade 
pblica! Agora, j no podes recuar, se no, provocarias um 
escndalo. Nada pior do que um louco que de repente se torna 
normal! J no podes desistir, Peter! A partir de amanh 
apostaremos tudo na aventura da Terra do Fogo!
-        Mas a Terra do Fogo e  s uma parte de todo o programa e 
nem sequer constitui um ponto marcante!
-        Porm, tem potencial para isso! Vende-se como po quente! 
Terra do Fogo... S o nome basta para fazer florescer a 
fantasia de qualquer pessoa! Soa a aventura, a novo mundo, 
perigo e heroismo! Terra do Fogo! Que nome! "O homem que 
venceu a Terra do Fogo!" Isso fica muito melhor do que: "O 
homem que venceu uma batalha!"
Randler era imparvel. Losskov apercebeu-se, admirado, que a 
sua ideia, no fundo sua propriedade, iria ser comercializada 
mundialmente. Randler tinha razo: no se podia voltar atrs 
sem arriscar um escndalo. Se recusasse agora, todos diriam 
que tinha medo. Seria chamado cobarde! E qual e  o homem que 
gosta de ouvir uma coisa dessas?
-        Mostra-me as propostas! - disse Peter. - Se eu quisesse, 
poderia apresentar queixa contra vocs. Teriam de publicar no 
vosso jornal que tudo aquilo que escreveram era mentira.
-        E ento? Publicaramos isso na ltima pgina, no canto 
inferior esquerdo, e por cima apareceria um titulo a vermelho 
e sublinhado: "A mulher com o superpeito de Los Angeles. Cento 
e vinte e sete centmetros de volume suspenso!"... Quem e  que 
dar importncia  notcia que est por baixo? Peter, no 
sejas to moralista! Tudo o que precisas para concretizar a 
tua grande ideia est  tua disposio! Que mais e  que tu 
queres?! As coisas no podiam ser mais fceis! Se contares 
apenas com as tuas prprias foras, nunca vais conseguir 
concretizar o teu sonho! Por amor de Deus, chama o teu barco 
Mil Estrelas e cola nas velas as letras dos produtos 
Relmpago. O que importa e  que te possas dedicar s tuas 
investigaes. Todos os grandes homens tiveram os seus 
mecenas: Wagner teve o rei bvaro Lus II, Haydn o Esterhzy, 
Goya o duque de Alba e Miguel |ngelo o Mdicis. E Peter von 
Losskov navega  conta de um detergente.... Qual e  o 
problema? O que importa e  o sucesso. E ns ajudamos-te a 
alcan-lo!
Losskov teve de admitir que Randler tinha razo. Ergueu-se e 
bebeu o usque que este lhe oferecera.
-        Se houver alguma coisa, sabes onde me encontrar - 
declarou. - Estarei em casa.
Depois, foi-se embora com a esperana de que as coisas no se 
desenvolvessem da maneira que Randler previa no seu 
entusiasmo. " s uma questo de tempo", pensou. "Depois de 
amanh ningum se lembrar de nada. Quem e  que ainda pensar 
nos Viquingues? E na Terra do Fogo? Isso fica longe de mais; 
l em baixo, na ponta da Amrica do Sul, no fim de um 
continente. Quem e  que se preocupa com a Terra do Fogo? 
Ningum!" Enganava-se.

Durante toda a semana, a histria de Peter von Losskov ocupou 
a terceira pgina do jornal, que era a mais lida. Dieter 
Randler estava a exceder-se. Aquilo que inventava acerca da 
Terra do Fogo aparentava ser excelente jornalismo, mas na 
verdade tratava-se de um atrevimento inconcebvel. Segundo o 
artigo, a Terra do Fogo era uma zona rochosa e deserta na 
ponta sul da Amrica; uma das zonas mais perigosas
da terra ainda no explorada. Randler nem sequer teve 
escrpulos em afirmar que houvera marinheiros que a partir do 
mar tinham avistado animais em enormes cavernas que apenas se 
conhecia de modelos da fauna de tempos remotos.
"Ainda haver drages?", perguntava Randler, ousado, no seu 
artigo, e respondia com a mesma ousadia: "Este mistrio ser 
igualmente resolvido por Peter von Losskov!" O texto inclua 
uma fotomontagem que mostrava a Terra do Fogo ao fundo e em 
primeiro plano o mar bravo. Por cima, havia a ilustrao de 
uma antiga lenda: um enorme drago voador. Tratava-se, de 
facto, de uma imagem impressionante.
Uma semana depois, Randler foi visitar Peter. Trazia uma mala 
cheia de cartas que espalhou no sof. Depois sentou-se numa 
poltrona com um ar extremamente satisfeito.
-        Est na hora de me louvares, amigo! - anunciou contente. 
- Aquilo que vs  tua frente so cartas de leitores. 
Propostas. Comentrios. Confirmaes. Pedidos.
-        H alguma de uma clnica psiquitrica? - perguntou 
Losskov, furioso.
-        Ainda no. Essas aparecero mais tarde, quando ns 
escrevermos: "Losskov esquiva-se!" - Randler apontou para o 
monte de cartas. - O que tu vs a e  matria suficiente para 
escrever cem romances! Eu nem quis acreditar quando vi essa 
correspondncia toda. Mergulha nessas cartas, Peter! At 
existe uma proposta para uma nova cano: "Na Terra do Fogo, 
na Terra do Fogo, onde o amor arde como uma chama..."
- Rua! - exclamou Losskov num tom de voz abafado. - Sai daqui, 
j! E leva essa mala contigo! Sabias que eu seria absolvido se 
te estrangulasse agora?
- Contenta-te em servir-me uma vodca! Com bitter de limo, por 
favor.
- Eu junto-lhe veneno para ratos.
- Ah, e  isso que eu mereo? Trabalhei como um animal para 
ficares conhecido. Agora s precisas de dizer que a aventura 
da Terra do Fogo pode comear! A propsito, h tambm uma 
carta de um senhor de noventa e dois anos que afirma que h 
trinta e quatro anos viu um drago nos Andes, igual quele que 
aparece na imagem do jornal. e  interessante, no achas? Claro 
que falaremos disso no prximo artigo: "Testemunha ocular 
avisa Peter von Losskov: Os drages da Terra do Fogo tm um 
hlito sulfuroso." Estou muito satisfeito.
- Eu ainda hei-de encontrar algum que d cabo de ~ Losskov 
trouxe a garrafa de vodca e outra com o bitter.
- e  verdade, a empresa de detergentes telefonou-me e disse 
que estava disposta a fornecer o barco.
-        Aleluia!
- E nem sequer s obrigado a cham-lo Mil Estrelas! Parabns. 
Ento como e  que o vais chamar? - perguntou Randler, 
apreensivo.
- Ter um nome simples, como Lorde dos Mares, por exemplo.
- Era o que eu imaginava. Os tipos da publicidade so uns 
gnios! Daqui a cinco semanas haver uma nova goma para a 
roupa no mercado: "Lorde dos Mares: a goma que resiste a todas 
as mars!" Parabns, Peter!
Isto era motivo suficiente para Peter esvaziar a garrafa de 
vodca juntamente com Randler.

Losskov levou quase dois dias para ler todas as cartas e as 
ordenar. Repartiu-as em quatro grupos: o primeiro era formado 
pelos leitores neutros, que se limitavam a dar a opinio 
acerca do projecto, fazendo sugestes e comentrios. No 
segundo grupo, encontravam-se as propostas de publicidade que 
iam desde os suspensrios elsticos, passando pela escova de 
dentes que funcionava  base de energia solar e pelo rdio de 
frequncia modulada e  prova de gua, at  roupa interior 
impermevel. O grupo nmero trs era constitudo pelo pequeno 
e prestigiado circulo de empresas que tencionavam apoiar o 
projecto atravs de donativos e que mandavam propostas 
detalhadas, e por fim o quarto grupo, do qual faziam parte 
aqueles que queriam acompanhar Peter von Losskov na conquista 
dos mares.
Quando Randler leu as cartas deste ltimo grupo, arfou, 
entusiasmado: noventa e quatro homens e mulheres escreviam a 
dizer que no temiam nada neste mundo!
Um antigo legionrio, que actualmente era guia numa pequena 
cidade alem medieval, onde trs vezes por semana interpretava 
o papel de fantasma do castelo, juntara trs fotografias  
carta, como referncia. As imagens mostravam-no dentro de um 
jipe, cujo radiador fora enfeitado com uma verdadeira caveira 
e dois ossos cruzados (legenda: "Os bons tempos no Congo") e 
um recorte de um jornal j amarelado com o titulo: "Quem e  o 
misterioso capito mercenrio no Sul?" "Sou eu!", escrevia o 
leitor. "Pode contar comigo em qualquer situao. Eu fao 
parte daquela antiga gerao que est a desaparecer. Eu 
desenrasco-o, onde quer que esteja. No sei o que e  o medo. 
Quando os outros fogem, eu comeo a gostar da situao! Estou 
 sua disposio a partir de agora. O meu contrato como 
fantasma do castelo pode ser revogado a qualquer hora."
Havia tambm um corretor financeiro que escrevia num estilo 
sbrio, claro e conciso, como convm a um homem que lida com o 
dinheiro. "Proposta: Tomaremos conta de uma ilha desabitada, 
na qual fundaremos o nosso estado, elaboraremos uma 
constituio, garantiremos iseno de impostos e, desta forma, 
atrairemos grandes investimentos. As taxas administrativas 
desses capitais sero suficientes para obtermos grandes somas 
para ns."
Seguiam-se interminveis contas, colunas com nmeros 
infinitos, a proposta de fundao de uma estao de rdio com 
publicidade, o esboo de eventuais selos, tal como de uma 
bandeira nacional. Era impressionante.
Um aougueiro escrevia: "Para alm de ser um excelente 
cozinheiro, capaz de fazer milagres a partir de uma lata de 
conservas, sou um homem de um metro e noventa, com uns 
msculos como um touro, capaz de destroar o crnio de uma 
vaca com um simples murro e sou um homem do mar. Em tempos, j 
fui cortador de carnes num cruzeiro de frias. Porm, e apesar 
de tudo isto, a minha mulher prefere andar com um pequeno e 
frgil italiano que, quando eu expiro, quase cai para o lado. 
Consegue compreender isso? Eu no! Como e  que se pode amar um 
mosquito quando se tem uma guia?! Isso deprime-me. Quero ir 
consigo para a Terra do Fogo caar drages! Quem sabe se eles 
no sero comestveis e ns poderemos fundar uma empresa de 
exportao de carnes. Porque no? Se se come caracis, coxas 
de r, formigas grelhadas e sei l mais o qu, porque e  que 
no se h de comer costeletas de drages da Terra do Fogo?! 
Senhor Von Losskov, eu sou a pessoa que procura! Estou ao seu 
inteiro dispor!"
Contudo, havia tambm algumas propostas mais srias, que 
Losskov leu com muita ateno. Nunca tencionara incluir outras 
pessoas naquela aventura, mas quanto mais pensava nisso, mais 
provvel lhe parecia a ideia de levar a cabo a aventura com 
uma pequena e bem seleccionada equipa. Desse modo, poderia ao 
mesmo tempo eliminar um perigo que era o maior medo de um 
marinheiro: a solido, o sentimento de abandono, o poder do 
silncio.

Trs dias depois, Losskov escolhera trs cartas, sem porm 
ainda ter redigido uma resposta. Tratava-se de jovens 
cientistas que realmente s lhe tinham escrito devido  
possibilidade de fazer uma pesquisa ao longo da viagem, isso 
baseado apenas na vaga ideia do projecto que tinham tido a 
partir do artigo no jornal. Eram cartas redigidas num tom 
crtico, que mereciam uma resposta sria.
Helena Sydgriff era sueca, estudante de Medicina. Estava 
interessada no contexto psicolgico dessa viagem: Como e  que 
se comportariam pessoas que, durante vrios meses, convivem 
num espao reduzido, unidas no bem e no mal e que, juntas, tm 
de enfrentar situaes extremamente crticas?
Era uma questo muito interessante, sobre a qual valia a pena 
reflectir.
Jan Trosky era um checo de trinta anos, assistente no 
Instituto de Climatologia, e o seu problema era saber se 
certas correntes do mar estariam a sofrer alteraes, 
exercendo assim uma influncia no clima, que, como era 
conhecido nos ltimos anos, estava a sofrer graves alteraes. 
O mar visto como uma enorme fonte climtica, isso j estava 
provado. Mas, mesmo assim, o mar continuava a ser uma rea 
bastante desconhecida. Trosky citava o tringulo das Bermudas.
Peter von Losskov decidiu tambm responder a essa carta. E 
depois havia uma italiana, chamada Lucrezia Panarotti,
estudante de Biologia submarina, que juntava uma fotografia  
carta. Era uma pequena mulher frgil, extremamente bonita, que 
ali se mostrava de biquini. O seu longo cabelo preto esvoaava 
ao vento. A preocupao dela era a seguinte:
"O que e  que ns sabemos acerca dos problemas a nvel da 
biologia marinha da Terra do Fogo? Nada! Porqu? Porque 
aparentemente essa questo no interessou a ningum at hoje. 
E, no entanto, o mar perto da Terra do Fogo pode, 
teoricamente, elucidar-nos acerca de como o mar realmente 
deveria ser sob o ponto de vista biolgico, e isso 
permitir-nos-ia compreender o que fizemos aos outros mares..."
- Se esta for a tua equipa - comentou Randier depois de 
Losskov ter escolhido as trs cartas -, certamente que levars 
ptimos especialistas a bordo. E naquilo que me diz respeito 
como jornalista, garanto-te que duas mulheres bonitas e dois 
homens fortes que se juntam durante vrios meses num barco do 
uma ptima histria! Ests consciente de que vais levar 
contigo Helena e Lucrezia, duas mulheres lindas?
- Primeiro, quero conhec-las e conversar com elas - afirmou 
Losskov num tom pensativo. - Afinal elas ainda nem esto a 
bordo! Eu nem sequer tenho um barco! Isto tudo ainda se limita 
a ser um cenrio imaginrio. Mas se eu navegar com uma equipa, 
ento tambm no tentarei escapar  pergunta da Helena 
Sydgriff: como e  que se comporta uma pessoa que se junta com 
mais trs numa casca de noz, rodeada unicamente por gua e 
tendo de conviver com elas durante semanas? Como eu j disse 
antes, trata-se apenas de uma pr-seleco.
No dia seguinte, Losskov escreveu trs cartas, propondo um 
encontro em Hamburgo.

Sem estar consciente disso, acabara de mudar o seu destino e a 
sua vida.

Tinham combinado encontrarem-se no vestbulo do Hotel Quatro 
Estaes e depois irem para o bar para conversarem. Helena 
Sydgriff telefonara a Peter von Losskov depois de ter recebido 
a resposta. A sua voz era agradvel, quente e confortvel, e 
quando falava tinha um interessante sotaque nrdico. Trosky e 
Lucrezia Panarotti responderam imediatamente por escrito. 
Enviaram cartas registadas por correio expresso, anunciando 
que estavam ansiosos por conhec-lo, e cada um deles juntava 
uma fotografia mais recente  carta. Quando Dieter Randler viu 
a fotografia de Lucrezia, soltou um estalido com a lngua. 
Losskov arrancou-lha das mos, furioso.
- Esse Jan Trosky e  c um homem! - exclamou Randler. - Tem um 
olhar que parece queimar. E uns grandes msculos! Com esse, 
ningum se mete!
- e  exactamente o tipo de homem que procuro! - Losskov 
guardou as cartas. - Teremos de enfrentar as mais diversas 
situaes durante esta viagem!
- E a doce Lucrezia? Ser que ela aguentar? - Randler olhou 
para cima. Havia uma miniatura do barco Santa Maria pendurada 
no tecto. Fora o barco com o qual Colombo tentara descobrir o 
caminho martimo para a ndia. - Ela deve ser resistente. Isso 
adivinha-se. Parece ser daquelas mulheres que continuam aos 
saltos na cama quando tu j ests completamente exausto.
Era quase impossvel ter uma conversa sria com Randler. 
Losskov expulsou-o de casa e j estava preparado para, no dia 
seguinte, ver um novo artigo no jornal: "O iate das beldades." 
Mas Randler no escreveu nada nesse sentido:
apenas publicou uma noticia a dizer que muitas empresas 
continuavam a mandar-lhes propostas de apoio ao projecto.
Passava pouco das quatro da tarde, quando Losskov chegou ao 
Hotel Quatro Estaes. Para poderem identific-lo, avisara-os 
de que vestiria calas castanhas e um blazer de pele de camelo 
escuro com uma vela de esmalte azul e branco no lado esquerdo.
Quando entrou no hotel, houve logo trs hspedes, um homem e 
duas mulheres, que saltaram dos seus lugares e vieram ao seu 
encontro. Quando repararam que se estavam a dirigir todos para 
a mesma pessoa olharam uns para os outros, espantados. Losskov 
sorriu e estendeu os braos para cumpriment-los.
-        Sim, sou eu! Fico contente por terem vindo todos. So 
exactamente como os imaginava.
Helena Sydgriff era uma mulher alta, magra e loira. Os seus 
olhos pareciam observadores e tinha um ar desportivo, como se 
fosse uma ptima tenista, por exemplo. Estendeu a mo a 
Losskov. O seu aperto de mo era forte e ao mesmo tempo sem 
compromisso.
Era decidida: isso notava-se pelo seu aperto de mo. Lucrezia 
Panarotti era completamente diferente. Aproximou-se a passos 
leves, calando os saltos mais altos que Losskov jamais vira. 
Tinha umas pernas longas e bonitas, ancas estreitas, um corpo 
malevel e um grande decote que dava nas vistas. O seu cabelo 
preto esvoaava de um modo to selvagem como s um 
cabeleireiro muito caro o era capaz de arranjar. No hesitou 
em abraar Losskov, permitindo-lhe cheirar o seu perfume 
extico e deixando-o olhar para os seus olhos pretos e 
reluzentes. A sua boca entreabriu-se como uma ptala, mas ela 
no o beijou. Apenas disse, chegando-se muito perto do seu 
rosto:
- Est desiludido comigo, no est? Mas no se preocupe. 
Talvez eu no seja capaz de espremer uma batata crua nas mos 
como o seu colega no Barco dos Mortos de Traven, mas 
garanto-lhe que sou certamente capaz de rizar a vela de balo 
num tempo recorde. Sou capaz de muito mais do que os senhores 
imaginam!
- Veremos, Lucrezia - disse Losskov. - Hoje s vamos 
apresentar-nos uns aos outros. Ainda falta muito tempo para 
nos podermos considerar uma equipa. Teremos de superar muitas 
provas.
-        Nem imagina como eu sou resistente! - disse ela, 
rindo-se, e Losskov lembrou-se das palavras de Randler.
Jan Trosky tinha uns ombros largos, umas pernas fortes e uns 
braos ligeiramente compridos de mais. O cabelo ia-lhe at aos 
ombros e nas pontas formava ligeiros caracis. Losskov 
imaginara-o mais alto, mas era evidente que aquele homem tinha 
uma fora extraordinria. Fitou Losskov com um olhar crtico e 
retrado. Notava-se que achara ridcula a apresentao teatral 
de Lucrezia.
- Tenho muito prazer em estar aqui - pronunciou com uma voz 
grave. - O que o senhor est a planear pode ser uma grande 
jogada. Se encontrar as pessoas certas.
Referia-se a Lucrezia. Porm, ela no parecia ter compreendido 
a aluso ou ento simplesmente a ignorara. Helena, porm, 
franziu as sobrancelhas.
Losskov esforou-se para conseguir ultrapassar esses primeiros 
minutos.
- Antes de irmos para o bar, para nos conhecermos um pouco 
melhor, deveramos estar de acordo numa coisa: todos ns somos 
pessoas que querem realizar um grande sonho!
-        Bravo! - Jan Trosky deu uma palmada no ombro de Losskov. 
- Eu chamo-me Jan Trosky!
- Eu sou Helena Sydgriff.
- E eu, Lucrezia Panarotti. - O seu cabelo preto esvoaou na 
cabea de perfil clssico. - O meu pai tratava-me por Luzi. 
Faleceu h dois anos.
- Foi envenenado? - perguntou Trosky. Lucrezia fitou-o com um 
ar desiludido.
-        Caiu ao praticar alpinismo nos Abruzos. Porque haveria 
ele de ser envenenado...?
- Foi s uma ideia. Afinal o nome Lucrezia e  comprometedor. 
Lucrezia Borgia no tinha problemas com isso.
- Que engraado!
- Ser assim to importante divulgarmos os nossos nomes 
familiares ou alcunhas? - perguntou Helena Sydgriff num tom 
claramente agressivo. - Portanto, o seu nome e  Luzi. O meu 
pai chamava-me Loirinha. E o senhor, Trosky?
-Fedorento... Peo desculpa por no ter melhor alcunha. O meu 
pai no tinha sentido de humor. Mas tambm, que mais e  que 
lhe restava? Era o guarda-mor da estao de guas residuais do 
municpio.
Losskov piscou-lhe o olho; Trosky no lhe respondeu. S a e  
que Peter percebeu que Trosky estava a falar a srio.
- Loirinha, Luzi e Fedorento - disse Lucrezia, mexendo 
ligeiramente as ancas. - Apenas o nosso futuro dono e mestre 
permanece silencioso.
- Em vez de Peter chamavam-me Peer. - Losskov encolheu os 
ombros. - O meu pai tinha a mania das coisas nrdicas! Os 
Losskov, segundo as investigaes dele, tinham sido parentes 
de um rei normando que se chamava Lossokau... ou uma coisa 
parecida. Isto h centenas de anos.
- Ento e  da que provm o seu sonho viquingue de navegar  
volta do mundo! - Trosky riu-se. - Eu j estou a ver que nos 
vamos dar muito bem.
- Veremos! - Helena Sydgriff afastou uma madeixa de cabelo da 
testa. - At agora s sabemos que estamos todos dispostos a 
partir para a aventura. Mas no sabemos se prestamos para 
Isso...
Dirigiram-se para o bar e sentaram-se na mesa reservada, a um 
canto, deixando Losskov escolher a bebida de boas-vindas.
- Champanhe? - perguntou.
- A esta hora da tarde? - Trosky descontraiu-se. - Eu prefiro 
tomar um usque. Posso? No meu pas de origem, atrs da 
"cortina de ferro", o usque e  uma raridade.
Losskov pediu as bebidas. "Este Trosky e  um individualista", 
pensou. " exactamente o contrrio daquelas pessoas que seguem 
as massas. Tem uma cabea dura. Isso tem as suas vantagens 
quando se trata de enfrentar um inimigo, sobretudo quando esse 
inimigo e  o mar!"
- Eu no tentarei iludir-vos - comeou Losskov. - Aquilo que 
nos espera e  tudo menos agradvel. A viagem que temos  nossa 
frente ser um sofrimento sem fim, uma luta constante contra o 
mar e a tempestade, o sol e o frio, a solido e as agresses 
que cada um de ns ir acumulando aos poucos. Teremos os 
nervos  flor da pele e o medo apoderar-se- de ns! Ser que 
suportaremos tudo isso? No sei.
- e  exactamente para obtermos essa resposta que vamos fazer 
esta viagem - retorquiu Helena Sydgriff, secamente.
-        At que ponto e  que o homem e  capaz de suportar uma 
semelhante carga fsica e psicolgica ao mesmo tempo?
-        E se acabarmos por nos devorar uns aos outros? - 
perguntou Trosky. Lucrezia riu-se alto, mas Losskov sabia que 
no se tratava de uma piada.
-        Tambm e  uma hiptese. - Helena pegou no copo de 
champanhe com as suas mos finas mas fortes. - Isso 
significaria que teramos perdido. As experincias com seres 
humanos esto sempre repletas de perigos desconhecidos. e  
exactamente isso que as torna to interessantes...
Losskov lanou um longo olhar a Helena e sentiu que podia 
contar com ela. "Ela vir connosco", pensou satisfeito. "O meu 
projecto parece-lhe seguro."

 noite, Dieter Randler apareceu no restaurante, embora 
Losskov o tivesse avisado: "Eu dou-te uma sova! Tu s vais 
conhecer os trs quando eu o decidir!" Mas um bom jornalista 
no se deixa impressionar com esse tipo de ameaas. Assim, 
Randler apareceu pontualmente logo a seguir ao jantar no 
restaurante do Hotel Quatro Estaes. Tinham acabado de 
saborear a sobremesa, uma mousse com framboesas.
Ficaram surpreendidos por Randler estar a par de tudo e at 
conhecer os seus nomes. Cumprimentou Helena, Lucrezia e Jan e 
apresentou-se como sendo o melhor amigo de Peter e angariador 
de fundos. Fazia piadas brincalhonas como, por exemplo: "Como 
e  que se reconhece um homem do mar? Quando se lhe oferece um 
arado, ele pensa em arar o oceano!" Quando notou que todos 
apenas sorriam educadamente, decidiu sentar-se  mesa.
A noite passou rapidamente. Jan, Helena e Lucrezia estavam 
cansados e decidiram retirar-se para os seus quartos. Marcaram 
encontro com Losskov s onze horas da manh do dia seguinte, 
no trio do hotel. Peter acompanhou-os at ao elevador e 
esperou que a porta se fechasse. Antes, porm, Lucrezia ainda 
lhe mandou um beijo rpido.
- Ela e  um espanto! - exclamou Randler, entusiasmado. - 
Aconselho-te a no colocares tbuas de madeira no barco. 
Seno, ela queima-as com aquele belo traseiro! Mais vale 
optares por ao!
-        Estou cansado de mais para te dar um estalo! - respondeu 
Losskov, calmo.
Juntos, saram do hotel. Losskov dirigiu-se para o seu pequeno 
carro e Randler chamou um txi. Losskov, porm, foi para casa, 
enquanto Randler mandou o taxista dar uma volta
pelo quarteiro e depois regressar ao hotel, de onde telefonou 
a Jan Trosky.
- Aqui fala Randler. J estava deitado, Jan?
-No. O que e  que h?
- Est despido?
- Apenas descalcei os sapatos. Magoam-me os ps, porque so 
novos.
- Ento, desa j! Eu convido-o a vir comigo e garanto-lhe que 
no se arrepender. Sabe o que e  um tringulo? Eu 
mostrar-lhe-ei St. Paull e ficar a saber. Ao vivo no palco!
- Daqui a cinco minutos estou em baixo! - acedeu Trosky, sem 
hesitar. - S tenho de voltar a calar estes malditos sapatos.
O que se passou nessa noite em St. Paull ficou registado de 
uma forma muito imprecisa na famosa esquadra de David. No 
fora nada de extraordinrio, com excepo de uma frase que o 
polcia batera  mquina, com uma certa admirao: "O queixoso 
declara ter sido agredido por trs rufias. Os rufias foram 
transportados de ambulncia para o hospital. A vtima ficou 
ilesa."
Uma hora mais tarde, Jan Trosky pde abandonar a esquadra de 
David.  sada at lhe apertaram a mo, o que lhe causou 
grande espanto.
No entanto, a questo no estava resolvida. Na manh seguinte, 
a Polcia ligou para Peter von Losskov. Apenas para o informar 
acerca daquilo que se passara. Queriam saber se um tal Jan 
Trosky, de nacionalidade checa, colaborava num projecto de 
investigao sob direco do Sr. Von Losskov.
- Isso e  verdade - respondeu Losskov. - Conheci-o ontem 
pessoalmente e estamos a planear uma volta ao mundo por via 
martima. Aconteceu alguma coisa?
- No foi nada de importante, senhor Von Losskov. - O 
funcionrio era muito discreto. As aventuras de St. Paull 
faziam sempre parte de um foro ntimo. - S queramos obter a 
sua confirmao.
- Porqu? O senhor Trosky est a com os senhores? H algum 
problema com os seus documentos? Porque e  que est 
interessado nele? Por favor, no me compreenda mal; eu preciso 
apenas de estar bem informado, dado que estou a planear um 
trabalho em conjunto com ele.
-        Tenho a certeza de que o senhor Trosky lhe saber 
explicar a situao melhor do que eu! - disse o funcionrio, 
reservado. - O senhor sabe que ns aqui na esquadra de 
David...
Losskov ficou alarmado. Agradeceu educadamente ao policia e 
logo a seguir marcou o nmero da redaco. Antes de mais, 
queria falar com Dieter Randler. Porm, quando este atendeu o 
telefone, Losskov reparou logo na sua voz ligeiramente 
cansada.
-        O que e  que aconteceu ontem  noite? - perguntou com um 
tom de voz srio. - Quero que me contes tudo!
-        Ento tu j sabes?
-        A Polcia telefonou-me h alguns minutos. Da esquadra de 
David! Tu ontem regressaste ao hotel e foste com o Jan para 
St. Paull!
-        A Polcia disse isso?
-        No tentes fugir  minha pergunta! O que foi que 
aconteceu?
-        Esse Jan e  uma fbula, Peter! Devias ver a fora que ele 
tem! Ns tinhamos saido de um daqueles sex-shows, que tm 
lugar num ptio. Espectacular... O pblico at podia 
participar... Enfim, amos a sair e o Jan trazia uma rapariga 
consigo, quando um daqueles tipos com barbinha se mete 
connosco. D um empurro no Jan e diz que quer uma 
indemnizao por o Jan lhe ter dado um murro nas costelas. E 
enquanto ns, pasmados, olhamos para ele, aparecem mais dois 
tipos a sorrir como uns imbecis, rodeiam-nos e dizem: "Ns 
somos testemunhas! Esse tipo agrediu o Bruno!"
Losskov esperou que ele continuasse.
-        Eu quis responder qualquer coisa - prosseguiu Randler -, 
como, por exemplo: "Acalmem-se, amigos. Eu sou da imprensa! 
Ns temos um tratado de paz convosco", quando nesse preciso 
momento esse tal Bruno deu um murro no Jan e gritou: "Olha que 
me pisaste o p!" Isso ento era completamente impossvel, 
dado que a pequena ainda estava encostada ao Jan a fingir que 
tremia e que estava a morrer de medo. Foi ento que o Jan 
Trosky entrou em aco. Eu digo-te: aquilo foi uma beleza! 
Encostou a rapariga  parede, deu um grande murro na cabea do 
Bruno que ficou com os olhos tortos, caindo depois 
redondamente no cho. Os outros dois aproximaram-se do Jan, 
mas este pegou neles, agachou-se, atirou um deles para trs de 
si com um excelente passo de judo, lanou-se com a cabea 
contra a barriga do outro e deu-lhe mais dois murros. O Bruno, 
que entretanto conseguira levantar-se, foi logo liquidado com 
dois murros dados com ambos os punhos. Girou como um pio e 
bateu com a testa contra o muro, o que provocou uma ferida na 
cabea. Os trs tipos foram parar ao hospital e o Jan, como 
cidado exemplar que , comunicou este incidente  esquadra de 
David. Foi s isso! Peter, eu garanto-te que este e  o homem 
que tu procuras!
- E tu passas a ser exactamente o homem que deve desaparecer 
da minha vista! Se eu pudesse, atirava-te pela janela! Juro 
que sim!
- A ingratido e  sempre o agradecimento dos melhores amigos! 
- Randler bocejou. Dormira apenas duas horas. - Vais ver o Jan 
esta manh?
-Sim.
-        Ento no menciones o assunto! Ele no teve culpa de 
nada. Foi uma noite pssima para ele. Nem sequer acabou com 
uma rapariga na cama!
Ao contrrio de Randler, que teve de deitar-se num sof da 
redaco, onde dormiu trs horas, Trosky parecia fresco e 
descansado quando apareceu no trio do hotel, s onze horas da 
manh. Cumprimentou Helena Sydgrff que saira do outro 
elevador, enquanto Lucrezia no aparecia, facto que no 
surpreendeu Losskov.
Ligou para o quarto dela, para a avisar que estavam  sua 
espera.
- S mais um minutinho, Peter! Estou a secar o cabelo - 
respondeu ela.
Losskov observou Trosky discretamente, mas no reparou em 
nenhuns sinais exteriores de cansao e decidiu no lhe 
perguntar nada. Porm, isso nem sequer foi necessrio. Quando 
Helena se dirigiu para o quiosque para comprar o jornal, Jan 
aproveitou a oportunidade para sussurrar ao ouvido de Losskov.
- Na noite passada tive uma grande aventura, Peter! Estive em 
St. Paull. Afinal como visitante vindo do Leste, tenho de 
estudar as facetas mais tpicas do Oeste! Aquilo que eu vi 
ontem  noite no existe no Leste. e  impressionante ver o que 
eles apresentam assim naturalmente no palco... Bem, sabe do 
que estou a falar! E, depois, houve problemas.
- Eu sei. A Polcia telefonou-me.
- Deve estar desiludido comigo, no ? Eu juro-lhe que agi em 
autodefesa!
- Eu acredito em si. Vamos esquecer o que se passou!
- Obrigado! - Trosky sorriu, satisfeito. - Mesmo que sejamos 
uma equipa, Peer, e embora cada um de ns esteja sempre pronto 
a ajudar o outro, afinal e  essa a nossa tarefa, cada um de 
ns deveria manter a sua individualidade! At agora ningum 
disse que amos viajar num barco de monges e que meditaramos 
 volta do mundo.
- O que o senhor faz em terra -me completamente indiferente - 
retorquiu Losskov. - Mas quando estivermos a bordo, serei eu 
quem manda!
- De acordo. - Trosky apertou a mo a Losskov. - Eu tenho a 
ptima sensao de que nos vamos entender muito bem.
Lucrezia Panarotti acabava de sair do elevador. A sua apario 
era digna de ser filmada. Trazia um vestido amarelo muito 
justo, sobre o qual o seu cabelo preto caa como um vu. Era 
impossvel no reparar nela, e quem se cruzasse com Lucrezia 
ficava parado a observ-la.
- Por onde e  que comeamos, ento? - perguntou Trosky, quando 
Helena regressara com o jornal. - Pergunte-nos aquilo que 
quiser, Peer.  vontade. Afinal ns ainda somos estranhos. 
Ser que ns combinamos bem? Se a partir das nossas cartas 
tinha uma ideia completamente diferente de ns, ento diga-o 
abertamente! Depois, no mar, ser tarde de mais para isso. 
Nessa altura, s haver uma soluo: homem ao mar!
- Temos tempo suficiente para nos conhecermos melhor. - 
Losskov abriu a sua pasta e retirou diversos classificadores 
de vrias cores. - Os preparativos duraro at ao fim do ano. 
Julgo que partiremos durante o ms de Fevereiro. E, a, pe-se 
logo uma primeira questo: tero disponibilidade em termos de 
tempo? Teremos de trabalhar juntos e treinar... - Olhou para 
as duas raparigas. - Eu repito aquilo que j disse 
anteriormente, mesmo que todos j o saibam:
isto no e  nenhuma excurso. Pode vir a tratar-se da vida ou 
da morte!
- Eu estou disponvel! - declarou Helena Sydgriff de uma 
maneira seca, como era seu hbito. - O meu pai acha que eu sou 
doida, mas apesar disso est disposto a investir vinte mil 
marcos neste projecto. Ele tem uma fbrica de fechaduras e 
material de construo.
- Eu no tenho dinheiro - informou Lucrezia com um semblante 
infantil. - Mas estou disponvel, dado que posso interromper 
os meus estudos a qualquer momento. Posso at ficar aqui, a 
partir de agora. Trouxe tudo o que preciso comigo, o que ao 
todo faz sete malas.
- Ento, pode ir j deitando fora seis dessas malas, Luzi! No 
cabo Horne no h recepes nem festas! - Trosky encostou-se 
para trs e balanou o seu copo de usque na palma da mo. 
Enquanto os outros bebiam sumo de laranja, ele permanecia fiel 
ao usque. - Bem, e eu? Posso pedir uma licena ilimitada. 
Falei com o director do instituto antes de lhe escrever, 
Peter. Eu sou empregado do Estado. O Estado financia o meu 
curso. Afinal, como poderia o meu pai pagar os meus estudos 
com o lugar que tem?! Quem manda em mim e  portanto o Estado! 
Mas o director do instituto, o professor Karel Novracky, e  
uma pessoa muito agradvel. Ele d-me inteira liberdade. 
Dentro de quinze dias, poderia voltar para Hamburgo, se e  que 
est interessado em mim!
- Tentaremos trabalhar juntos! - Losskov lanou um olhar a 
Helena Sydgriff. Ela fitava-o com um ar interessado e 
inquiridor, como se lhe quisesse fazer um diagnstico - At ao 
final do ano podem ainda desistir. Bem, comecemos ento pela 
parte mais importante. Luzi, Loirinha e... Fedorento, temos de 
encontrar um apartamento para vocs.
- Porque e  que hesitou antes de dizer Fedorento? - perguntou 
Jan com um sorriso.
- De agora em diante pretendo evitar essa alcunha. - Losskov 
abriu o primeiro classificador que continha a lista de 
donativos. - O aluguer e tudo o que for necessrio  vossa 
subsistncia ser pago pelos donativos dos leitores do jornal. 
Como eu conheo o Randler, ele continuar a chamar a ateno 
para o nosso projecto. Mas aviso-vos j de uma coisa: o 
champanhe e o usque sero pagos do vosso bolso! E os perfumes 
tambm, Luzi! O fundo de donativos apenas abrange as despesas 
de uma casa normal. Amanh, iremos visitar uma fbrica de 
carne que me props a oferta de carne seca preparada segundo 
um mtodo especial. - Levantou o olhar e reparou nos seus 
semblantes surpresos, como se sentissem que a grande aventura 
comeara. - Preciso que me tragam uma lista dos instrumentos 
de investigao que levaro convosco.
- Uma grande mala com medicamentos e instrumentos para 
eventuais intervenes cirrgicas - disse Helena Sydgriff. - 
S isso. Eu no preciso de mais nada. Os meus objectos de 
investigao so vocs.
Trosky riu-se.
- Tem a uma tarefa que me parece bastante interessante!

Duas semanas mais tarde, voltaram a encontrar-se em Hamburgo. 
Desta vez, porm, ficariam definitivamente. Losskov encontrara 
um apartamento e j o alugara. Tinha quatro quartos, uma 
cozinha, um vestbulo, uma casa de banho e um terrao com 
vista para o rio Elba. Ficava situado numa zona elegante, com 
manses e enormes jardins, onde moravam as famlias mais ricas 
da cidade. Era uma ilha de silncio, longe da cidade 
barulhenta. Losskov encontrara o apartamento graas a Randler 
que, como tpico jornalista, estava sempre a par das coisas. 
Tratava-se de um prdio antigo que iria ser demolido dentro de 
um ano. No mesmo lugar, iriam ser construdas casas de alto 
luxo com apenas dois andares e quatro apartamentos. At l, o 
prdio estava vazio. Embora fosse perfeitamente habitvel, o 
papel de parede e as pinturas deixavam adivinhar que j h 
muitos anos no fora renovado.
Luzi analisou o apartamento com um olhar crtico.
- Quanto tempo e  que viveremos aqui? At Fevereiro do ano que 
vem? Ento vejam s o que eu vou fazer deste apartamento! 
Ficaro admirados!
E realmente ficaram admirados. Lucrezia comprou papel de 
parede e cola, pediu emprestada uma mesa de trabalho, uma 
trincha e um cortador, arranjou baldes com tinta e comeou a 
misturar e a pintar. Durante vrios dias, subiu e desceu o 
escadote, arrancou o papel de parede antigo, corrigiu as 
falhas no estuque com uma esptula e massa, e colou papel de 
parede.
Jan Trosky decidiu ajud-la. Era a primeira vez que pegava em 
papel de parede, batendo-o ligeiramente com uma escova contra 
a parede, apertando as juntas e prestando ateno para no 
deixar fendas. s vezes, no trabalhava to bem, e o papel de 
parede formava rugas.
- s mesmo tolo, Jan! - dizia Luzi, num tom de voz suave. - 
Sabes prever as mudanas climticas no Plo Sul, mas s 
incapaz de colar o papel de parede correctamente!
Aps uma semana, o apartamento estava perfeito e Jan, Luzi e 
Loirinha decidiram organizar uma pequena festa. Como ainda no 
tinham muitos mveis, tiveram de se sentar no cho. Beberam um 
cocktail preparado por Helena e comeram os espetos que Trosky 
arranjara. Lucrezia estava muito orgulhosa. Losskov louvara-a 
e dera-lhe um beijinho.
- Sinceramente no estava  espera de uma coisa destas! -
        declarara ele.
Atrs da fachada sedutora de Lucrezia, escondia-se uma pessoa 
cheia de energia. Randler, que sempre tinha de comentar tudo, 
pronunciou-se:
-        Estas so as mais perigosas, Peter! Julgas-te perante uma 
bonequinha frgil e de repente descobres que ela e  to dura 
que mal te aguentas!
Os preparativos estavam agora em pleno andamento. Uma vez por 
semana, Randier publicava as "Notcias da Terra do Fogo", uma 
rubrica que entretanto quase se tornara numa parte integrante 
do jornal. S havia um problema: Randler publicava fotografias 
de Peter durante o treino de remo, de Trosky a filtrar a gua 
do mar para a tornar potvel ou de Lucrezia e Helena a rizar 
as velas, o que aumentava drasticamente a participao dos 
leitores. Helena e Lucrezia acabaram por receber quarenta e 
quatro propostas de casamento escritas num tom muito srio, 
entre as quais se encontravam as de trs vivos extremamente 
ricos. At mesmo Trosky recebeu nove propostas. "O senhor tem 
uns msculos...", escrevia uma senhora. "As suas coxas so to 
rijas! Temos de nos conhecer melhor. Eu herdei uma empresa de 
revenda de ferro que e  uma mina. Poderamos viver juntos, 
onde quisssemos! Por mim, at podia ser na Terra do Fogo..."
Em poucas semanas, habituaram-se de tal maneira uns aos outros 
que agiam como se j se conhecessem h vrios anos. 
Entretanto, j se tratavam por "tu", falavam abertamente e s 
vezes at diziam coisas menos agradveis uns aos outros. 
Afinal, a sinceridade faz parte de uma verdadeira amizade.
Jan Trosky encontrara uma namorada. Era uma rapariga magra, 
com uns grandes olhos, que vendia salsichas numa roulotte. Uma 
noite, depois de uma visita ao cinema, Jan comprara uma 
salsicha e ela correspondera ao seu sorriso. Limitara-se a 
sorrir. s quatro horas da manh, quando chegou a hora de 
fechar as roulottes que ainda cheiravam a leo queimado, a 
rapariga acabou o trabalho e saiu a p. Trosky esperava-a 
alguns metros adiante, num vo de escada. Ela reparou 
imediatamente nele, parou e fitou-o com um olhar vazio.
-        Ningum te vem buscar? - perguntou Trosky.
-        No - respondeu ela com uma voz infantil.
- No h ningum  tua espera?
-No.
- E os teus pais?
- Esto em Apensen.
- Onde e  que fica isso?
- A oeste de Buxtehude.
- Ah! Eu chamo-me Jan.
- Eu sou a Anita.
-        Vives sozinha?
-        Sim, num quarto mobilado.
Ele ps o brao  volta dos ombros dela e Anita estremeceu, 
mas no fugiu.
-        Tens medo? - perguntou Jan.
-        No, mas estou a morrer de sono. O meu trabalho obriga-me 
a ficar em p durante mais de dez horas.
- Que horrvel!
- Mas tem de ser assim. No quero ser uma prostituta! Eu sei 
que se assim fosse ganharia muito mais dinheiro, mas no 
quero. E tu, o que e  que fazes?
- Eu preocupo-me com o clima.
- No digas disparates!
- Juro que sim, Anita.
Ela voltou a fit-lo com aquele olhar vazio e depois mostrou 
um ligeiro sorriso.
-        No me digas que s um daqueles senhores que costumam 
fazer a previso errada do tempo.
-        Mais ou menos.
-        Isso e  engraado! - Anita agarrou o brao dele com mais 
fora. - Qual e  a previso meteorolgica para amanh?
-        O Sol vai brilhar como se estivssemos no paraso, porque 
ns nos conhecemos.
Caminharam pela cidade silenciosa ao encontro do nascer do 
Sol, como se sempre tivesse sido hbito ele vir busc-la ao 
trabalho. O quarto de Anita era pequeno e limpo, a cama 
confortvel e ela repleta de um carinho suave.
-        A Anita toma estupefacientes - revelou Trosky mais tarde 
a Losskov quando lhe falou em Anita. - No dos pesados! 
Comprimidos, pilulas e drageias. Felizmente ainda no est 
agarrada  herona. Estou disposto a ajud-la para que ela 
deixe os comprimidos.
- Ns no podemos lev-la connosco - declarou Losskov de 
imediato - Isso tem de ficar bem claro. e  melhor dizeres-lhe 
agora, j que em Fevereiro estar tudo acabado entre vocs.
- Eu no sou capaz de lhe fazer isso. Ela no aguentaria.
- E em Fevereiro, Jan, como ser? Ests a cometer um grande 
erro! Todos ns cortmos as nossas relaes pessoais antes de 
entrarmos neste projecto e tu envolves-te com uma mulher!
- Eu no sou asctico. Preciso de uma mulher.
- Aqui em Hamburgo, h inmeras possibilidades de ter uma 
relao sem compromissos!
- Eu preciso disso, como os outros precisam de se barbear. 
Para mim, e  como se fosse uma questo de cosmtica.
- E, mais tarde, no barco?
- A, entreter-me-ei a lutar contra o mar! - Trosky riu-se. - 
O oceano! Para mim o mar e  feminino: e  a gua! - Helena no 
estava minimamente preocupada com aquilo que Trosky fazia nos 
seus tempos livres, enquanto Lucrezia, por seu lado, parecia 
um pouco mais interessada.
- Quem e  essa Anita? - perguntou a Losskov. - Mal surja uma 
ocasio, o Trosky vai para a cama com ela, no ? Mas ela e  
assim to bonita?
- Eu no a conheo.
- E ningum se lembra de me perguntar a mim?
Losskov olhou para Luzi com um ar espantado.
- O que e  que queres dizer com isso?
- Ser que eu no existo? Achas que eu no tenho sangue nas 
veias? Pensa um pouco nisso, Peter!
 noite, Peter falou com Helena Sydgriff acerca daquilo que 
Lucrezia lhe dissera. Jan estava com Anita e Lucrezia fora 
para o instituto de beleza fazer uma mscara para o rosto.
- Eu j estava  espera que ela dissesse isso - comentou 
Helena, pensativa. - H muito tempo que j comecei a
fazer os meus apontamentos e h dias que esperava por isto. A 
Luzi est a sofrer uma forte presso interior, como se 
quisesse disparar a qualquer momento. Ela contou-me que em 
Roma tinha um namorado que teve de deixar ao vir para c. 
Chamava-se Angelino. A Lucrezia falou-me abertamente dele. 
Estavam juntos pelo menos trs vezes por semana. E, agora, de 
repente, ela no tem ningum. Imagina o que isso quer dizer 
para uma mulher enrgica como a Lucrezia! Do ponto de vista da 
medicina, isso e  um verdadeiro problema. "Meu Deus, eu agora 
seria capaz de me atirar a qualquer homem", disse-me ela uma 
vez. "Pode ser magro ou gordo, pequeno ou grande, torto ou 
direito, o que importa e  que seja um homem!" Eu compreendo-a 
perfeitamente. Ela tem um tipo de hormonas para as quais um 
orgasmo e  como uma cura!
Losskov ficou calado. Olhou para Helena sem saber o que dizer. 
Estava satisfeito por ela lhe falar nesse tipo de coisas de 
uma forma to aberta e desinibida.
- Ela poder talvez representar um perigo para o nosso 
projecto? - perguntou.
- Espero que a imensido do oceano a acalme.
-        Achas que eu a deveria mandar de novo para Roma?
-        Isso s tu e  que podes decidir. Tu e  que mandas. - Os 
olhos claros de Helena emanavam uma grande calma. - Cada um de 
ns constitui um problema, Peter. No podemos saber como e  
que reagiremos mais tarde, no mar. O Jan pode transformar-se 
num heri e tu num frouxo. Lembra-te de como a Luzi modificou 
o nosso apartamento. Temos de consciencializar-nos de que cada 
um de ns e  capaz de transformaes inesperadas.
-        Estou muito feliz por te ter connosco - disse Losskov e 
deu um beijo na mo de Helena. - Admiro a tua maneira 
cristalina de pensar.
-        Quem sabe se no estars enganado - respondeu ela. Mas 
no retirou a mo. - s vezes o gelo queima.

O barco enfim chegara.
No era o barco com o qual iriam viajar, mas sim um navio 
gmeo que acabara de ser construdo e que na semana seguinte 
seria levado para o porto de Cannes, onde seria entregue ao 
seu futuro dono. O responsvel pela publicidade da empresa de 
detergentes telefonara a Losskov e convidara-o a vir 
juntamente com a sua equipa ver o barco que lhe iriam 
oferecer. Estava a ser construdo num estaleiro holands, 
segundo os mtodos mais modernos. O construtor queria explicar 
os pormenores a Losskov e oferecer-lhe a oportunidade de fazer 
as suas experincias com um casco ainda no completo desse 
modelo.
De tudo aquilo que Losskov contara aos seus amigos antes de 
partirem para a Holanda, houve um pormenor que fascinou Jan 
particularmente: o barco no se afundava e endireitava-se 
sozinho.
- Quer dizer que no nos podemos afundar? - perguntou. - Achas 
que isso e  possvel?!
- e  exactamente isso que vamos testar.
-        Mesmo se depararmos com vento de doze ns, no nos 
acontecer nada?
-        Acontece, sim. Afogamo-nos.
-        Mas o barco continua sempre em p?
- Continua! Teoricamente no se pode afundar, desde que as 
paredes laterais e o cho fiquem intactos. Todo o casco e  
feito de espuma de polister, como se fosse uma sanduche. Por 
isso, a parte superior fica sempre em cima.
O barco estava atracado no pequeno porto do estaleiro 
holands. Era branco, com uma listra vermelha, um mastro de 
ao brilhante e uma cabina em vidro. Era um barco realmente 
bonito. Losskov aproximou-se pela ponte, com um ar quase 
devoto. Lucrezia, por seu lado, exclamou, visivelmente 
desiludida:
- Meu Deus, que coisa mais pequena!
A visita ao interior do barco foi curta. Entraram um depois do 
outro, passando pela estreita porta que dava para a cabina 
onde estavam as seis "camas": duas na proa, duas na popa e 
mais duas que se obtinha juntando os dois bancos e afastando a 
mesa. Ficaram parados no meio do pequeno espao que o 
construtor, um senhor chamado Willem van FIeterword, 
denominava "salo" com a maior naturalidade, e imaginaram as 
capacidades artsticas que seriam necessrias para preparar 
uma refeio na pequena cozinha de bordo. Havia at uma 
pequena banheira e uma sanita, mas era tudo to apertado que 
algumas partes do corpo no podiam exceder uma certa dimenso.
Losskov gostou muito do barco. Passou a mo por ele, deixou 
que lhe mostrassem a arrecadao, que era realmente grande, 
foi ver a bomba no poo, a carlinga e o engenho que permitia 
rizar as velas a grande velocidade. Eram tudo coisas 
importantes para o caso de depararem com mau tempo, altura em 
que cada minuto se torna precioso e o mais importante e  
preparar o barco para a tempestade.
Concluram a visita com um ptimo almoo, aguardente 
holandesa, muitas felicitaes e um discurso de agradecimento 
de Losskov, dirigido  empresa de detergentes que 
possibilitara a compra daquele magnfico barco. Um membro da 
direco que os acompanhara durante a visita entregou-lhes 
mais um cheque suplementar, sob os flashes dos reprteres e 
destinado a financiar eventuais aperfeioamentos no barco. 
Durante a entrega do cheque, posicionaram-se de tal maneira 
que em todas as fotografias apareceria o cartaz do mais 
recente detergente para a roupa.
 noite, a equipa teve finalmente tempo para se dedicar mais 
de perto ao barco. Losskov, Randler e os outros trs tinham 
regressado ao porto oeste e estavam agora sentados na ponte, 
baloiando as pernas sobre a gua, enquanto contemplavam o 
barco.
- Eu estava consciente de que se tratava de um barco pequeno - 
disse Trosky. - Mas ningum me falou num barco minsculo como 
este.
- e  uma Friendship vinte e oito. - Losskov decorara os
factos previamente. O barco era exactamente como ele o
imaginara. - Tem um comprimento de quase oito metros e
setenta, dois e oitenta e cinco de largura, um calado de um
metro e sessenta, e um deslocamento de trs toneladas e
meia.
- Quem ouve esses nmeros fica com uma ptima ideia do barco! 
- confessou Randler. - Mas quem l entra. Peter! e  impossvel 
navegar pelos mares com uma coisa daquelas!
- O que e  que nos impede de faz-lo? Um barco destes pode ser 
mais seguro do que um barco gigante de trezentos e cinquenta 
metros de comprimento. Nunca ouvi dizer que o Queen Elizabeth 
no se afunda e que se endireita sozinho. Claro que este 
barquinho danar nas ondas, mas por outro lado no ser um 
alvo to fcil para as ondas! Tudo depender das nossas 
foras.
- Falta o motor - lembrou-se Trosky, de repente. Losskov 
fitou-o com um ar admirado.
- Falta o qu?
- Este barquinho no tem motor. Nem mesmo um pequenino! 
Garanto-te que o barulhinho do motor por baixo do traseiro em 
certas alturas pode ser muito reconfortante.
- Os Viquingues tambm no tinham motor - respondeu Losskov 
com calma.
- Nem um poo autopilotado, nem mesmo um depsito para bilhas 
de gs propano ou uma bssola antiesttica! Eles punham o 
polegar no ar e seguiam.
- e  exactamente isso que eu quero. Ns vamos navegar com a 
ajuda do vento e no de um motor! E dispomos de tudo para 
garantir a nossa segurana... Nesse aspecto tens razo: j 
constitui uma enorme vantagem sobre os Normandos.
- Tu e  que sabes! - disse Trosky. - Se no quiseres, no 
levamos motor! Mas imagina que realmente venhamos a precisar 
dele. Imagina que morremos devido  falta de um motor? 
Ento...
Interrompeu a frase.
-Ento... o qu? - perguntou Lucrezia, sempre atenta.
- Ento ele mata-me a mim! - disse Losskov com um ar 
despreocupado. - Mas pensa bem: no lugar do motor e da 
gasolina poderemos transportar gua potvel. Isso ser muito 
mais importante quando estivermos numa calmaria.
- Com um motor no haver calmaria que nos incomode - 
retorquiu imediatamente Trosky. - Mas est bem, eu no me 
quero queixar j nesta altura. Ns os quatro nesse 
barquinho... Vai ser uma Arca de No muito especial!

No dia seguinte, foi-lhes entregue um modelo inacabado do 
barco com um pequeno mastro e uma vela grande de quase dez 
metros quadrados. Levantara-se um vento propcio para a 
largada. Um engenheiro do estaleiro, o construtor Willem van 
Reterword, Dieter Randier e o resto da equipa encontravam-se 
na ponte, vestidos de oleados amarelos. O barco, que ainda 
estava amarrado  ponte, baloiava nas ondas. Cada um deles 
trazia o seu colete de salvao por baixo do brao.
- Quem e  que me acompanha? - perguntou Losskov.
- Eu prefiro ir no barco a motor! - respondeu Randler 
rapidamente. - Afinal tenho de tirar as fotografias!
- Eu vou contigo! - disse Trosky.
- E ns? - perguntou Helena Sydgriff.
- Vocs ficam no barco a motor a observar como tudo se 
desenrola. Se algo correr mal, podero salvar-nos! Ento, 
vamos a isso!
Losskov ps o colete de salvao no ombro e dirigiu-se para o 
barco. Quando passou por Helena, esta olhou para ele com os 
seus olhos azul-claros com um ar preocupado.
- No sejas leviano, Peter! - avisou, baixinho. - Tem cuidado!
- Ests com medo, Loirinha?
-Sim.
Ele hesitou, depois levantou a mo num gesto inseguro e 
acenou-lhe.
- Obrigado - disse. - e  muito simptico da tua parte.
Teve um sentimento de alegria indescritvel quando saltou para 
o barco e estendeu a mo a Trosky, para o ajudar a entrar. 
"Ela tem medo que me acontea algo", pensou. "Ela na realidade 
no e  aquela intelectual fria que aparenta ser. Obrigado, 
Helena, tornaste o nosso mundo um pouco mais bonito."
Trosky desceu para o pequeno camarote e voltou a sair 
imediatamente.
- Sem as instalaes adequadas, isto tem um ar ainda mais 
desolador! As paredes parecem-me extremamente finas. 
Antigamente, os marinheiros cuspiam o seu tabaco para mascar 
contra elas... Neste barco, isso seria impossvel, pois 
surgiria logo um buraco na parede.
- O polister e  um material leve, mas muito resistente - 
respondeu-lhe Losskov, rindo-se. Usou o colete de salvao e 
encheu-o com a ajuda das vlvulas de presso. - Alm disso, o 
casco foi construdo segundo o mtodo Laminat. Nada o partir 
to facilmente.
- As paredes parecem ocas.
- Isso so cmaras de ar com espuma que faro com que 
estejamos sempre direitos! E e  isso que vamos experimentar 
agora. Tens medo?
- Se eu tivesse medo achas que estaria aqui? - retorquiu 
Trosky com um sorriso. - Ns vamos contornar a Terra do Fogo e 
o cabo Horne de uma maneira que at Nosso Senhor l em cima, 
nos cus, nos vai aplaudir! - Vestiu igualmente o colete de 
salvao e accionou as vlvulas de presso. Depois, ps-se em 
posio de sentido. - Pronto para a partida, sir. Quer que eu 
d o sinal de partida?
Riram-se e soltaram as sirgas. Depois, esperaram que a corda 
de nylon que os unia ao barco a motor se esticasse e 
sentaram-se no poo. Losskov pegou no remo e o barco 
afastou-se, danando nas ondas.
O trabalho de desamarrar, por si s, j teria sido motivo 
suficiente para um leigo desistir. O barco parecia um pedao 
de papel com o qual o mar brincava. Quando chegaram ao mar 
aberto, Losskov e Trosky prenderam-se por um gancho s cordas 
esticadas no barco de uma ponta  outra. A partir de agora j 
no podiam utilizar as mos para se segurar, pois precisariam 
delas para trabalhar. Trosky desengatou a corda do barco a 
motor. Depois, iou a vela grande, e o barco disparou como se 
tivesse sido catapultado. Apanharam o barco a motor que j se 
encontrava nas enormes ondas e cuja proa se afundava na gua, 
viram o engenheiro do estaleiro na ponte alta e Dieter Randler 
ao lado, plido, com um semblante assustado, mas ainda com um 
resto de coragem que lhe permitia proteger a sua mquina 
fotogrfica com um saco de plstico amarelo. De repente, 
aperceberam-se de que o senhor Van Fleterword~Ihes estava~ a 
tentar comunicar algo atravs do megafone. Viam-no colado  
balaustrada com as ondas a despenharem-se sobre ele. Era um 
verdadeiro homem do mar.
- Menos vento para a vela! - berrava Fleterword. - Esse mastro 
e  apenas provisrio! Voltem j! Esto a criar uma situao de 
perigo!
- Isso tambm eu sei! - resmungou Losskov. Ultrapassou o barco 
a motor e acenou alegremente. Dentro do barco, atrs dos 
vidros, reconheceu Lucrezia e Helena. "Olhem bem para isto", 
pensou. " isto que vos espera! E o que vocs esto a ver aqui 
e  uma autntica brincadeira comparado com aquilo que 
acontecer quando estivermos numa verdadeira tempestade. Nessa 
altura, vocs tambm estaro presas a ganchos, e as vagas 
gigantes aparecero  vossa frente e desabaro sobre o barco. 
O mar parecer uma paisagem montanhosa que faz parar a 
respirao. Eu sei qual e  a sensao! E entre as montanhas h 
os vales, nos quais o barco cai, como se nunca mais de l 
voltasse a sair. Nunca mais! Vocs pensaro que e  o fim, que 
o mar se fechar por cima do barco, como se vos tivesse 
engolido, como se deixassem de existir. E, de repente, voltam 
 superfcie da gua, encontram-se na crista espumosa de uma 
onda e no compreendem como e  que o cu ainda pode existir, 
como e  que pode haver um horizonte, as nuvens que avanam a 
alta velocidade e o mar bravo. Percebero que continuam vivas, 
capazes de ver e de ouvir tudo o que se passa  volta... at  
prxima montanha de gua, ao prximo abismo..."
- Recolher as velas! - berrou Losskov.
Entretanto, tinham-se afastado algumas milhas da costa, o mar 
estava cada vez mais bravo e as vagas batiam com fora contra 
as paredes do barco. A porta que dava para a cabina fora 
fechada, impossibilitando assim a gua de entrar, mas a bomba 
automtica no tinha capacidade suficiente para esvaziar o 
poo. Havia tanta gua no barco que j chegava aos tornozelos 
de Trosky e Losskov. Uma onda gigante que se despenhara sobre 
eles tornara-os assustadoras figuras amarelas, completamente 
encharcadas.
O barco a motor aproximou-se deles. O senhor Van Fleterword 
continuava na balaustrada e berrava atravs do megafone:
- No cometam nenhum erro! O que e  que pensam que esto a 
fazer? Isso no so coisas que se faam!
- Ainda no viu nada! - gritou Losskov com uma voz rouca. - 
Repare s naquilo que vai acontecer agora! No cabo Horne no 
existem leis! Tem de se ser mais ousado do que o mar! - 
Aproximou-se de Trosky que rizara as velas e engatara o ltimo 
cabo. - Ests preparado? - perguntou-lhe gritando.
Trosky olhou para Peter com um ar inquiridor.
- Preparado para qu? - replicou tambm aos berros.
- Para fazermos o pio!
- Estou preparado! - Trosky verificou o cinto, os ganchos e o 
colete de salvao. - E se ficarmos em baixo?
- Samos imediatamente e subimos! - Losskov pegou com as duas 
mos no remo. - Preparado?
- Preparado, Peter!
Losskov deu a volta ao remo. O barco, que at agora cortara as 
ondas com a proa, virou-se contra a direco do vento. Embora 
a parte lateral do barco no fosse muito grande, o mar batia 
agora nela com uma fora inacreditvel! O senhor Van 
Fleterword encostou o megafone contra o peito e abriu a boca, 
escandalizado. Randier, que se encontrava na ponte alta do 
barco a motor, completamente enjoado e desejoso de morrer o 
mais rapidamente possvel, gemeu e pegou na sua mquina 
fotogrfica. A mquina disparou: quatro fotografias por 
segundo. Deste modo, aquilo que estava a acontecer no mar 
ficaria registado na sua cmara, passo a passo.
O pequeno barco foi atirado para cima, as vagas inclinaram-no, 
e assim ficou como que pendurado num enorme muro de gua. 
Losskov e Trosky j s apenas estavam presos pelos ganchos s 
cordas de nylon, baloiando de um lado para o outro, como 
bonecos. O barco, porm, no se virava ao contrrio, nem a 
quilha vinha parar ao lado de cima. Endireitava-se como que 
movido por uma mo invisvel, danava na crista das ondas, 
deslizava para dentro dos vales, girava, inclinava-se para o 
lado, voltava a subir e era atirado de um lado para o outro 
como se fosse uma bola. Quando se inclinou para o lado pela 
sexta vez, o mastro partiu-se como se de um simples palito se 
tratasse e foi arrastado por uma enorme vaga pelo tombadilho 
at ao poo. A vela soltou-se, insuflando-se de seguida, 
rasgou-se e caiu juntamente com o mastro em cima de Jan 
Trosky.
Este encolheu-se; porm, no pde evitar uma forte pancada na 
cabea. "Bolas", foi tudo o que ainda teve tempo de pensar. 
"Tem de se contar sempre com que isto acontea. O mastro 
partiu-me a cabea." Depois, desmaiou e caiu, apenas preso 
pelo gancho do cinto. Foi isso que o salvou. O cordame da vela 
zurrou pelos ares, afiado como uma faca devido  presso do 
vento. Passou por cima de Trosky e s depois se soltou 
completamente do mastro.
Tornara-se impossvel para Losskov controlar o barco. Pegou em 
Trosky, levantou a sua cabea e viu a ferida. Como todas as 
feridas na cabea, tambm esta sangrava abundantemente. A 
cabea estava coberta de sangue, de tal forma que parecia que 
se tratava de um buraco enorme do qual todo o seu sangue 
estava a escorrer.
Foi necessria muita fora e tambm alguma sorte para dominar 
o barco que danava, descontrolado, nas ondas e at-lo ao 
barco a motor. Quando Losskov enfim conseguiu apanhar o cabo e 
o engatou, Lucrezia, que se encontrava dentro da cabina, 
deixou-se cair num banco almofadado e comeou a chorar como 
uma criana. Helena Sydgriff encostou-se para trs e enterrou 
as duas mos no cabelo.
- Pra! - ordenou num tom de voz severo. - Pra imediatamente 
essa choradeira. Se no, eu dou em doida!
- Ento porque e  que no choras tambm? - gritou Lucrezia. - 
Chorar alivia! Mas no, tu preferes ficar doida! - Enterrou a 
cara nos estofos do banco e continuou a chorar.
Helena ergueu-se, cambaleou at  escada e viu que
Randler estava debruado sobre a balaustrada a vomitar.
Losskov continuava no seu barco, a segurar a cabea de
Trosky. Nesta altura, era impossvel uma aproximao entre
os dois barcos e trazer o ferido para bordo do iate.
Depois de duas horas, alcanaram finalmente o molhe do porto 
do estaleiro e entraram em guas mais calmas. Transferiram 
imediatamente Losskov e Trosky para o barco a motor e Helena 
tratou da ferida. Lucrezia agia como se se tratasse de dois 
amantes seus que tinham regressado da guerra, beijando Peter e 
Jan alternadamente e chorando de uma forma histrica.
Losskov bebeu uma aguardente e deitou-se num banco na cabina, 
completamente exausto. Apesar de tudo, ainda teve foras para 
sorrir, ao ver o estado em que Randler se encontrava: sentado 
num sof, completamente aptico, o rosto plido, quase amarelo 
e ainda no conseguindo controlar muito bem os seus olhos 
inchados e vermelhos. O senhor Van FIeterword estava 
visivelmente ofendido, embora lhe tivessem provado que o seu 
barco era realmente "inafundvel". Porm, aquela simulao 
fora realmente exagerada, dado que nunca ningum reagiria de 
uma forma to idiota como Losskov o fizera!
- Como e  hbito - notou Losskov, ainda antes de atracarem  
ponte -, os pontos fracos so o mastro e os cabos! Em casos de 
emergncia, no podem ser recolhidos com a mesma velocidade 
com que destroem um barco.
- Foi por isso que montmos o mastro de modo a que ele se 
dobre em poucos segundos quando ameaa partir-se. - O senhor 
Van Fleterword abanou as duas mos. - Mas nunca chegar a esse 
ponto! Suponho que o senhor pretende navegar como uma pessoa 
sensata. Mesmo assim, esta sua insensatez serviu para provar 
que o barco e  realmente "inafundvel"!
- Mesmo com a carga mxima?
- Mesmo assim. Aquilo que acabou de fazer l fora, j foi 
testado na nossa mquina de vento. Como o barco no oferece 
resistncia, e  capaz de suportar qualquer vaga. Depois do que 
aconteceu, acredita ao menos que estou a dizer a verdade?
- Ainda h muito por fazer - comentou Losskov.
Do outro lado, Trosky, que estava deitado num banco 
almofadado, ergueu a cabea e comeou a praguejar em checo. 
Passou as mos pelo corpo, fitou Helena e Lucrezia com 
plpebras trmulas e sentou-se.
- Agora calhava bem um usque, no achas? - perguntou Losskov.
- Porque e  que eu estou vivo? - Trosky falava devagar e com 
dificuldade, e piscava os olhos. Tinha uma imagem difusa de 
Losskov, e a luz ofuscava-o. Tratava-se dos sintomas tpicos 
de um traumatismo craniano. - Mesmo assim, a minha cabea 
continua assente no meu corpo. e  impressionante.
- O Peter esteve a segur-la durante quase uma hora - 
informou-o Helena. - De outro modo, ela provavelmente teria 
sido arrancada.
- Isso e  verdade? - Trosky olhou para Losskov. - Tu deste-me 
uma vida nova? Queres que passe a chamar-te paizinho?
Lucrezia riu-se alto.
- Que histrica! - sussurrou Helena.
O ambiente entre eles estava pssimo; a tenso libertava-se 
sob forma de agresses mtuas. Nestas alturas, as pessoas 
chegam a odiar-se terrivelmente, sem mesmo saberem porqu. e  
como se perdessem o controlo sobre os nervos e deixassem de 
ser responsveis pelos seus actos.
- Ainda h muito por fazer - repetiu Losskov. - No no barco, 
mas em ns! No ponto em que as coisas esto, seramos, no 
mximo, capazes de ir de Maiorca para Ibiza com o mar calmo e 
o Sol a brilhar!
- Obrigado pelo elogio! - resmungou Trosky. - No barco, 
esforar-nos-emos por sermos duros como umas pedras e 
urinarmos contra o vento.
Lucrezia riu-se de novo num tom histrico. Depois, voltou a 
chorar e, quando Helena lhe chamou "estpida", tentou 
bater-lhe. Aps chegarem aos estaleiros, puseram-se a caminho 
do hotel sem trocarem uma palavra, e fecharam-se nos seus 
quartos.
Mais tarde, Losskov telefonou para Helena.
- O que e  que queres? - perguntou ela num tom rude.
- Queria apenas dizer-te que no te levo a mal se desistires 
da viagem - declarou Peter.
- Mas eu levo-te a mal tu dizeres um disparate desses! - 
retorquiu ela e desligou o telefone.
Uma semana depois, Jan Trosky recuperara excepcionalmente bem 
do acidente. Os mdicos at diziam que tinha um crnio de 
ferro, de modo que a equipa pde logo iniciar uma nova fase do 
treino: a convivncia numa ilha de salvao.
As fotografias que Randler tirara durante a primeira sada do 
barco, e que deviam servir para provar que no se afundava, 
no tinham qualquer prstimo. Ele j estava  espera disso. As 
imagens estavam completamente tremidas, cinzentas e 
desfocadas, e tudo o que se conseguia ver era a gua ou o mar. 
O barco s aparecia duas vezes e sempre na margem da 
fotografia. Alm disso, algumas delas estavam cobertas de 
estranhas manchas.
- Nesta altura, eu vomitei sobre a cmara! - explicou Randler. 
- Eu nunca participaria nessa viagem, nem que me oferecessem 
um milho! E eles fazem-no de livre vontade!
Escreveu um artigo com uma descrio extremamente dramtica 
daquilo que acontecera e at mandou desenhar duas cenas, de 
modo a que parecesse que houvera um enorme maremoto na costa 
holandesa.
Para a realizao de uma segunda experincia, alugaram um iate 
e voltaram para o Norte de Helgoland, onde depositaram uma 
ilha de borracha redonda e amarela na gua. Era uma espcie de 
pequena banheira insuflvel com um tecto de tenda bicudo, um 
farol de socorro, intermitente, saquinhos com alimentos e um 
pequeno aquecimento a pilhas.
Tinham definido exactamente a tarefa da equipa que seria viver 
durante uma semana sob condies extremamente precrias e sem 
ter em conta que havia um barco a motor a vigi-los.
- Imaginem que  nossa volta s h mar! - disse Losskov. - 
Mais nada! A costa mais prxima fica a centenas de milhas. e  
esta a situao em que estaremos.
- Os crentes que levem um livro de cnticos! - disse Trosky. - 
Da maneira como o Peter est a descrever essa semana, suponho 
que as coisas vo ficar difceis! Ser que se pode imaginar 
uma situao dessas? Esse sentimento, essa certeza de que se 
vai morrer lentamente algures... Isso no se pode simular!
- Tens razo! Mas ficaremos a saber como e  que nos
comportamos quando nos vemos obrigados a viver juntos num 
espao to reduzido.
Losskov comeou logo por surpreend-los. No foi de barco at 
 ilha, como os outros; saltou para a gua quando se 
encontravam a alguns metros de distncia dela e, munido de um 
colete de salvao, nadou at l. Iou-se para a ilha por meio 
de uma corda e depois ajudou o resto da equipa que se 
aproximara de barco.
- Espera s! C vou eu! - exclamou logo Trosky. Deixou-se cair 
para a gua, que agora estava muito calma, e nadou com fortes 
braadas. Losskov ajudou-o a subir para a ilha. - Agora, as 
senhoras! - chamou Trosky. - Oh, esta ilha d uma ptima cama! 
Mexe-se por baixo de ns e adapta-se  forma do corpo! Venham, 
minhas queridas!
Helena Sydgriff saltou para a gua. Era uma boa nadadora
e rapidamente alcanou a ilha. Losskov e Trosky ajudaram-na
a subir. Mal ela tinha chegado, Lucrezia atirou-se para a 
gua.
O seu cabelo preto esvoaou como uma bandeira no ar antes
de ela mergulhar na gua... Tinha-se a impresso de que uma
vela se suspendera no ar durante alguns instantes.
- Que lindo! - comentou Trosky, admirado. - Quando uma 
coisinha destas salta para a gua, aposto que at o deus 
Neptuno perde o seu tridente!
Lucrezia nadava como um peixe. Aproximou-se a alta velocidade 
da ilha, como se fosse uma seta. Mergulhava ligeiramente em 
cada braada que dava, como se cortasse o mar. Perto da ilha, 
apareceu  superfcie da gua, riu-se e esticou os braos. 
Trosky ajudou-a a subir e deu-lhe uma palmada no traseiro.
- Agora j posso imaginar como ter sido a Afrodite quando 
surgiu da espuma! Os antigos pintores no sabiam mesmo nada! - 
exclamou. - Pois , mas agora estamos todos molhados.
- E encontramo-nos entre baia Grande, na Argentina. e as ilhas 
Falkland, a trezentas e cinquenta milhas da terra firme, 
sozinhos no mar. e o nosso barco afundou-se!
- Isso e  impossvel - disse Trosky, rindo-se. - O barco no 
se afunda!
- Mas a parede partiu-se! - Losskov tirou o colete de 
salvao. - Diabo, isto no e  nenhuma excurso, isto e  a 
srio! Essa tua boa disposio j vai desaparecer! Querem 
ficar assim, molhados? Onde esto as toalhas e os roupes! 
Luzi, d-me o secador de cabelo! Quem e  que me ajuda a secar 
o cabelo?
- Est a ficar maluco! - exclamou Trosky.
- As roupas levam muito tempo a secar se ficarem com elas no 
corpo! - Losskov despiu a camisa. Usava um fio de ouro com um 
medalho  volta do pescoo. Era um medalho trabalhado, com 
flores e trevas gravadas no ouro, e parecia ser muito antigo. 
- Alm disso e  bem provvel que assim apanhem uma bela 
constipao.
- Ele tem razo! - Helena Sydgriff tambm tirou o colete de 
salvao. Apontou para a direita e depois para a esquerda. - 
Ali, fica a Argentina e ali as ilhas Falkland. Estou molhada e 
quero continuar a viver.
-Ha... Ha! Agora vamos andar por a todos nus! - exclamou 
Trosky.
- A costa mais prxima fica a trezentas e cinquenta milhas. - 
Losskov encolheu os ombros. - Tu e  que tens de saber se ficas 
com as roupas molhadas no corpo ou no.
- Eu e  que no fico de certeza! - declarou Helena. - No 
gosto nada de ter tosse! E aposto que todos vocs vo apanhar 
uma grande constipao! Eu, pela minha parte, vou tentar 
evitar isso.
Despiu a sua blusa molhada, abriu o soutien, tirou as calas e 
as cuecas e dirigiu-se, completamente nua e desinibida, at  
entrada da ilha. Tinha uma pele branca, um peito rijo e 
redondo, coxas lisas e musculosas e umas pernas bonitas. Uma 
penugem loura, quase branca, cobria algumas partes da sua 
pele.
Trosky olhou para ela com espanto, engolindo em seco duas 
vezes.
- A Terra do Fogo realmente no pode ser muito longe daqui! - 
exclamou; e ps-se a abrir as calas.
Lucrezia tambm se despiu; o efeito do seu corpo j era 
conhecido, todos j se tinham habituado  sua beleza. 
Tratava-se apenas da confirmao de que a Natureza e  capaz de 
criar obras-primas.
Quando estavam nus, perderam todo o pudor. Tinham ultrapassado 
uma barreira e notaram que fora fcil ultrapass-la. A relao 
entre eles alterara-se. tornara-se mais fraternal, longe de 
qualquer erotismo ou sexualidade. Os msculos de Trosky. o 
corpo bem constitudo de Peter. u ~ rijo e redondo de Helena e 
a cintura fina de Lucrezia eram simplesmente constatados... 
Mais nada. Helena trepou para o lado de fora da ilha e 
estendeu a roupa.
Dieter Randler, que se encontrava no barco a motor, por seu 
lado, quase que caiu da cadeira quando viu Helena Sydgriff 
toda nua ao sol. Precipitou-se para a balaustrada.
- Ainda h lugar para mim? - Vou j a! - gritou.
- Cale-se! - retorquiu-lhe Helena. - O senhor no existe! Ns 
estamos perto da baa Grande!
Randler virou-se, correu para o leme e interpelou o capito 
que estava a fotografar aquela bela viso.
- O senhor, que e  um homem do mar - disse -, ajude-me! 
Elucide-me! O consumo da gua do mar pode enlouquecer?
No interior da ilha cavam-se mutuamente com um pequeno pano. O 
facto de os seus corpos se tocarem no tinha qualquer efeito 
neles. At mesmo Trosky permaneceu calmo. Massajou as costas e 
as ancas de Lucrezia, sem sentir pequenos choques elctricos 
penetrarem-lhe pelas pontas dos dedos at ao sistema nervoso.
Helena sentara-se perto da entrada da ilha e desfrutava o sol. 
A roupa, pendurada nas cordas, esvoaava ao vento, e a ilha 
baloiava calmamente no mar. Losskov tambm se sentara no cho 
espesso e duro ao lado de Helena e ocupou-se da comida para 
aquela semana. De vez em quando, olhava para ela e admirava a 
sua beleza fria.
Repartiu os alimentos e a gua como se realmente se tratasse 
de uma situao de emergncia. A ilha de plstico era grande; 
fora concebida para oito pessoas e por isso havia o dobro da 
comida.
Losskov tirou de um saco de plstico um rdio com uma pilha 
recarregvel com energia solar. Entregou-o a Trosky, que 
terminara a sua massagem a Lucrezia e agora era tratado por 
ela. Sorria, satisfeito, e s vezes gritava propositadamente 
"ai!", quando ela lhe tocava na barriga ou lhe soprava na nuca 
num gesto atrevido. Tratava-se de brincadeiras sem segundas 
intenes, quase infantis, que lhes davam alegria. Mais tarde, 
sentaram-se num circulo, com o rdio no meio, e ouviram a 
transmisso da opereta Uma Noite em Veneza.
Losskov explicou-lhes o plano que fizera para a alimentao.
- Cada pessoa tem direito a dois copos de gua por dia. Para 
alm disso, temos as barras de fruta cristalizada.
- Por favor, no! - exclamou Trosky. - Aquelas coisas 
pegajosas vindas da Amrica? O meu pai costumava dizer que os 
Americanos ganharam a guerra graas a essas barras de fruta! 
Cada soldado tinha uma. Os Americanos traziam consigo essas 
barras, chocolate de cola, Nescaf e bolachas.
- Ns tambm temos tudo isso!
- Ento, no nos pode acontecer nada! - Trosky bateu com os 
dois punhos no peito, como se fosse um gorila. - Foi graas a 
esses alimentos que a Alemanha de Hitler foi derrotada, e ser 
graas a eles que ns venceremos o oceano! Imaginem s at 
onde os Viquingues teriam chegado se tivessem essa comida 
americana a bordo!
O primeiro dia foi muito divertido.
Trs horas mais tarde, a roupa secara, graas ao vento e ao 
sol. Lucrezia trepou pela ilha para apanh-la. Randler, que 
continuava no iate, precipitou-se de novo para a balaustrada e 
agitou os braos.
- Isto e  uma injustia! - gritou. - Quando as brincadeiras 
comeam, a imprensa e  simplesmente excluda! Deixem-me ir 
para essa ilha!
Lucrezia acenou-lhe, sempre nua, atirou as roupas para dentro 
da ilha e desapareceu.
Passaram a noite a contar histrias uns aos outros e a fazerem 
planos. Era difcil fingirem que estavam a trezentas e 
cinquenta milhas da costa, que estavam completamente isolados! 
Tentavam esquecer que a alguns metros se encontrava um iate a 
vigi-los.
Quando a noite caiu, Trosky inclinou-se para Losskov e 
sussurrou-lhe ao ouvido:
- At agora consegui aguentar-me bem. Foi fcil de controlar. 
Mas agora j no aguento mais! A gua e as bolachas acabam por 
transformar-se dentro do nosso corpo e depois querem sair!
- Estamos sozinhos no oceano.
- Mas eu tenho de...
- Mais cedo ou mais tarde, todos ns teremos essa necessidade. 
At as raparigas.
- e  uma situao completamente nova,  qual eu terei de me 
habituar.
- Ns naufragmos e j no temos nada a perder seno as nossas 
vidas! A vergonha e  o primeiro sentimento que desaparece.
- Se as coisas so assim - comentou Trosky em voz alta -, 
ento, eu agora vou urinar!
Escorregou de joelhos at  entrada, abriu o fecho das calas, 
deslizou at  margem da ilha e urinou. Lucrezia pestanejou, 
mas, quando Trosky acabou, ela prpria tomou o seu lugar 
agarrando-se a um dos cabos.
- Para vocs, ser um pouco mais difcil! - disse Trosky para 
Helena. - Tm de fazer muito mais ginstica! Ns, os homens, 
somos mesmo uma obra perfeita. Fomos bem pensados. Em 
compensao, ao mesmo tempo o mar lava-vos o traseiro.
- Se falasses menos serias mais suportvel - contraps Helena. 
- Entretanto, j todos ns sabemos que s um porco.
Escorregou at ao lado exterior da ilha e agachou-se ao lado 
de Lucrezia, que olhava fixamente para a escurido da noite e 
o mar negro. Entretanto, o iate j se encontrava a uma 
distncia de quase cem metros; a ilha de plstico estava a 
afastar-se.
- Acho-a ligeiramente irritadia! - disse Trosky, sem porm 
ter ficado minimamente ofendido com aquilo que ela dissera. - 
At quando est nua, ela continua a ter uma armadura de ferro!
O segundo dia chegou ao fim, e a atmosfera entre eles era 
ainda relativamente boa. Ouviram dois relatos de futebol no 
rdio, jogaram s cartas e fizeram outros jogos. Trosky falou 
das suas viagens ao mar Vermelho e s Maldivas, onde era 
hbito, e ele jurava que estava a dizer a verdade, as mulheres 
pendurarem colares de flores  volta do pescoo dos homens e 
em outras partes do corpo tambm.
Depois adormeceram, aquecendo-se mutuamente.
No terceiro dia, houve as primeiras agresses. Ligeiras, mas 
contnuas e perigosas. Helena apontou no seu caderno:
"Os olhos de Trosky esto a adquirir um brilho fatal. A Luzi 
parece um gato com cio. O Peter est a ficar resmungo e tem 
sempre a mania de que sabe tudo. E eu? Durante a noite dou por 
mim a desejar que o Peter me toque no peito. s vezes, quero 
aproximar-me dele, mas isso e  um disparate! Apesar de tudo, e  
interessante ver como, depois de dois dias, uma pessoa j 
comea a revelar o seu verdadeiro carcter."
O quarto dia, porm, tornou-se um martrio, sobretudo por no 
terem nada para fazer. O rdio tocava o dia inteiro e Trosky 
chegou mesmo a dar-lhe um pontap. Alm disso, comeavam a 
notar a escassez de gua potvel. Bastava para beberem, mas 
no era suficiente para se lavarem, de modo que no terceiro 
dia a pele j estava coberta de pequenos cristais que causavam 
uma forte comicho. Embora nadassem todos os dias  volta da 
ilha e a seguir secassem o corpo com toalhas, algumas horas 
mais tarde j a pele estava de novo coberta de cristais: era a 
espuma do mar que secava ao sol e se transformava em 
partculas mnimas, como se se tratasse de poeira.
Agora, estavam sentados no cho de borracha da ilha, de 
cuecas, e olhavam uns para os outros. Aborreciam-se. A 
conversa esgotara-se. Todos j sabiam o que acontecera a 
Helena quando fora estudante de Medicina, conheciam a Itlia, 
o pas de Lucrezia, a vida de Losskov, que no tinha grandes 
pontos altos, e as aventuras erticas de Trosky, das quais 
tanto se gabava.
No quinto dia, Trosky rejeitou a comida.
- Esta comida mete-me nojo! - gritou.
- Estamos a dirigir-nos para sul, Trosky! - avisou Losskov num 
tom duro. - At  costa faltam cerca de duzentas milhas!
Nesse dia, depois de terem nadado, deitaram-se nus na ilha, 
como era hbito. Desta vez, porm, Lucrezia tapou a parte de 
baixo do seu corpo com um pano. O seu olhar parecia estranho.
- Tem cuidado! - exclamou. - Eu tenho uma faca. Esse tipo - 
apontou para Trosky - est a olhar para mim como se me 
quisesse atacar!
- e  isso que ela queria! - gritou Trosky. - Atirem-na para a 
gua. Ela est to quente que o mar ferver!
Dieter Randler veio piorar ainda mais a situao. Como sabia 
que a comida na ilha de borracha era muito precria, estava 
constantemente a provoc-los, mostrando-lhes a sua comida. De 
manh e  noite, quando o iate se aproximava da ilha, 
sentava-se ao lado da balaustrada e exibia a comida que tinha 
no prato: suculentas salsichas ou fiambre com ovo, fgado 
frito ou uma enorme costeleta. Quando no quinto dia levantou o 
garfo e mostrou um pernil fumado, gordo e redondo, Trosky j 
no conseguiu controlar-se.
- Eu mato aquele homem! - berrou. - Eu arranco-lhe os 
intestinos!
Saltou para a gua e nadou em direco ao iate. Este, porm, 
deu meia volta e afastou-se. Trosky teve de regressar para a 
ilha e ficou amuado.
- Eu acho que esta experincia e  uma grande estupidez! - 
queixou-se a Losskov. - O mar est completamente liso! Isso 
pe-me doido! Durante a viagem tudo vai ser diferente. O mar 
estar bravo. O que ns estamos aqui a fazer e  uma simulao 
completamente estpida. Vocs metem-me nojo!
Sete dias mais tarde, a ilha de borracha foi recolhida pelo 
iate. Trosky procurou imediatamente Dieter Randler. Este 
fechara-se na sua cabina e pedia cessar-fogo com uma enorme 
garrafa de usque.
A avaliao final da experincia foi pssima. 
Cabisbaixos,sentaram-se no salo do iate,  volta da mesa. 
Sabiam perfeitamente que tinham falhado e ouviram 
pacientemente a pergunta, claramente retrica, de Losskov.
- E queremos ns dar a volta ao mundo num barco de oito metros 
e setenta!? Coitadinhos!
- Pelo menos, conseguimos livrar-nos do nosso pudor! - 
retorquiu Trosky. - Livrmo-nos disso, tal como tambm 
resolveremos os outros problemas. Mas houve uma coisa que 
provmos, sir! - Levantou-se bruscamente e ps-se em posio 
de sentido. - Estamos dispostos a tudo!
Losskov sorriu ligeiramente.
Era uma promessa com duplo sentido.
Depois dessa crise na ilha de borracha, Jan Trosky desapareceu 
durante dois dias em Hamburgo.
- Deixa-o - disse Helena Sydgriff quando Losskov lhe perguntou 
se no seria melhor exclui-lo da equipa e procurar outra 
pessoa. - No lhe perguntes onde e  que ele esteve. Mais vale 
que seja assim do que ele aborrecer-nos com a sua histeria 
hormonal. Cada um de ns tem os seus problemas! Tu tambm! 
Sabes que, quando precisas do Jan, podes contar com ele. Ele 
no tem medo de nada. Quem me preocupa mais e  a Luzi. O Jan 
pode desaparecer. Afinal os homens tm a sorte de gozarem de 
um estatuto especial. Mas quando uma mulher exige o mesmo 
direito, ela e  imediatamente considerada uma prostituta.
- Ah, e  mesmo?! - Losskov no teve coragem de olhar nos olhos 
de Helena. - Ela falou contigo acerca disso?
- Ainda no. Mas ontem  noite embebedou-se. Bebeu quase uma 
garrafa inteira de vinho e depois deitou-se na cama, como que 
paralisada, a falar com um Angelino qualquer que aparentemente 
a amava na sua imaginao. Transpirou tanto que eu tive que 
lav-la a seguir. Estava to embriagada que nem deu por isso. 
Agora, ainda est a dormir.
- Isso realmente e  um problema. - Losskov olhou para Helena 
com um ar inquiridor. - E tu?
- Eu, o qu? - perguntou ela, fingindo que no compreendia.
- Ns prometemos que falaramos de tudo e que seramos 
sinceros um com o outro. Especialmente quando se tratasse dos 
nossos pontos crticos. Teremos de controlar-nos. Quando 
estivermos no mar, ainda surgiro bastantes problemas 
imprevistos. No poderemos perder o controlo apenas porque 
precisamos de um homem ou de uma mulher.
- No te preocupes comigo - replicou Helena Sydgriff, 
friamente. - Eu consigo controlar-me.
- Existem comprimidos para isso?
- Tu s um pequeno tolo, Peer.
"Tenho tanta coisa para te dizer", pensou Losskov. "Poderia 
falar-te daquilo que sinto e que sonho, dos desejos que 
transporto dentro de mim. H trs dias, ainda estvamos 
deitados lado a lado completamente despreocupados e 
aquecamo-nos mutuamente. Mas, agora que regressmos  vida 
quotidiana, a tua imagem ficou gravada na minha cabea e mudou 
de um instante para o outro. De repente, vejo-te de outra 
maneira: as curvas do teu corpo, comeando pelos teus ombros, 
passando pelo peito redondo, pela barriga, at s tuas ancas e 
s tuas coxas. O teu cabelo louro, a penugem quase branca na 
tua pele que parece cetim quando se aproxima a mo... s vezes 
sinto um desejo apoderar-se de mim que s e  controlvel com 
um duche gelado. Fico meia hora a apanhar com a gua fria, at 
estar completamente gelado. Depois, enrolo-me na minha cama 
mas, mal me deito, no penso em outra coisa seno em ti: 
"Agora ela devia estar aqui, ao meu lado." Deverei eu dizer-te 
tudo isto? Agora? Vamos falar abertamente dos nossos 
problemas?! Como e  que eu te posso contar aquilo que vivo 
contigo nos meus sonhos? So coisas magnficas, fantsticas, 
lindas... Mas eu no consigo falar delas."
- Achas que eu deveria ir ver como est a Luzi? - perguntou 
Losskov e sentiu-se um grande cobarde.
- Se conseguires aguentar o cheiro a lcool... Os poros dela 
esto a expirar o lcool. Sim, isso e  mesmo verdade! Eu vi 
isso uma vez, quando no fim do primeiro ano dos meus estudos 
estive durante seis semanas em frica, na Tanznia, onde a 
minha universidade tinha um Centro de Investigao Tropical. 
Durante um safari passmos por uma aldeia na qual os 
habitantes tinham abatido um elefante uma semana antes. Tinham 
comido durante dois dias, at j no poderem comer mais, e 
depois cortaram o resto do elefante em pedaos e puseram a 
carne a secar. Isto quer dizer: metade da carne secou e outra 
metade apodreceu propagando um cheiro horrvel por toda aquela 
zona. Ns levmos dez homens daquela aldeia connosco. Antes de 
deixarem a aldeia, voltaram a comer a maior quantidade de 
carne possvel, came esta que estava a apodrecer. Aquilo que 
se seguiu foi horrvel. O cheiro a carne podre ficou entre ns 
durante vrios dias! Saa dos poros da pele daqueles dez 
homens. Nunca consegui explicar isso do ponto de vista mdico. 
Eles deveriam ter morrido de uma intoxicao alimentar, mas 
nada disso aconteceu! Continuaram vivos e sos. E at trs 
dias mais tarde, ns, os europeus, ainda tnhamos aquele 
cheiro horrvel e adocicado no nariz! - Olhou para a porta do 
quarto de Lucrezia. - Entra, se quiseres. Mas no digas que eu 
no te avisei!
Alguns dias mais tarde, Jan Trosky apareceu de manh no 
apartamento de Losskov. Parecia abatido.
- C estou eu! - exclamou. - Estive com a Anita. Durante dois 
dias ela no tomou comprimidos, e nem sequer saiu da cama! 
Pode ser que assim ela deixe de os tomar. Ela e  uma ptima 
rapariga! Tu podes dizer o que quiseres!
- Amanh iremos de novo para a Holanda! - anunciou Losskov, 
indiferente quilo que Jan lhe contara. "Tens tanta sorte", 
pensou e, de repente, teve inveja de Jan. "Tens uma Anita e 
ficas dois dias e duas noites com ela. As coisas so to 
fceis para ti. Eu, ao contrrio, tenho de me contentar com os 
meus sonhos com a Helena." - Telefonaram-me do estaleiro. O 
casco do barco est to avanado que j podemos tratar dos 
pormenores da instalao interior.
- Com um motor auxiliar!
- Sem um motor auxiliar!
- Tu s mesmo teimoso! Quando estivermos numa situao de 
emergncia e precisarmos de um motor, eu dou cabo de ti!
- Est bem. Amanh de manh, s sete horas, arrancamos.
- Levamos as raparigas?
- No, vamos sozinhos.
-Ainda bem.
- Porqu?
- Eu tenho a impresso de que elas precisam de estar longe de 
ns. Quanto tempo e  que ficaremos na Holanda?
-Uns trs dias.
- Isso chega para arejarmos as ideias.

Na manh seguinte, partiram no pequeno carro desportivo de 
Losskov. Enquanto eles j estavam na auto-estrada, Lucrezia 
sentava-se na cama e olhava pela porta aberta para Helena, que 
estava a pr a mesa do pequeno-almoo. Desde que moravam 
juntos, era sempre ela que o fazia. Luzi costumava fazer um 
ptimo caf, enquanto Trosky ia  padaria buscar po e 
crolssants. O pequeno-almoo era a refeio mais sofisticada; 
o almoo e o jantar costumavam ser mais simples. Afinal, 
tinham de poupar o mximo possvel.
- Eles j devem ir a meio caminho - disse Lucrezia. 
Espreguiou-se como um gato e afastou o cobertor. Como era 
hbito, estava nua na cama, e as madeixas do seu longo cabelo 
preto caam no seu peito. - Eu vou sair daqui a pouco e talvez 
no volte. - Lucrezia ps as mos na nuca. - Pelo menos por 
hoje. Depende daquilo que eu encontrar. Tambm e  possvel que 
eu o traga para aqui. Tu importavas-te com isso? Podes sempre 
ir para o quarto do Jan se no aguentares o barulho.
- Mais vale no voltares - aconselhou Helena, enquanto 
colocava a manteiga num recipiente adequado. - V, levanta-te! 
Prepara o teu caf  la romana.
- e  s isso que tens a dizer?
- Sim, porqu?
- Eu preciso de fazer isto. Ests a ouvir?! Se eu continuar 
assim, acabo por me devorar a mim prpria! Ser que tu no 
compreendes?
- Claro que compreendo. Por isso, e  melhor s regressares 
quando estiveres satisfeita. H suficientes hotis baratos em 
Hamburgo.
- Eu sei que o meu comportamento e  horrvel, Helena, mas no 
consigo controlar-me. Eu sou mesmo assim. Ser que existe uma 
vacina para isto?
- S se for para te acalmar. Ou, ento, do-te hormonas 
masculinas. Mas nesse caso a tua voz ficaria grave e terias 
plos no peito.
- Eu estou doente, no estou? Afinal isto e  uma doena! - 
Lucrezia saltou da cama e andou nua pela casa. - Meu Deus, s 
mesmo fria, Helena! Tu no consegues imaginar o que eu estou a 
sentir, pois no? No h homem que te d a volta. Porm, 
tambm no s lsbica. Ento, afinal, o que e  que s? Tu no 
tens sentimentos? Nunca sentes um arrepio por baixo da pele? 
Ou ser que nunca foste para a cama com um homem?
- Fui, fui. Faz o caf, minha ninfa!
- E ento? Como e  que foi? No correu bem? - Lucrezia ficou 
parada em frente a Helena.
"Vou ter de lhe dar uma bofetada para ela voltar ao seu estado 
normal", pensou Helena.
- Veste-te, faz o caf e depois vai  procura de um 
especialista em matria de hormonas! - disse num tom de voz 
bruto. - As tuas perguntas so ridculas!
- S mais uma! Por favor... - Lucrezia meteu o dedo no frasco 
de doce e depois na boca. - Amas o Peer?
Helena ficou parada. Olhou pela janela com um ar pensativo. L 
fora, os ramos de uma rvore verdejante baloiavam na brisa 
matinal. As folhas reflectiam o sol como se estivessem 
cobertas de uma camada de verniz.
- Sim - disse num tom decidido. - Eu amo-o. Mas isso s me diz 
respeito a mim!
- E esse tolo nem d por isso!
- Talvez seja melhor assim... para todos. E agora lava-te e 
faz o caf, que eu vou buscar o po.

A "Viagem para a Terra do Fogo" - fora este o nome 
completamente inadequado que Randler dera ao projecto de 
investigao - infelizmente no estava a avanar com muita 
rapidez. A culpa no era das empresas que o financiavam,
nem das pessoas que o organizavam, pois Losskov preparara tudo 
at ao mais nfimo pormenor. Lucrezia instalara um pequeno 
laboratrio no barco e encomendara redes de plncton, 
recipientes de metal resistentes  presso submarina, que se 
abriam automaticamente a diferentes profundidades e recolhiam 
amostras de gua. Trosky mandara vir de Praga os instrumentos 
de que precisava, e montara um aparelho de medio do vento, 
uma estao meteorolgica extremamente sensvel com registador 
automtico e mais um engenho misterioso.
- Peer, para te explicar o que isto , seria necessrio muito 
tempo - disse -, e de qualquer maneira acabarias por no 
compreender! e  um pequeno computador que contm dados exactos 
sobre o clima segundo o lugar, o dia, a hora e o minuto. 
Qualquer mudana do clima e  aqui registada e comparada com os 
outros dados. Da, poder-se- concluir se o clima do nosso 
planeta se est a alterar e de que forma isso est a 
acontecer.

Helena Sydgriff cumpriu a sua palavra: o equipamento de que 
necessitava consistia apenas numa nica mala repleta de 
medicamentos, injeces, infuses, ligaduras, pensos adesivos, 
uma embalagem de gaze e garrafas de plstico. Helena 
apresentou-lhes todas as pinas, molas e ganchos que trazia. 
Eram tudo instrumentos em metal cromado e reluzentes, capazes 
de confundir completamente um leigo. Dentro da mala, havia 
mais uma mala pequena que continha o material necessrio para 
uma interveno cirrgica.
- O que e  isso? - perguntou Trosky, apontando para uma enorme 
lmina.
- Uma faca para amputar! - respondeu-lhe Helena. - Com ela, 
posso cortar tudo o que se tornar desagradvel.
- Meu Deus! - Trosky recuou um pouco e tapou o seu corpo com 
as mos. - Eu desisto desta viagem! Esta senhora vai fazer de 
ns uns eunucos! E o que e  que acontece se o nosso crebro 
no agradar aos outros?
- No me esqueci desse pormenor - retorquiu Helena, fechando a 
mala. - Trago aqui todo o material necessrio. S no fim e  
que se extrai o crebro com uma colher.
- Que reconfortante! - Trosky olhou para Losskov com um ar 
crtico. - Tu permites que uma mulher destas viaje connosco  
volta do mundo?
Para que o projecto no fosse completamente esquecido pelos 
leitores, Randier publicava semanalmente um artigo em que 
falava dos preparativos da viagem. Entretanto, o barco j 
ficara pronto e fora equipado segundo os planos de Losskov. S 
faltava levar a comida para bordo. O barco era bonito e tinha 
um ptimo cordame: a vela grande media 14,5 m2, o traquete 9,9 
m2, a genoa I 27,5 m2, a genoa II 19,3 m2 e o traquete para a 
tempestade 3 m2. O mais impressionante era a vela de balo. 
Tinha 59 m2, o que lhe permitia avanar a uma velocidade 
extraordinria em condies de ondulao normal. Nem sequer o 
mar agitado representava um perigo para aquele barco, dado que 
o sistema que permitia rizar rapidamente as velas e o mastro 
dobrvel evitavam surpresas desagradveis no caso de uma 
brusca mudana de tempo. Estava equipado para enfrentar 
qualquer situao.
Losskov e a sua equipa deixaram-se fotografar em frente ao 
barco, no estaleiro, no dia da vistoria. Era o dia 14 de 
Dezembro, dez dias antes do Natal, um dia frio de Inverno, mas 
com muito sol. Dois directores da empresa de detergentes 
entregaram uma bandeirinha para o topo do mastro e, num gesto 
simblico, um bon branco de capito a Losskov. Como era 
previsvel, o bon trazia o nome do barco bordado a ouro: 
Lorde dos Mares. E, como que por acaso, a data da publicao 
dessa fotografia coincidiu com o princpio da campanha 
publicitria de um novo detergente para a roupa, chamado Lorde 
dos Mares.
Este fora, porm, o nico compromisso a que Losskov cedera. Ao 
fim de uma longa luta, conseguira que o seu barco no fosse 
portador de publicidade. Era mais do que suficiente que o 
jornal publicasse a lista das empresas que financiavam o 
projecto e que o barco aparecesse em segundo plano num anncio 
para o detergente.
- Partimos em Fevereiro! - anunciou Losskov. - At l, esto 
dispensados! Voltaremos a encontrar-nos no dia vinte e cinco 
de Fevereiro. Nessa altura, veremos qual de vocs realmente 
comparece!
- Duvidas de ns? Isso ofende-me! - Trosky deu uma palmada no 
ombro de Losskov. - Tu podes desejar que eu v para o diabo, 
mas eu l estarei, pontualmente!
- Vais ficar admirado! - acrescentou Lucrezia.
Dois dias depois, Trosky e Lucrezia viajaram para casa.
Helena Sydgriff por seu lado ficou em Hamburgo.
- No quero que passes o Natal sozinho - explicou a Losskov. - 
Se estiveres disposto a aturar-me, eu farei um ptimo bolo 
sueco para ti.
- E o teu pai?
- Eu telefonei-lhe. Por um lado, ele compreende e, por outro, 
no. Tu sabes como so os pais. Ele at te convidou a vires 
passar o Natal connosco, mas eu recusei.
- Porqu?
- Porque isso de certa forma comprometer-nos-ia. E eu no 
quero que tu te sintas preso. No achas que tenho razo?
Era uma pergunta  qual se podia dar vrias respostas. O mais 
fcil seria no dizer nada e em vez disso agarr-la e 
beij-la.
Contudo, Peter hesitou. A voz de Helena era fria, o seu olhar 
directo e os seus olhos azuis no deixavam transparecer nada 
que pudesse indicar algum desejo escondido. Quando Helena 
falava, nunca se sabia se aquilo que dizia deveria ser 
interpretado no verdadeiro sentido da palavra ou se ela no 
estava  espera que lhe provassem o contrrio. Losskov ainda 
no a conhecia suficientemente bem para saber avaliar isso.
- Infelizmente desta vez no acho que tenhas razo - 
respondeu, com um ar despreocupado. - Eu gostaria muito de 
conhecer o teu pai. Afinal vou roubar-lhe a filha...
O semblante de Helena no se modificou, nem mesmo a sua 
postura. Estava sentada numa poltrona numa posio 
descontrada.
- Porque e  que dizes que me ests a roubar ao meu pai?
- Esta viagem pode acabar mal. Isso j se pde constatar 
durante os treinos. e  impossvel simular a realidade a cem 
por cento. E eu acho que o teu pai sabe muito bem que te ests 
a envolver num projecto perigoso. - Hesitou um pouco e depois 
juntou toda a sua coragem para dizer: - Os pais normalmente 
gostam de ver as suas filhas decidirem claramente a que homem 
e  que pertencem. O que e  que tu achas disso?
Ela sorriu e a sua cara serena adquiriu uma expresso mais 
suave.
- Isso e  uma declarao de amor, Peer?
- Raios! Sim, !
- Ento faz as coisas como deve ser e d-me um beijo! E no e  
na testa ou na mo.
"Ora vejam", pensou Losskov. "Atrs de um icebergue pode 
esconder-se um verdadeiro vulco." Sentiu-se infinitamente 
feliz.
Mais tarde estavam deitados na cama e fumavam um cigarro, 
observando atravs da janela os flocos de neve que caam 
silenciosamente. Nevava h duas horas. Nestas alturas, 
Hamburgo transformava-se num pas de maravilhas cristalino. 
Dali a algumas horas, porm, este ambiente mgico 
desapareceria, a neve ficaria suja e acumular-se-ia na berma 
da estrada. Depois a neve enrijecida seria derretida com a 
ajuda de sal, ficaria lquida e os carros sujariam os pees ao 
passarem pela lama.
- Eu amo-te! - exclamou Helena, quebrando o silncio.
Ele virou-se e ps a mo no seio firme dela. Gostava de 
senti-lo. J estivera na cama com muitas mulheres, algumas 
delas raparigas de uma beleza estonteante, mas fora sempre um 
problema livrar-se delas. Houvera cenas com lgrimas e 
infelizmente tambm alguns sermes. Nunca conseguira acabar 
uma relao de forma amigvel, como certos outros homens o 
faziam, sem que elas guardassem rancor por muito tempo. Dieter 
Randler costumava dizer-lhe: "Tu s o tipo de homem com quem 
as raparigas querem casar, do qual elas esperam persistncia. 
Tens um ar to fiel que elas no acreditam quando lhes dizes 
que as vais deixar. No podes fazer nada contra isso, Peter. 
Tu s uma autntica promessa de casamento ambulante."
- s vezes vai-se para a cama com uma pessoa sem am-la - 
disse Helena e soprou-lhe o fumo do cigarro para o rosto. - 
Como a Lucrezia o faz, por exemplo... Mas a ti amo-te~
- Eu tambm te amo - respondeu ele, de uma forma pouco 
imaginativa.
- Ser que eu ainda direi isso quando tivermos voltado da 
nossa viagem?
- Porque no? - Peter apoiou-se nos cotovelos e observou-a. O 
corpo de Helena, branco e com uma suave penugem, era 
fascinante - excitava-o e acalmava-o ao mesmo tempo. Dava-lhe 
vontade de possu-lo e ao mesmo tempo transmitia uma sensao 
de conforto. - Achas que deveramos casar antes da partida?
- Isso est fora de questo! e  possvel que depois desta 
viagem nos odiemos e que s queiramos ter a coragem de nos 
matarmos um ao outro.
- Por amor de Deus, o que e  que ests a a dizer, Helena!
- Ns amamo-nos como pessoas normais, Peter! - Ela deitou-se 
de lado e colocou o brao sobre a anca dele. - Se eu voltasse 
para o consultrio amanh e trabalhasse como mdica e se tu 
tivesses um emprego como engenheiro naval, eu diria para 
casarmos j, diria que cada dia que passasse sem ti era um dia 
perdido. Mas as coisas no so bem assim. Em Fevereiro 
partimos para uma grande aventura que transformar cada um de 
ns. No duvides que isso vai acontecer! Descobriremos 
diferenas inimaginveis entre ns. A nossa alma estar 
completamente descoberta e a razo deixar de funcionar. 
Devamos ter isso sempre em mente e preparar-nos. e  bom 
sabermos o que pode acontecer, o que no quer necessariamente 
dizer que acontecer! - Helena beijou-lhe a barriga e 
acariciou o lado interior das suas coxas. Losskov fechou os 
olhos, encostou-se para trs e gozou os arrepios que sentia no 
corpo, at s pontas dos ps. - No sabemos o que nos espera. 
Ser que tu ainda sers tu e eu ainda serei eu quando 
voltarmos? No posso garantir que serei a mesma pessoa quando 
voltarmos! Imagina que ns mudamos e depois da viagem tu ests 
casado comigo e perguntar-te-s: "Como e  que eu poderei viver 
com esta mulher? Devia t-la atirado aos tubares!"
-        Cala-te e vem c! - disse Peter e agarrou os cabelos 
dela. - No digas tantos disparates! Eu amar-te-ei sempre e 
quando voltarmos casamos! Isso est decidido! Est bem?
-        De acordo. - Ela chegou-se para mais perto dele e pousou 
uma perna sobre o seu corpo. - Tambm pode acontecer que eu me 
queira ver livre de ti ainda antes de chegarmos  Terra do 
Fogo!
-        Isto aqui no e  a Terra do Fogo, isto e  a minha cama! - 
disse Losskov e puxou-a para cima de si.
Dois dias antes do Natal apareceu Mister Plump.
Helena fora comprar os ingredientes para o bolo de Natal e 
estava a estacionar o pequeno carro de Losskov em frente  
porta de casa quando cruzou pela primeira vez com o olhar de 
Mister Plump. Foi um encontro fatal. O seu olhar fascinou-a, o 
seu aspecto exterior era irresistvel. Helena teve que parar e 
olhar outra vez para ele. O seu corao bateu com mais fora e 
quando ele, coberto de neve, a fitou com os seus olhos escuros 
e com um ar suplicante, ela no teve outra escolha e disse com 
um suspiro:
-        No posso fazer nada. Vem comigo!
Mister Plump seguiu-a, subiu as escadas atrs de Helena e 
ficou ao lado dela quando tocou a campainha do apartamento de 
Losskov.
-        Podemos comear a preparar o bolo! - exclamou, quando 
Losskov lhe abriu a porta. - Vou fazer areias e espculos! E 
biscoitos de canela! Gostas de biscoitos de canela, querido?
-        Sim, adoro! - Losskov apontou para Mister Plump. - Quem e  
ele?
-        Quis vir comigo.
-        E tu simplesmente permites que te siga?
Mister Plump parecia no gostar que discutissem por causa 
dele. Passou por Losskov e entrou no apartamento. Depois olhou 
 sua volta e instalou-se no sof.
-        Ests a ver? - perguntou Helena e fechou a porta. Agora 
tenta explicar-lhe que no pode ficar ali!
-        Pois explico! Eu no permito uma coisa destas! - Losskov 
foi para a sala, sentou-se na poltrona em frente a Mister 
Plump e olhou para ele com um ar zangado. Mister Plump ignorou 
o seu olhar, espreguiou-se e continuou no sof. O seu olhar 
percorreu a sala e parou na porta da cozinha. Levantou um 
pouco a cabea e farejou. Na cozinha, Helena estava a 
desempacotar salsichas.
-        Mas o que e  isto? - perguntou Losskov num tom de voz 
menos duro do que pretendia. - Onde e  que j se viu uma coisa 
destas: entrar num apartamento desconhecido e deitar-se no 
sof assim, sem mais nem menos! Ele vai-se levantar j e sair 
desta casa!
Mister Plump no parecia ter muita vontade de aturar este tipo 
de discursos. Lanou um olhar cheio de desprezo a Losskov, 
levantou-se do sof e dirigiu-se para a cozinha. Parou na 
soleira da porta da cozinha e soltou um som estranho. Helena 
olhou para ele com um ar apaixonado e cortou um pedao de 
presunto.
-        Este e  o co mais feio que eu j vi! - exclamou Losskov.
-        Todos os ces so bonitos! - respondeu Helena. - Basta 
olhar para os seus olhinhos.
-        Est bem, nesse aspecto tens razo: os seus olhos so 
mesmo enternecedores.
-        Isso quer dizer que ele tambm j te conquistou?
-        No me digas que pretendes guard-lo?!
-        Queres mand-lo de volta para a rua com a neve e o frio 
que esto?
-        Mas de onde e  que ele veio?
-        Isso pouco importa. Agora est aqui e sente-se bem 
connosco. - Mister Plump voltou a latir, apanhou o pedao de 
carne e mastigou-o ruidosamente. - Ele no quer que lhe 
perguntem de onde vem; s quer saber onde pode ficar.
-        Mas que lgica mais estranha! Meu Deus, eu gostava de 
saber que mistura de raas e  esta.
-        Eu reconheo claramente um co rasteiro, loulou e 
terrier. S no sei onde e  que ele foi arranjar esse nariz 
achatado...
-        Impressionante! - Losskov observou como Mister Plump se 
sentou, estendeu a pata a Helena e assim conquistou 
definitivamente o corao dela. - Ele cheira to mal!
-        Todos os ces cheiram mal quando esto molhados.
-        Mas este cheira especialmente mal!
-        E tem todo o direito de cheirar mal! Mister Plump no e  
nenhum senhor, e  um mendigo! Quando tiver tomado um banho, 
at o teu nariz gostar dele.
-        Acho que o banho e  uma ptima ideia! - Losskov lanou um 
olhar para Mister Plump, mas este estava mais ocupado com o 
cheiro da salsicha e da carne. - Se ele realmente for um 
mendigo, considerar isso uma ofensa e fugir.
Mister Plump tinha um carcter dividido. Tal como Losskov 
esperara, no gostou nada de tomar banho. Rosnou e, com uns 
olhos tristes, ficou imvel na banheira, deixando-se molhar e 
ensaboar, lavar, secar e massajar. Depois do banho retirou-se, 
amuado, para o sof e adormeceu, enrolado, num canto. Mas no 
parecia querer fugir. Com o plo limpinho, ressonava to 
melodiosamente que Helena se debruou sobre ele e lhe deu um 
beijo no nariz achatado.
-        E, em Fevereiro, quando nos formos embora, o que e  que 
faremos com ele? - perguntou Losskov  noite, quando estavam 
deitados na cama a assistir a um programa de televiso e 
Mister Plump se espreguiava aos seus ps.
-        Ele vai connosco!
-        Tu queres que este co navegue connosco pelos oceanos?
-        Teremos de descobrir se o Mister Plump enjoa. Se no for 
o caso, passar a ser o nmero cinco da nossa equipa.
-E se ele enjoar?
-        Ento, eu dar-lhe-ei comprimidos!
Losskov suspirou, deu um beijo no pescoo de Helena e voltou a 
olhar para a televiso. "Isto j est a comear bem", pensou. 
"Eu no lhe consigo negar o que quer que seja."
Mas estava muito feliz.
"Eu amo-a", pensou. "Eu amo-a tanto, tanto, tanto."

No dia 24 de Janeiro voltaram a encontrar-se. Jan Trosky vinha 
bronzeado de umas frias na neve e Lucrezia Panarotti, que 
vestia um casaco em pele de leopardo, estava exaltada como 
nunca.
-        Este casaco foi um presente de Natal do Angelino - 
afirmou, dando uma volta para o exibir. - Ele ofereceu-mo para 
me tentar cativar! Imaginem s! Ele disse-me: "Este casaco e  
apenas o princpio! Se tu no participares nessa aventura 
ridcula, se disseres  tua equipa que afinal no os 
acompanhars, eu compro uma casa para ti na Via pia! Podes 
escolher as jias que quiseres na Cartier, desde que fiques 
aqui!"
-        Ento porque e  que no ficaste? - perguntou Helena. O 
seu tom de voz no era muito educado, mas Lucrezia parecia no 
ter dado por isso.
-        Eu fiz uma promessa e tenho de cumpri-la! Ou ser que 
vocs pensam que eu desistiria dessa viagem por causa de um 
homem que me quer mimar? Pensam que eu me deixaria comprar por 
ele? Acham mesmo que eu sou esse tipo de pessoa? - Tirou o 
casaco de pele de leopardo, atirou-o para uma cadeira e, 
olhando para ele, declarou: - Vendam-no! Deve valer uns vinte 
e cinco mil marcos! Esse dinheiro faz-nos falta!
-        Esta rapariga e  endiabrada! - disse Trosky, 
impressionado. - Tenho de vos confessar que no estava  
espera de que todos regressassem!
-        Vocs tm uma imagem completamente errada de mim! - 
Lucrezia fez beicinho. - Eu no compreendo porque e  que toda 
a gente me considera uma bonequinha! Mas esperem s, que eu 
ainda vos surpreenderei!
-        Espero bem que sim! - disse Trosky, rindo-se. - Bem, 
agora vou procurar a minha Anita. Ela no sabe que eu chego 
hoje. Vai ser uma grande surpresa!

 noite, Trosky apareceu em casa de Losskov; sentou-se numa 
poltrona, com um ar angustiado, disse:
-        Quero tabaco e um usque - proferiu. - Uma garrafa 
inteira, por favor.
-        Aconteceu alguma coisa entre ti e a Anita? - perguntou 
Losskov.
-        Merda!
-        Encontraste outro homem na cama dela?
- Se tivesse sido um homem, eu ao menos poderia atir-lo pela 
janela... Mas, no! - Sentou-se mais fundo na poltrona e 
parecia profundamente abatido.
Losskov deu-lhe um copo de usque que ele bebeu de uma s vez.
- Vim agora do hospital, onde estive com ela. Desde o Natal 
que ela est internada. Est aptica, plida, destruda. O 
mdico diz que j no h esperanas. O corpo foi completamente 
envenenado pelos comprimidos, o fgado est estragado, e as 
clulas cerebrais foram destruidas. Est no fim. E, no 
entanto, prometera-me que nunca mais tomaria comprimidos! 
Nunca mais! Mas, mal eu me tinha ido embora, ela tomou-os s 
toneladas...
Trosky fumava com gestos nervosos e Losskov permaneceu calado. 
Era impressionante ver como Trosky, um homem de aparncia to 
dura, ficava abalado com um acontecimento daqueles.
- Ela reconheceu-me e at sorriu - continuou. - E o que e  que 
eu fiz? Disse-lhe: "Ests com bom aspecto, querida! O mdico 
diz que em duas semanas tudo isto ter acabado!" E realmente 
eu no estava a mentir. "Talvez mais duas semanas", dissera o 
mdico. "Ela vai apagar-se." Depois, falei-lhe de Praga, dos 
veados e das montanhas de Tatra. Contei-lhe as lendas dos 
ourives e falei-lhe dos entalhadores de madeira nas montanhas. 
Ela ficou contente, como uma criana. "Um dia, eu quero ver 
isso tudo", disse. E eu respondi-lhe: "Claro, querida. Eu 
levo-te comigo!", embora soubesse muito bem que ela iria 
morrer. No fiques a parado, Peter! D-me mais usque.
Nessa noite, preferiu ficar em casa de Losskov. No voltou 
para o apartamento da equipa; ficou a dormir no sof, com a 
cabea no lugar onde normalmente Mister Plump se deitava.
Mister Plump fora com Helena para o apartamento comum. Ficara 
extremamente indeciso, dado que no se queria separar nem de 
Peter, nem de Helena. Andara irrequieto de um lado para o 
outro, at Losskov ter dito:
- Vai com a Helena, Plump! Tu s um homem! Tens de proteg-la! 
Eu sei tomar conta de mim!
Isso parecia plausvel a Mister Plump. Mas, apesar de tudo, 
quando partiu com Helena, os seus olhos tinham uma expresso 
to triste, que Losskov teve que repetir vrias vezes para si 
prprio: "Ele no se vai embora para sempre; voltarei a v-lo 
hoje  noite!"
"E daqui a vinte dias partimos para a nossa viagem! A grande 
aventura vai comear!"

O baptismo do barco foi muito concorrido. Para alm dos 
representantes das empresas que financiavam o projecto, estava 
tambm presente a rdio e a televiso e uma produtora de 
filmes industriais que viera para rodar um filme publicitrio 
para a empresa de detergentes. O barco no se chamava Lordde 
dos Mares, mas havia inmeras bandeiras da empresa  volta, o 
que tornava evidente que o novo detergente Lorde dos Mares 
tinha algo a ver com aquela viagem. Uma empresa de bolachas 
mandou uma turma inteira mordiscar as suas bolachas e a seguir 
abanar as embalagens ao vento, como se fossem pequenas 
bandeiras coloridas. Havia at mesmo um representante da 
cidade de Bremerhaven, que proferiu um pequeno discurso e lhes 
desejou boa sorte, o que causou grande espanto a Losskov. Isto 
porque a populao estava sempre ao corrente dos 
acontecimentos devido ao empenho de Randler em divulgar o 
"projecto Terra do Fogo", que j era celebrado como um 
acontecimento desportivo. Mas as autoridades das cidades de 
Hamburgo, onde a viagem era preparada, e de Bremerhaven, de 
onde o barco partiria, tinham ignorado quase por completo esse 
projecto. Provavelmente, isto devia-se ao facto de, sob o 
ponto de vista administrativo, no se saber como classificar o 
projecto. No se tratava de um evento cultural, nem de uma 
competio desportiva, nem havia uma misso cientfica 
oficial. Era antes uma ideia louca de um homem, apoiada pela 
publicidade. Para esses casos, no existe nenhum representante 
no conselho municipal. O facto de, apesar de tudo, ter 
comparecido um representante da cidade de Bremerhaven, 
explicava-se devido s eleies que se anunciavam para breve. 
O partido desse representante previa maus resultados, de modo 
que lhe pareceu oportuno fomentar um pouco mais a sua imagem 
junto  populao.
Losskov e Trosky levaram trs dias para preparar o barco para 
a partida. Tinham trazido todo o material a bordo e enchido o 
paiol da palamenta at ao ltimo centmetro. Tinham calibrado 
os pesos, controlado o cordame e os ganchos e - o que era mais 
importante - tinham verificado a ilha de salvao. A comida 
fora repensada: menos barras de fruta e, em contrapartida, 
mais legumes secos e carne seca, que eram mais leves, ocupavam 
menos espao e podiam ser deixados de molho antes de serem 
consumidos.
A nica coisa em que ainda no tinham pensado era o que fazer 
com Mister Plump.
-        Esse animal tem mesmo de vir connosco? - perguntou 
Trosky. - No olhes assim para mim, Helena, eu gosto muito de 
animais, eu adoro-os. Numa ilha nas Maldivas, at cheguei a 
comer um co assado no espeto num jantar para o qual fora 
convidado! Mas no compreendo o que este animal faz a bordo!
- O Mister Plump e  o nosso talism! - respondeu-lhe Helena 
Sydgriff num tom enrgico. - e  bem possvel que em breve ele 
seja o nico ser vivo a dar-nos alguma alegria!
- Este co ocupar no mnimo um metro quadrado do pouco espao 
que temos!
- Eu estou disposta a prescindir desse metro quadrado! Ele 
pode dormir ao meu lado!
- E o que e  que ele comer?
- Eu dar-lhe-ei um pouco da minha parte! Ests satisfeito?
- Ainda no! - Trosky parecia estar a gostar do seu papel de 
opositor a Helena. - Um co normal tem as suas necessidades a 
fazer! Como e  que queres resolver isso? Afinal, ele no se 
pode sentar na borda, como ns.
- Eu j andei a trein-lo! - respondeu Helena num tom de voz 
frio. - O Mister Plump foi habituado a uma pequena caixa com 
areia.
- Ento precisar de mais espao ainda! E de onde e  que 
queres tirar a areia quando estivermos no mar durante vrias 
semanas? Ou ser que exiges que naveguemos de um banco de 
areia para o outro s por causa do Mister Plump?! Assim at 
poderamos fazer um novo mapa nutico com as casas de banho 
para ces!
Entretanto, isso tudo fora esquecido. Mister Plump estava 
sentado ao lado de Helena Sydgriff, enquanto eram proferidos 
os discursos, e no se importava que o fotografassem e 
filmassem. O nome do barco ainda estava coberto, e havia uma 
garrafa de champanhe pendurada numa corda. Lucrezia e Helena 
aproximaram-se do barco e pegaram na garrafa, acompanhadas 
pelo som da banda que Randler contratara e que agora tocava 
uma msica de marinheiro num estilo de jazz. Losskov insistira 
para que as duas mulheres baptizassem o barco em conjunto. 
"Quero que sejam as duas juntas", dissera. "Mais tarde 
compreendero porqu."
- Agradeo a todos a ajuda prestada! - exclamou Losskov, 
depois de a banda ter tocado um trecho para introduzir aquele 
momento solene. - Ningum sabe quando e  que regressaremos, 
nem quando voltaremos a atracar! Tambm no sabemos quais as 
aventuras e os perigos que nos esperam. Apenas temos uma 
certeza: faremos tudo para alcanar a nossa meta! Esperemos 
que a sorte nos acompanhe durante toda a viagem. Por isso, 
decidimos baptizar o barco com o nome de duas bonitas mulheres 
que nos daro sorte: Helena e Lucrezia! O barco chamar-se- 
Helu!
Helena e Lucrezia lanaram a garrafa de champanhe contra o 
casco, e o pano que cobria o seu nome foi retirado com a ajuda 
de uma corda. O nome Helu reluzia em letras douradas ao sol da 
manh. Lucrezia bateu palmas e virou-se para todos os lados, 
fazendo gestos fotognicos para as cmaras. Helena deu um 
beijo amigvel na face de Peter. Trosky exibiu grandes 
sorrisos s cmaras.
-Helu... - sussurrou para Losskov. - Realmente escolheste um 
nome extraordinariamente ridculo! Bem poderias ter includo o 
meu nome e t-lo chamado Troluhe, por exemplo! Isso ao menos 
soaria um pouco a Wagner e a O Navio Fantasma. Quando e  que 
mandaste afixar a placa?
- Ontem  noite. - Losskov deu-lhe uma cotovelada nas 
costelas. - Agora quero ver todos a bordo! Esta encenao j 
se arrastou o suficiente. - Avanou dois passos e ps os 
braos  volta de Helena e Lucrezia. - Vocs vo  frente. 
Avancem!
A banda de jazz tocou algumas peas improvisadas. Helena e 
Lucrezia, de brao dado, quiseram ir para bordo do barco, mas 
antes apareceu Mister Plump. Cheio de dignidade, com o nariz 
erguido e realando a sua extrema fealdade, avanou pela ponte 
para o barco, saltou para o tecto da cabina, cheirou o mastro 
e olhou para trs, para as pessoas que estavam em terra.
- Vejam, ele encontrou o seu tronco de rvore! - exclamou 
Trosky, entusiasmado. E, de facto, Mister Plump levantou a 
perna traseira.
Losskov esperou que Helena, Lucrezia e Trosky estivesem a 
bordo e depois seguiu-os. Dieter Randler soltara as amarras. 
Trosky apanhou-as, Losskov tomou conta do leme, Lucrezia iou 
o traquete e Helena iou a vela grande. Vestiam fatos de 
treino brancos com riscas vermelhas laterais, uma oferta de 
uma empresa de artigos de desporto. Essa empresa aparecera com 
uma equipa de filmagens que tinha como funo realar nos seus 
filmes o smbolo da empresa no centro das camisolas.
Em terra, as pessoas batiam palmas, acenavam-lhes, e a banda 
tocava uma msica de despedida. Lentamente, com as velas meio 
iadas, o barco deslizou para a foz do rio Weser em direco 
ao mar.
Um homem que pertencia  televiso e andava com a cmara ao 
ombro olhou para Randler com um ar pensativo.
- Eles pretendem realmente navegar pelos mares com aquele 
barquinho?
- e  isso que e  fantstico nesta histria! - respondeu-lhe 
Randler, satisfeito.
- Chame-lhe fantstico, se quiser! - O homem tirou a cmara do 
ombro. - Eu s sei que vou guardar bem este filme. Poder ser 
utilizado para a necrologia.
Logo  partida, provou-se que Mister Plump era um ptimo co 
de bordo. Evitava as partes do barco onde havia o perigo de 
deslizar e sentava-se perto de Losskov no poo, ou ficava em 
baixo, no salo, sentado no banco almofadado. O seu instinto 
dizia-lhe que Trosky representava um perigo, por isso tentava 
evit-lo. As raras vezes que se cruzava com ele, olhava-o com 
um ar desconfiado e mostrava os dentes.
-        Ele sabe que tipo de pessoa eu sou! - comentou Trosky, 
satisfeito. - Ns gostamos um do outro  nossa maneira! E 
agora cuspam para as mos e vamos avanar mais rapidamente do 
que o vento!
Iou todas as velas, de modo que o barco parecia descolar-se 
da superfcie da gua, avanando a uma velocidade vertiginosa.
-        Que barco maravilhoso! - gritou Trosky para Losskov. - 
Estou a gostar cada vez mais dele! Quando houver uma 
tempestade, pareceremos uns peixes-voadores a saltarmos por 
cima das ondas!
Levaram um dia inteiro para sarem das guas do rio Weser e 
das principais rotas martimas. Navegaram sempre paralelos  
costa, em direco ao canal da Mancha. Passaram pelas ilhas da 
Frisia Oriental e depois pela cadeia de ilhas da Frsia 
Ocidental. Cruzaram-se com um draga-minas holands que os 
saudou com sinais de luzes, aos quais Losskov respondeu com a 
ajuda de um holofote porttil com uma tampa de plstico. 
Quando chegaram  zona do banco de Terschelling, caa a noite. 
Helena lanou a ncora flutuante para a gua. J se sentia o 
cheiro a carne assada, vindo da cozinha. Hoje era a vez de 
Lucrezia cozinhar. Preparou espaguete com panados de vitela. 
Recorreriam s refeies enlatadas e  comida seca apenas 
depois de terem passado por Cabo Verde, quando estivessem a 
caminho da Amrica do Sul, e prolongariam esse tipo de 
alimentao at s ilhas de So Paulo que eram uma crista no 
Atlntico Norte. Se e  que alguma vez l chegassem...
- Estou a sentir-me to bem! - exclamou Trosky, satisfeito. 
At atirou um pouco de carne ao co que, quando o comeu, teve 
de tossir, dado que estava cheio de pimenta.
Trosky riu-se s gargalhadas, at que Helena, que ajudara 
Mister Plump a recuperar a respirao com um pouco de gua, 
lhe disse num tom de voz frio:
- Da prxima vez, eu sopro-te pimenta para os olhos!
Devido a este pequeno incidente, a primeira noite acabou mal. 
Trosky retirou-se para o seu camarote, resmungando, e levou 
consigo uma garrafa de usque. Olhou para Losskov de soslaio.
- Isto promete tornar-se engraado - comentou -, com tanto 
sentido de humor a bordo!...
Era uma noite fria, por isso, Losskov decidiu acender o 
pequeno forno a gs. Sentou-se  mesa de cartas no salo e 
desenhou no mapa a rota para o dia seguinte. Depois iniciou um 
livro de bordo, no qual escreveu o relatrio do dia:
"Primeiro dia. O vento estava a nosso favor. Fizemos uma 
excelente viagem. No ocorreu nada de especial."
Mister Plump estava sentado ao seu lado e lambia-lhe o brao 
esquerdo. Depois, foi para a cabina da proa.
Pouco depois Lucrezia apareceu, vinda da sua cama na proa, e 
sentou-se  frente de Losskov. Usava uma camisa de noite que 
parecia um trapinho: a parte de cima era transparente e justa 
e a cala muito curta. Encolheu as pernas e, olhando para 
Helena, tentou compreender como e  que esta era capaz de estar 
no salo, completamente vestida.
- Eu no consigo adormecer - resmungou. - A culpa e  do Mister 
Plump. No suporto que ressonem ao meu lado. Fico 
irritadssima! E este co ressona tanto que eu no aguento.
- Ento eu mudarei de cama juntamente com Mister Plump! - 
props Helena. - Vamos dormir aqui no salo. Podes ficar com a 
cabina da proa s para ti!
-        Obrigada! Ento, por favor, vai buscar o co!
Lucrezia bocejou e espreguiou-se, apontando o seu peito 
bicudo para Losskov. Depois saiu do salo como uma sonmbula.
O barco baloiava levemente, e Helena estava igualmente a 
ficar com sono.
- Eu j acabei - disse Losskov, fechando os livros. - Amanh 
levantamo-nos s seis horas!
- A essa hora ainda ser noite.
- Mas ns temos de iar as velas! Eu quero chegar o mais 
rapidamente possvel s guas do Sul. Tenho medo do golfo da 
Biscaia. Ali h sempre problemas em Fevereiro. Depois, quando 
tivermos passado pela ilha da Madeira, e navegarmos em 
direco a Tenerife, o mar estar mais calmo. Isto, se 
tivermos sorte, claro! - Deu um beijo a Helena e ajudou-a a 
afastar a mesa e a juntar os dois bancos para formar uma cama. 
Quando se foi deitar, encontrou Trosky acordado. O pequeno 
camarote cheirava a usque. Trosky ligou a pequena lanterna e 
olhou para Losskov. Arrotou e afastou-se um pouco para que 
Losskov se pudesse deitar ao seu lado.
- Esse foi o ltimo usque que tu bebeste  noite! - declarou 
Losskov. - Eu no quero ser envenenado pelo teu cheiro 
enquanto durmo!
- Ento, vai-te deitar ao lado da Helena! - respondeu-lhe 
Trosky. - Ela tem um lugar para ti. E aposto que ficaria muito 
contente!
- Vamos desde j esclarecer uma coisa - proferiu Losskov num 
tom de voz severo. - Quem manda aqui sou eu! Eu trouxe-vos 
para esta viagem, porque quis, e por isso posso deix-los em 
terra quando bem entender!
- Teoricamente, sim! - murmurou Trosky. - Mas na prtica acho 
que nenhum de ns permitir que tu simplesmente nos expulses! 
Eu pelo menos estou a gostar desta viagenzinha  volta do 
mundo!
Losskov permaneceu calado. Mas pensou: "Eu deveria ter dado 
ouvidos a Helena. Ela nunca confiou no Trosky. Ele e  
imprevisvel. De que e  que me servem os msculos dele, se ele 
aterroriza as pessoas que esto a bordo!"

Na bacia ibrica, entre a costa portuguesa e os Aores, 
entraram numa calmaria. A temida Biscaia recebera-os com o seu 
habitual tempo de Fevereiro: ventos turbulentos, muitas ondas, 
um cu rasgado de nuvens, muito frio e chuva. Foi um tempo 
horrvel.
Durante essa tempestade, Helena e Lucrezia tiveram de provar 
que eram capazes de se manterem firmes no convs.
Andavam de um lado para o outro, vestidas com oleados 
amarelos, e rizavam as velas deixando apenas o traquete. 
Depois agachavam-se ao lado de Losskov, que estava ao leme e 
era molhado pelas ondas, enquanto utilizava todas as suas 
foras para manter o barco na direco certa.
Mais tarde, Trosky tomou o lugar de Losskov.
- Vo para baixo! - gritou. - Eu trato disto sozinho! Mudem de 
roupa. Eu nunca gostei de ver pessoas molhadas! - Riu-se e 
imediatamente engoliu uma grande quantidade de gua, dado que 
uma nova onda se despenhara sobre ele. Tossiu, praguejou e 
teve dificuldades em respirar, mas no largou o leme por um 
segundo sequer.
- Nestas situaes, ele vale ouro! - notou Lucrezia. Tirou a 
roupa, secou-se com uma toalha e sentou-se  mesa, nua. O 
barco era agitado de um lado para o outro, de modo que tiveram 
de segurar-se  mesa para no escorregarem. - Eu no consigo 
compreender o Trosky.

J estavam no mar h duas semanas. Tinham passado pela 
Normandia, onde o vento fora muito fraco, permitindo-lhes 
apenas avanar muito lentamente, e na Biscaia tinham deparado 
com a primeira tempestade. Ao longo da costa espanhola, at ao 
fim da Galiza, o mar continuara ligeiramente agitado, 
tornando-se porm j sensivelmente mais quente. Depois, 
entraram no oceano Atlntico, onde o cu era azul e o mar 
parecia retirado de um anncio publicitrio. Losskov escutara 
a previso meteorolgica no seu pequeno rdio de ondas curtas 
e franzira as sobrancelhas.
- Aproxima-se mau tempo, vindo dos Aores! - dissera. - Eu j 
estava a achar estranho isto estar a correr to bem! Quando 
por fim chegarmos a Tenerife, ofereo champanhe a todos. Acho 
que bem o mereceremos, dado que, para alm de tudo, nessa 
altura vocs tero passado o vosso exame de aprendizes...
Porm, Losskov fizera uma previso errada. O mau tempo dos 
Aores acabou por se dirigir para norte, e a sul formou-se uma 
espcie de vcuo, ou seja, uma calmaria. Quase que no havia 
vento: era to fraco que mal agitava as pontas do cabelo de 
Lucrezia. O barco ficou parado, imvel, no mar azul. Tinham 
iado todas as velas, at mesmo a vela de balo com os seus 
cinquenta metros quadrados. Mas os trapos, como Trosky 
costumava chamar s velas, permaneciam frouxos e o barco no 
avanava.
Lucrezia estava deitada no tombadilho a apanhar sol. Como era 
costume, no vestia nada, e quem estivesse no leme via em 
frente ao horizonte as suas pernas, o seu peito e a sua 
cabea.
- A Lucrezia tem de ficar mesmo ali? - resmungou Trosky ao 
tomar o lugar de Losskov ao leme. - No achas incomodativo?
- No. De qualquer maneira, no faria sentido proibi-la de se 
deitar naquele stio.
- Talvez possa mudar-se esta situao obedecendo aos seus 
subtis apelos?
-Jan!
- Eu sei, eu sei: a bordo, no! Mas qualquer dia ter de 
acontecer, Peer! Esse maldito Angelino do casaco de pele de 
leopardo habituou-a a certas coisas que agora naturalmente lhe 
fazem falta. Meu Deus, olha s para ela! Repara como ela move 
as pernas! - Puxou a pala do chapu para a testa e procurou um 
cigarro no bolso. - Como e  que tu podes ficar indiferente a 
uma mulher destas?! Ser que com toda esta responsabilidade da 
viagem te tornaste impotente?
Losskov no lhe respondeu.
- O que e  que aconteceu  Anita? - perguntou pouco depois.
O rosto de Trosky tornou-se srio e crispado.
- Ela morreu.
- Quando?
- Um dia antes da nossa partida!
- Porque e  que no me disseste nada?
- Terias adiado a partida?
- Isso teria sido impossvel.
- Ento, para que havia eu de dizer-te?
- Voltaste a visit-la?
- Sim, trs dias antes. O mdico disse-me que ela estava a 
chegar ao fim. A Anita estava com plena conscincia, at 
sorriu para mim. Parecia um anjo! Nunca mais me vou esquecer 
dessa imagem. "Ontem sonhei com a Moldvia", disse-me. Estava 
to plida e to fraca que lhe custava falar. "A Moldvia e  
maravilhosa. Consegui ver tudo aquilo de que me tinhas falado. 
Estou to contente por em breve irmos l juntos..." 
Apeteceu-me tanto chorar, Peer! - Trosky juntou os lbios. - 
Eu paguei o enterro - disse, depois de alguns instantes de 
silncio. - Dei o dinheiro ao mdico e pedi-lhe para ele 
tratar disso. Quis que ela fosse enterrada da melhor maneira, 
num bonito caixo de madeira de carvalho, com uma cruz de 
bronze e muitas flores, mesmo que no houvesse ningum no 
funeral. Talvez o dono da roulotte tenha comparecido com a 
mulher. Mas para isso teria de fechar a loja durante meio dia 
e isso significaria perda de dinheiro. Duvido que tenha l 
estado algum para alm do padre. Mas o padre, esse tinha de 
l estar. Afinal, eu paguei para isso e paguei tambm para que 
tocassem o primeiro andamento da Moldvia de Dvork, num 
gravador de cassetes... Toda a primeira parte! Em vida, ela 
no teve nada para alm dos malditos comprimidos. Mas depois 
da morte foi tratada como uma mulher de respeito, porque eu 
quis que assim fosse!...
Acendeu um cigarro, deitou o pacote vazio para a gua e, 
olhando para o corpo nu de Lucrezia, dirigiu-se de novo a 
Losskov.
- Aquela mulher j est a aborrecer-me, Peer! Ela no pode 
simplesmente basear-se no facto de j termos estado nus na 
ilha de salvao para se pr assim. Aquilo foi uma situao 
completamente diferente! Naquela altura, eu no a via da mesma 
maneira, compreendes? Naquela altura ela era um ser "neutro"! 
Mas agora h trs dias que ela est deitada  minha frente e 
eu sinto um arrepio no corpo! Agora, reparo nela! E ela sabe 
disso! Quando e  que atracaremos da prxima vez?
- Quando chegarmos a Santa Cruz, em Tenerife.
- Nessa altura quero que a expulses do barco e lhe pagues a 
viagem de volta de avio para Roma!
- Isso seria igual a capitular. Eu preferiria que ns 
consegussemos controlar-nos.
- Para sempre, men!
Lucrezia espreguiou-se, virou-se de barriga para baixo e 
olhou para eles. O seu longo cabelo preto, que lhe ia at s 
ancas, cobria-a como um sobretudo esfarrapado.
- Porque e  que no falam mais alto? - perguntou. - Gostaria 
de ouvir de que e  que esto a falar! Deve ser extremamente 
interessante.
- E de facto ! - exclamou Trosky com a sua voz grave.
- Posso participar na conversa?
- Acho que no. Trata-se de um adestramento. Temos algo a 
domar...
Durante o jantar, Lucrezia estava sentada de tronco nu  mesa, 
a beber sumo de laranja atravs de uma palhinha, quando Trosky 
olhou para ela com um semblante furioso.
- Amanh, jantarei de rabo descoberto. Afinal, parece serem 
essas as regras da casa!
- Mas eu tenho calor! - Lucrezia tinha o dom de mostrar um 
semblante de menina assustada quando queria. Os seus olhos 
ficavam enormes, cheios de inocncia. - O meu corpo est 
carregado de sol.
- Tentarei lembrar-me disso quando tiver frio! - resmungou 
Trosky. - Nessa altura, dar-me-s um pouco do teu calor.
- Pressinto uma grande zaragata... - comentou Helena, mais 
tarde, quando estavam sentados no salo.
Mister Plump ainda estava deitado em cima, no poo, na brisa 
morna que se levantara com o cair da noite. Com a ncora 
flutuante, o traquete e a genoa II iados, o barco dirigia-se 
lentamente para sul. As suas luzes reflectiam-se no mar 
violeta: vermelho a bombordo, verde a estibordo e uma luz 
branca e forte no mastro, como se se tratasse de um pequeno 
farol. Ali, Mister Plump sentia-se bem. Tornara-se um 
verdadeiro marinheiro desde xxxxxx que, durante a tempestade 
na Biscaia, aprendera a andar sem problemas pelo barco, 
inclinando-se ora para um lado, ora para o outro, e 
acompanhando o ritmo das ondas.
- Ele e  to inteligente! - dissera Helena uma vez, muito 
orgulhosa. - Isso e  caracterstico dos bastardos.
- Ento eu devo ser uma das pessoas mais inteligentes do 
mundo! - resmungara Trosky.
- Ningum disse que isso no era verdade! - respondera Helena. 
Tinham-se rido dessa resposta, incluindo Trosky. Apenas o 
olhar que lanara a Helena deixava adivinhar que no achara 
graa nenhuma.
- O Trosky, aos poucos, est a devorar a Lucrezia nos seus 
pensamentos - comentou Losskov. - E apenas passaram duas 
semanas desde a nossa partida! Ele prope que mandemos a Luzi 
para casa quando chegarmos a Tenerife.
- Ento, eu seria a nica mulher a bordo.
- Terias medo?
- Eu acho que deverias antes mandar o Trosky para casa, Peer.
- Ento, eu seria o nico homem entre duas mulheres.
- Talvez assim as coisas fossem menos complicadas do que na 
situao inversa. Eu arranjo-me com a Luzi, mas com o Trosky 
no!
- Vou pensar nisso - respondeu Losskov. - Receio que, para 
tirar o Trosky do barco, seja necessria uma interveno 
policial. Ele prprio j disse que nunca saria de livre 
vontade!
Depois dessa conversa, Losskov voltou para o convs e Helena 
foi-se deitar. Mister Plump abanou a cauda quando Losskov se 
sentou ao lado do leme e olhou para a escurido da noite clara 
e quente. O vento tornara-se mais forte. Se iassem todas as 
velas, poderiam avanar a alta velocidade.
Losskov recolheu a ncora, iou a vela grande e o traquete e 
ficou satisfeito por ver o barco deslizar pelo mar como se 
rolasse sobre carris. Pouco depois, apareceu Trosky e 
sentou-se ao seu lado. Vestia umas calas curtas e uma 
camisola interior sem mangas.
- Estava quase a adormecer quando ouvi algum subir a ncora! 
O que e  que est a acontecer?
- H uma brisa ptima.
-        Queres navegar durante a noite?
-        Gostaria de aproveitar este vento. Assim, amanh de 
manh, quando este vento tiver desaparecido, teremos 
percorrido um bom trajecto.
- E porque e  que no me chamaste? Querias ficar sozinho ao 
leme, durante toda a noite?
-        Sinto-me fresco e descansado.
- Ns tnhamos combinado que repartiramos o trabalho. Queres 
que eu fique a ressonar na cama enquanto tu trabalhas! O 
grande heri que permanece acordado e trabalha enquanto os 
outros ficam a contar os carneirinhos. - Trosky ps o dedo 
indicador nas costelas de Losskov. - Tu trabalhaste bastante 
durante todo o dia. Agora, eu vou tratar disto! Vai dormir! 
Daqui a quatro horas, acordo-te.
Losskov fez o que Trosky lhe disse.
- Basta manteres o barco em direco a sudeste - elucidou. - 
Amanh de manh, voltarei a calcular o rumo. E se quiseres 
aproveitar melhor a fora do vento, ento...
- Pensas que sou algum parvo?! - exclamou Trosky. - No sabia 
que tu eras o professor!
- Porque e  que encaras tudo de uma maneira to pessoal? - 
perguntou Losskov. - Ningum te quer mal!
- Eu sou um bastardo! Foi o que a Helena disse!
- Tu e  que a desafiaste a diz-lo.
- Mas ela estava a falar a srio! Eu no me esqueo dessas 
coisas! e  muito fcil magoar-me, Peer! Eu sou uma pessoa 
muito sensvel, embora no parea!
- Tu s muito estranho - replicou Losskov. - Ests dividido em 
dois. Como se fosses esquizofrnico.
- Obrigado! H mais algum elogio que me queiras fazer?
- Por um lado, proporcionas um enterro de primeira  pequena 
Anita e por outro aterrorizas as pessoas como se fosses um 
monstro. s capaz de chorar, quando falas da Moldvia, mas 
queres atirar o Mister Plump para o mar, s para veres como os 
tubares o devoram.
- A ideia at no e  m de todo! - Trosky sorriu e olhou para 
Mister Plump. O co lanou-lhe um olhar pouco amigvel. No 
havia nada entre ele e aquele homem grande e estranho. - 
Tentarei lembrar-me disso quando chegarmos  zona dos 
tubares.
- Quem e  realmente o verdadeiro Trosky? - perguntou Losskov.
- Aquele que vocs quiserem! A escolha e  vossa! Que mais e  
que querem? Eu sou o bode expiatrio para qualquer situao! 
Deveria ser indispensvel para vocs! Acontea o que 
acontecer, eu sou sempre o culpado!
Afastou Losskov do leme e sentou-se, de pernas abertas.
- Vai-te embora! Vai dormir! Posso fazer uma pergunta?
-  vontade.
-        A Helena, fria como , ser frgida?
-        Devias levar um murro!
- Mas tu no vais bater-me, porque no fundo e  uma questo que 
tambm te preocupa. Fazer sempre o papel de santo deve ser um 
divertimento realmente perverso!
Losskov afastou-se, furioso, decidido em mandar Trosky embora 
quando chegassem a Tenerife. Helena j estava a dormir e no 
notou como Mister Plump saltou para a cama dela, enrolando-se 
a seus ps. Durante alguns minutos, Losskov ainda ficou a 
ouvir o barulho do barco a avanar rapidamente pelo mar, 
depois adormeceu com o barulho da gua e os movimentos 
regulares do barco.
Por volta das duas horas, Lucrezia apareceu no convs. A pouca 
roupa que vestia era perfeitamente dispensvel, dado que 
deixava transparecer tudo. Trosky olhou para ela com um piscar 
de olhos.
- A nvel da biologia marinha no se passa nada! - exclamou. - 
No h pirilampos na gua, o plncton est a dormir e os 
unicelulares esto a tentar transformar-se em pluricelulares. 
Ou seja, no h nada de novo no oceano.
- Estamos a navegar de vento em popa! - exclamou Lucrezia. 
Sentou-se em frente de Trosky num canto do tombadilho. Trosky 
olhou para ela, irrequieto.
- Isso e  normal num barco  vela!
-        O Peer sabe que estamos a navegar?
- e  claro que no! Quero fazer-lhe uma surpresa, quando 
chegarmos a Casablanca, amanh.
- As tuas piadas so mesmo parvas! - disse Lucrezia. - Porque 
ser que eu no consigo adormecer?
- Isso e  devido  presso. As caldeiras tm uma vlvula para 
se libertarem da presso. O homem, porm, tem de se livrar da 
presso de outra maneira. Eu considero isso uma injustia. 
Olha para os golfinhos, por exemplo. H pouco, vi um casal a 
bombordo. Foi uma alegria observ-los! Saltavam um para cima 
do outro, de tal forma que eu fiquei cheio de inveja. - Largou 
o leme, amarrou-o com uma correia e aproximou-se de Lucrezia. 
Os olhos dela tremelicavam. Trosky posicionou-se em frente s 
pernas dela e ps as mos nas suas finas coxas. Estavam 
agradavelmente frescas e eram lisas e rijas. - e  melhor eu 
esclarecer logo  partida que sou um pobre assistente 
cientfico e que no me posso dar ao luxo de oferecer casacos 
de pele de leopardo. Mas acho que no preciso disso, dado que 
tenho outras vantagens.
- Tira as mos de cima de mim - ordenou Lucrezia, calma mas 
decidida.
- Tenho as mos no stio errado? Queres que as faa subir um 
pouco?
-Tira-as, j!
Trosky encolheu os ombros como se quisesse dizer que nesse 
caso no havia nada a fazer. Tirou as mos das coxas de 
Lucrezia e colocou-as  volta do peito dela. As suas mos eram 
to grandes que o tapavam por completo.
- As insnias devido a uma certa razo so pssimas - 
comentou. - Aposto que a Helena te poderia fazer um relatrio 
mdico acerca disso. Mas quem e  que poder ajudar-te a 
cur-las? - Engoliu em seco e aproximou a cabea dela.
-        Sabias que s a mulher mais excitante que eu conheci na 
vida?
Tentou obrig-la a deitar-se para trs; de repente, sentiu as 
pernas de Lucrezia darem-lhe um forte pontap no peito. Trosky 
desequilibrou-se, mas felizmente ainda conseguiu segurar-se a 
um cabo, seno teria cado para a gua. Depois, Lucrezia 
deu-lhe um murro to forte que durante alguns instantes sentiu 
falta de ar. Quando finalmente conseguiu soltar um grito, ela 
desceu rapidamente as escadas para a cabina.
Trosky at julgou t-la ouvido rir-se, porm, talvez fosse 
impresso sua. O seu sangue disparava pelas tmporas.
- Sua malvada! - berrou. - Comigo no! Comigo no! - Foi at 
ao leme, agarrou~ com as duas mos e voltou a dirigir o barco 
para o vento. - Da prxima vez, apanho-te! Nem que te tenha de 
pregar ao cho! Sua descarada!
Arrancou a camisa do corpo, tirou as calas e ficou nu ao 
vento. De braos abertos, deixou que o vento lhe soprasse pelo 
corpo. Isso fez-lhe bem e acalmou a sua raiva.
Ao nascer do Sol, Losskov apareceu no convs.
Fora acordado por uma forte pancada contra o casco do barco. 
Primeiro, pensou que se tratasse de um banco de areia, mas, 
como continuou a ouvir o barulho da gua e sentiu o barco 
baloiar, concluiu que continuavam dentro de gua.
Trosky estava sentado no poo. Amarrara o leme e olhava 
fixamente para o mar. O vento era moderado e excepcionalmente 
quente para aquela poca do ano. Navegavam com a vela grande e 
o traquete e avanavam bem, mergulhando a um ritmo regular e 
cortando as cristas das ondas. Ao olhar para o Sol que estava 
a nascer, Losskov concluiu que se encontravam na rota certa 
para a Madeira. No iriam atracar nessa ilha, mas continuariam 
mais para sul, at s ilhas Canrias, onde se abasteceriam de 
gua. Losskov escolhera Tenerife como ponto de paragem.
Trosky parecia ainda no ter dado pela sua presena. Estava 
sentado no banco, de tronco nu, apenas com um cachecol  volta 
do pescoo e um bon na cabea, imvel como uma esttua. 
Losskov olhou  sua volta. Estava tudo em ordem.
- Que barulho foi este? - perguntou.
Qualquer pessoa teria estremecido com a presena inesperada de 
Losskov. Trosky, porm, permaneceu imvel e continuou a olhar 
para as ondas.
- O barco bateu contra um golfinho - respondeu com a sua voz 
grave. - Ou melhor, o golfinho bateu contra o barco!
- Isso e  impossvel!
-        Porque e  que e  impossvel?
-        Os golfinhos so animais extremamente inteligentes, quase 
to inteligentes como os homens! Podem nadar ao lado de um 
barco, mas nunca bater contra ele! Porque e  que haveria de 
acontecer isso?
-        Talvez fosse uma fmea que estava interessada em mim!...
Losskov aproximou-se. Foi nesse instante que viu um pau com 
uma ponta de ferro afiada deitado ao lado de Trosky. A madeira 
do pau estava molhada: devia ter sido retirada da gua h 
poucos minutos.
-        Ah! Ento e  isso! - exclamou Losskov, furioso.
-O qu?
-        Tu bateste num golfinho com este pau com a ponta de ferro 
afiada! Isso e  um descaramento!
-        No fui eu que trouxe esse pau para bordo!
-        Tu sabes exactamente que precisamos de um pau desses para 
nos defendermos dos tubares!
- Por amor de Deus, foi apenas um engano! - Trosky puxou o 
gorro para a testa. - Eu vi qualquer coisa a sair da gua ao 
meu lado. Como s consegui distinguir uma barbatana e qualquer 
coisa brilhante a bombordo, quis defender-me! Afinal tambm 
poderia ter sido um tubaro! Felizmente que era apenas um 
golfinho! Peo desculpas, sir!
-        Tu achas que eu sou burro ao ponto de te considerar assim 
to estpido? - perguntou Losskov, furioso.
-        Essa e  uma pergunta  qual eu no posso responder com 
sinceridade! - Trosky esfregou as duas mos no peito e 
espreguiou-se, realando os seus msculos. - Eu senti a 
necessidade de fazer qualquer coisa, chefe! Qualquer coisa 
demolidora! Tinha de destruir! Eu no podia dar cabo do barco 
e como o golfinho apareceu no momento certo... Mas tu no 
compreendes isso, pois no?
-No!
-        Como poderias tu compreender tal necessidade?! O que e  
que tu farias se uma mulher se debruasse  tua
frente de tal modo que tu s terias de saltar para cima dela?
E se, quando o fizesses, ela se risse de ti! Provavelmente 
ficarias aborrecido e cantarias uma cano, no ? Mas eu no 
sou assim! Eu tenho de destruir qualquer coisa! Ser que tu 
no compreendes isso?!
- Talvez - retorquiu Losskov, hesitante. - Mas ainda h muita 
coisa que eu no compreendo.
-        Tanto barulho por causa de um simples golfinho!
Losskov desceu para os camarotes. Helena estava acordada, mas 
continuava deitada. Mister Plump instalara-se aos seus ps, 
abanava a cauda, e olhou para Losskov com um ar interrogador.
-        Que barulho foi esse,l em cima? - perguntou Helena. - O 
Trosky voltou a ser agressivo?
- Onde est a Luzi?
- No seu camarote.
- Tu ouviste-a esta noite no convs?
- No, dormi como uma pedra! - Helena endireitou-se. Como era 
hbito, dormia nua, devido ao calor que fazia. Losskov olhou 
para o seu peito. "Se eu agora fosse o Trosky e tivesse a 
mentalidade dele, atirava-me para cima dela", pensou. "E 
ser-me-ia indiferente que os outros nos observassem!"
- O que e  que aconteceu, Peer?
- No sei. O Trosky parece um doido! Pelo que ele diz, a Luzi 
esteve l em cima durante a noite e provocou-o at aos 
limites. Depois, fugiu, deixando o Trosky completamente 
confuso. Para se vingar, ele tentou matar um golfinho 
totalmente inofensivo.
- E isso irrita-te? - A voz de Helena era fria. A clareza dos 
seus pensamentos continuava a surpreender Peter. S quando ela 
estava junto dele, quando era completamente mulher, e  que 
deixava de ser fria. Nessas alturas, parecia um vulco. 
Losskov sentou-se. Havia ainda na mesa uma chvena com ch 
frio. Losskov bebeu-o em goles pequenos e rpidos.
- O que mais me intriga e  a razo pela qual Trosky diz ter 
feito aquilo: "Eu sinto a necessidade de destruir!" e  uma 
frase to ameaadora! Destruir! O que e  que se passa com 
aquele homem? Uma mulher escapa-lhe e ele sente logo a
necessidade imperativa de destruir o que quer que seja! Se 
prosseguirmos esse raciocnio de uma forma lgica, o que e  
que acontecer, Helena? Ele pensar sempre em destruio logo 
que algo no lhe agrade! E imaginar que ns temos uma pessoa 
destas a bordo!
- Podes ver-te livre dele em Tenerife. - Helena sentou-se, 
pegou numa T-shirt e vestiu-a, cobrindo assim o seu 
maravilhoso peito. Mister Plump soltou um grande suspiro. 
Queria dormir mais um pouco. - No achas que seramos capazes 
de continuar a trs?
- No! Aqui, nesta zona, talvez fosse possvel, mas em breve 
entraremos noutros mares! Passaremos pela Terra do Fogo e 
alcanaremos o oceano Pacfico. Isso ser duro de mais para 
vocs!
- Apenas por sermos mulheres? - perguntou Helena num tom de 
censura.
- Sim. Mas isso no quer dizer que no sejam to importantes 
como ns.
- Quer, sim! Vocs e o vosso maldito orgulho masculino! Os 
homens acham sempre que tm mais fora! At parece que apenas 
os homens so capazes de grandes feitos. Querem que as 
mulheres se deitem e esperem que algum faa uso delas!
- Helena!
- Eu vou-te mostrar como se dobra o cabo Horne! Estarei por 
baixo das velas! Ns no precisamos do Trosky!
- Os meus parabns! Foi um excelente discurso de uma grande 
feminista! - Trosky encontrava-se nas escadas. No tinham dado 
por ele; devia ter-se aproximado em silncio. Nem sequer 
podiam saber h quanto tempo j l estava, nem o que e  que 
ouvira. S nesse momento Mister Plump reagia. Rosnou baixinho. 
A inimizade entre ele e Trosky era insupervel. - Estou 
plenamente convencido de que precisaro de mim! - afirmou 
Trosky.
Entrou na cabina e encostou-se  porta do armrio. Lanou um 
longo olhar a Helena e mexeu os lbios. Ela usava uma T-shirt, 
mas da cintura para baixo continuava nua.
- No sabia que eras capaz de te aproximar assim, despercebido 
- declarou Helena.
- Veste umas calas! - exclamou Trosky num tom perigoso. - 
Ainda tenho a outra mulher atravessada na garganta. A 
propsito, tenho uma coisa a acrescentar ao vosso dilogo: 
quando h um homem com duas mulheres as coisas nunca correm 
bem! Ao princpio, talvez d certo. O homem sente-se bem sem 
outro elemento masculino a fazer-lhe concorrncia. Mas depois, 
as honradas senhoras ficam doidas! Peer, meu santo, tu nunca 
conseguirs aguentar estas duas durante vrios meses! Nunca! 
Elas vo atacar-te de todos os lados!
- Tu s nojento! - exclamou Helena num tom de voz frio. Vestiu 
umas cuecas e acariciou Mister Plump. - Ser que j no pensas 
em mais nada?
- Eu ao menos digo aquilo que penso! Vocs, hipcritas, nunca 
exprimem os vossos pensamentos e depois engasgam-se. Por amor 
de Deus, sejam sinceros! Somos dois homens e duas mulheres 
bonitas e estamos sozinhos num pequeno barco no meio do 
oceano! E continuaremos nesta situao durante vrios meses! 
Agora, a minha pergunta e  a seguinte: qual ser o 
comportamento normal numa situao destas? Ser um banho frio, 
soda na comida e leituras da Bblia? Ou no ser melhor 
considerarmo-nos seres com funes biolgicas e agirmos 
consoante essas funes? Como vem, eu tambm sou capaz de me 
exprimir de maneira mais cuidada!
- Eu no sou apenas um corpo - respondeu-lhe Helena, 
calmamente. - Tambm possuo um crebro que pensa de forma 
racional!
- A est! - Trosky apontou para Helena. - Tu deverias tratar 
disso, Peer! Se h aqui uma pessoa a mais, e  a Helena! Ela 
deveria ser excluida da equipa! Dois homens e uma mulher a 
bordo... Isso no resulta. e  pior do que um homem e duas 
mulheres! Eu digo-te abertamente, Peer, que, se fssemos s 
ns trs a bordo, no deixaria um centmetro da Lucrezia para 
ti! Nem um cabelo! Logo que pudesse, partia-te a cabea e 
atirava-te aos tubares!
- Ao menos, ele e  sincero! - reconheceu Helena. - E alm 
disso no tem medo.
- Medo de quem? - perguntou Trosky, rindo-se.
-        De ti prprio!
- Ests a mencionar um ponto muito importante. - Trosky 
afastou-se do armrio, sentou-se  mesa, ao lado de Losskov, e 
olhou para a porta que dava para o camarote de Lucrezia. - O 
que e  que acontece se eu agora entrar nesse camarote e domar 
a rapariga?
- No te atrevas! - ameaou Losskov com calma.
- Ah! Se ela tiver trancado a porta, terei de arromb-la. Isso 
no seria muito difcil, j que a porta e  fina.
- Enganas-te. A porta e  feita de polister com fibras de 
vidro. e  resistente  presso! Tu sabes isso.
- Eu consigo abri-la!
Jan ergueu-se com esforo.
- Senta-te! - ordenou Losskov sem levantar a voz.
- E se eu no te obedecer, o que e  que acontece? - gritou 
Trosky. - Sabem muito bem que se eu agora decidir tossir com 
muita fora vocs ficam colados  parede! A Helena acabou de 
descobrir que eu no tenho medo! E realmente eu no tenho medo 
de nada! De nada e de ningum! Nem mesmo dessa maldita Terra 
do Fogo e do cabo Horne! E isso vale muito, no acham? Para 
vocs, isso constitui um capital! Comigo, vocs tm a certeza 
de vencerem os mares... Apenas comigo! Sabem isso! Deveriam 
tratar-me no mnimo to bem como tratam esse co!
Ficou parado a pensar o que Losskov faria se tentasse abrir a 
porta do quarto de Lucrezia. Peter no olhou para ele. Estava 
a pensar na melhor maneira de impor disciplina a bordo. "Ele 
no sabe que eu tirei um curso de judo", pensou. "Fui o 
terceiro melhor do curso. Embora isso no tivesse sido o 
suficiente para conquistar um cinto, bastou para eu aprender 
todas as artimanhas necessrias. Como nunca falmos disso, o 
Trosky no sabe de nada. Se ele der mais um passo, eu posso 
agarr-lo pelas pernas e atir-lo para o canto. Mas o que e  
que acontecer depois? Ainda temos um longo caminho a 
percorrer at Tenerife. Com este vento fraco, levaremos no 
mnimo mais quatro dias. Quatro dias num espao to reduzido, 
com um homem que s pensa em vingar-se? Ainda por cima, 
existem centenas de oportunidades de vingana neste barco. " 
Trosky parecia estar a pensar no mesmo e teve receio de agir. 
Porm, no chegou a tomar uma deciso, dado que naquele 
momento a porta abriu-se e Lucrezia entrou no salo. Vestia um 
biquini minsculo, tinha o cabelo apanhado no cimo da cabea e 
lanava olhares ingnuos  sua volta. O seu dom de mostrar um 
ar inocente era impressionante.
- Houve alguma discusso? - perguntou. - Foi acerca de qu?
- Estvamos aqui a questionar se os golfinhos durante o acto 
da copulao nadam normalmente ou de costas. - Trosky fitou 
Lucrezia com um olhar furioso.
- Seu porco! - disse ela, alegre.
- Afinal, o golfinho e  um mamfero, como o homem!
- E esse fica sempre de costas? - Lucrezia riu-se para Trosky, 
passou por ele baloiando as ancas e dirigiu-se, saltitando, 
para as escadas. - Vou dar um mergulho! - informou, com um ar 
descontrado. - Quem e  que tem de tratar do pequeno-almoo, 
hoje?
- Sou eu! - gritou Trosky. - E vou meter veneno no teu caf!
Ainda conseguiram ouvir o riso dela quando j estava no 
convs. Depois mergulhou na gua. Atirara-se para a gua com 
um salto elegante e agora batia com os punhos no barco, num 
gesto atrevido.
- E vocs querem proibir-me de tocar nesta mulher?! exclamou 
Trosky. - Isso vai contra as leis da natureza! Confessem que 
no e  humano!
- Tenho de ir para o leme - anunciou Losskov. "Ele no est 
completamente errado", pensou. "Mas no pode saber disso. Tudo 
seria completamente diferente se estivssemos aqui para nos 
divertirmos." - Temos de definir exactamente o curso do barco! 
Quando e  que o caf fica pronto?
- Daqui a uma meia hora! - resmungou Trosky. - O senhor deseja 
um ovo estrelado com toucinho?
- Sim, claro. Tu, porm, no tens direito a isso! Era o que 
faltava! - Losskov subiu para o convs, sentou-se no poo e 
calculou a posio exacta do barco com a ajuda
do sextante. Avanavam lentamente. Trosky deixara apenas o 
traquete iado. Na gua, Lucrezia acompanhava o barco com 
fortes braadas. Depois, agarrou-se a uma corda e deixou-se 
puxar pelo barco, rindo-se para Losskov. Emanava uma enorme 
vitalidade.
- A gua est ptima! - exclamou. - Maravilhosa! s vezes at 
penso que em tempos j fui um peixe!
"Quem me dera que te voltasses a transformar num peixe", 
pensou Losskov, mas logo de seguida teve vergonha desse 
pensamento.
- Sobe para o barco - ordenou, num tom de voz severo. - Daqui 
a pouco aumentaremos a velocidade.
Lucrezia riu-se alegremente. Subiu pela corda para o barco, 
aproveitando a mo que Losskov lhe estendia.
- Obrigada, Peer - disse com um ar inocente. Recuou um passo, 
arrancou a parte superior do biquini do corpo e agitou-o no ar 
como se fosse uma bandeira. - Tens uns braos to fortes!
Depois afastou-se, e Losskov seguiu-a com o olhar, franzindo 
as sobrancelhas.

Levaram exactamente quatro dias para chegar s ilhas Canrias. 
O vento estivera a seu favor, e o mar, que o barco trespassara 
com a sua estreita quilha, mantivera-se ligeiramente ondulado. 
Durante esse percurso, o barco provara ser um ptimo corredor, 
mantendo sempre o equilbrio, mesmo quando uma onda maior o 
empurrava de lado.
Trosky acalmara, embora Lucrezia continuasse sempre a 
provoc-lo, deitando-se no tecto da cabina ou sentando-se na 
balaustrada para pescar. Uma vez, entre a Madeira e as ilhas 
Selvagens, um peixe enorme mordera o anzol e ela no 
conseguira domin-lo. O animal lutara desesperadamente contra 
o anzol na sua boca, virara-se, mergulhara na gua, ficara 
parado e depois voltara a mexer-se.
- No h ningum que me ajude? - gritara Lucrezia por fim. - 
Eu no consigo tirar o peixe da gua! Ele vai partir o fio! 
Venham c!
Trosky precipitou-se para perto dela, deu-lhe uma palmada no 
traseiro provocante e pegou na cana de pesca. Soltou mais um 
pouco de fio e viu como o peixe lutava na gua.
-        Olhem s para este peixe! - exclamou Trosky. - e  um 
pequeno tubaro! To novinho!
-        Aqui no existem tubares! - disse Helena. - Estamos no 
oceano Atlntico.
-        Isto e  um pequeno tubaro! No faz mal a ningum! 
Conseguem ver os pontos no seu corpo? Tem de ser um tubaro! 
Ento, vamos a isso, meu pequenino! Luzi, prepara a rede! 
Vamos apanh-lo e met-lo na frigideira!
Foi uma luta que durou quase meia hora. No fim, o pequeno 
tubaro estava to cansado que conseguiram apanh-lo com a 
rede e traz-lo para bordo. O peixe continuava a mexer-se com 
fora, tentando escapar; Trosky apenas se riu, retirou uma 
faca afiada do cinto e espetou-a na nuca do peixe. Helena 
virou a cara e foi-se embora.
-        A senhorita deve estar prestes a vomitar! - exclamou 
Trosky, jubilando. Deitou as entranhas do peixe para o mar e 
pegou nele pela barbatana traseira. Embora j no tivesse as 
entranhas, o corpo liso e brilhante do peixe ainda estremecia. 
A cabea saltou para a frente como se quisesse mord-lo. - e  
preciso ter uns nervos de ao! - gritou Trosky. - Como os de 
um peixe! Vejam s os nervos que ele tem! - Bateu com a cabea 
do peixe na balaustrada. Aps a quinta pancada, o peixe deixou 
finalmente de reagir. - Hoje eu trato do jantar! - anunciou 
Trosky. - H bifes de tubaro com molho de natas! Com temperos 
suaves. Isto vai ser uma verdadeira injeco de protenas! 
Luzi, tem cuidado!
-        Eu no vou ser capaz de comer esse peixe! - proferiu 
Helena quando Trosky se afastara. - Tu viste o que aconteceu, 
Peer? Ele no matou o peixe, ele assassinou-o! Assassinou-o de 
uma forma to cruel! O animal ainda estava vivo quando ele lhe 
cortou o corpo!
-        Se pensares assim, nunca mais poders comer carne de 
peixe - comentou Losskov. - Tu achas que os homens que pescam 
estes peixes verificam a morte de cada um deles com a ajuda de 
um estetoscpio? Mas, apesar de tudo, tens razo: aquilo que o 
Trosky fez no era realmente necessrio.
- Ele agir sempre assim, at mesmo se se tratar de seres 
humanos! - disse ela, baixinho. - s vezes, penso que ele e  
um monstro com traos humanos. Tenho medo que de repente tire 
a mscara e que ns nos vejamos perante um monstro!
- Quando chegarmos a Tenerife, tudo vai mudar. - Losskov mediu 
a velocidade do vento; a pequena ventoinha de metal do 
instrumento girava alegremente ao vento. - Amanh,  hora do 
almoo, estaremos em Santa Cruz e eu expulsarei o Jan do 
barco! Isto realmente no pode continuar assim! Eu vou 
cancelar o projecto.
-        No podes fazer isso, Peer! - Helena olhou para ele com 
um ar perplexo. - Este projecto foi financiado por donativos. 
As empresas vo querer o dinheiro de volta. E imagina s a 
imprensa! Sers motivo de gozo! "Viagem  volta do mundo falha 
devido a um tarado sexual! O que e  que os Viquingues teriam 
feito numa situao destas, senhor Losskov?!" Se desistires, 
ests perdido!
-        Ns e  que estamos perdidos, se continuarmos esta viagem! 
Eu temo coisas terrveis, Helena.
-        O Trosky no e  normal. Eu tambm j pensei nisso.
-        Ele e  um psicopata! Um manaco depressivo! Precisa de 
ser tratado.
-        Ou ento e  um sdico e est a desempenhar este papel 
para nos pr nervosos. Diverte-se vendo as nossas reaces, 
que ele j antes previra. Est sempre  espera que nos 
irritemos, e isso d-lhe prazer. Realmente, no sei que tipo 
de pessoa ele .
-        No deveramos pensar mais nisso - aconselhou Losskov. - 
Em Santa Cruz, a viagem para o Trosky acabou.

No dia seguinte, alcanaram o porto de Santa Cruz. Ficaram 
admirados ao verem que um barco a motor da administrao do 
porto se aproximava a alta velocidade. A sua tripulao era 
constituda por alguns simpticos espanhis que lhes acenavam 
e at iaram uma bandeira alem em honra da equipa de Losskov. 
Na ponte, encontrava-se um elegante oficial com um uniforme e 
bon brancos. Saudou-os  maneira militar, como se 
regressassem de uma misso bem sucedida.
-        H qualquer coisa que no est certa! - disse Losskov 
para Trosky. Tinha um mau pressentimento. Estavam os dois ao 
leme enquanto as duas raparigas, vestidas de fatos de treino 
brancos e sentadas por baixo das velas, respondiam aos acenos 
dos espanhis.  sua frente, erguia-se uma enorme montanha com 
um cume coberto de neve: era o enorme vulco do Teide, a 
montanha mais alta de Espanha, que curiosamente ficava numa 
ilha. A forma desse enorme vulco extinto era inconfundvel e 
Trosky no hesitou em diz-lo.
-         o maior peito de mulher que eu jamais vi! Quanto tempo 
ficaremos aqui? Eu adorava escalar aquela montanha.
-        Ters tempo suficiente para isso - respondeu Losskov. -
        No precisas de te apressar. Mas o que eu gostaria de 
saber agora e  a razo desta simptica recepo?! At parece 
que j estavam  nossa espera.
-        Eu desconfio que sim! - concordou Trosky e cuspiu para a 
gua. - Navegadores solitrios?! Era o que vocs queriam! 
Estes tipos tm-nos sob controlo!
E realmente era verdade.
No molhe, at ao qual foram guiados pelo barco a motor, para 
alm dos dois marinheiros vestidos de branco, prontos para 
apanhar os cabos que lhes atiravam, havia tambm uma banda com 
o trajo tpico das ilhas Canrias. Algumas cmaras de 
televiso focavam o pequeno barco branco e reprteres falavam, 
agitados, para os seus microfones. Pelos fatos que alguns dos 
homens vestiam, podia concluir-se que deviam estar tambm 
presentes alguns vereadores da cidade. Atrs das cordas e 
grades separadoras, encontrava-se uma multido. Um letreiro 
com as palavras: "Bem-vindos a Tenerife!" esvoaava ao vento.
Quando o Helu deslizou para dentro do molhe, a banda comeou a 
tocar.
- No e  possvel! - exclamou Losskov, desiludido. - Eles 
devem estar a confundir-nos com algum!
-        Ns fomos constantemente vigiados. - Trosky mostrou um 
grande sorriso. - Lembras-te dos pequenos avies que nos 
sobrevoaram ainda ondem a sul da ilha da Madeira? Ns nem 
reparmos neles, mas, sem darmos por isso, estvamos a ser 
constantemente vigiados! Quando viram que no atracmos na 
ilha da Madeira, para eles ficou claro que teramos de nos 
abastecer de gua nas Canrias.
- Para quem e  que isso ficou claro?!
A pergunta rapidamente obteve uma resposta. Na primeira fila, 
mesmo em frente dos oficiais de Santa Cruz, um homem acenava 
vibrantemente.
Era Dieter Randler.
- No e  possvel! - exclamou Losskov. - Isto at parece a 
histria da lebre e do ourio! - Olhou para Trosky com um ar 
inquiridor. - Tu j sabias disto?
- No fazia a mnima ideia! Mas, quando vi esta gente toda, 
percebi logo. Vamos ser recebidos como se fssemos Colombo! 
Ele por acaso tambm esteve aqui. Esteve na ilha ao lado, 
chamada La Gomera. Veio c com a inteno de buscar gua, mas 
acabou por ficar dois anos, devido  bela Beatrice, a antiga 
favorita do rei de Espanha, que fora exilada para c! e  to 
simples a histria do mundo! A Amrica teria sido descoberta 
dois anos antes, se Colombo no se tivesse sentido to bem na 
cama dessa fogosa mulher! - Trosky riu-se s gargalhadas. - 
Pode calhar a qualquer um de ns, meu amigo! Essas coisas 
esto sempre a acontecer! Gostaria imenso de saber onde e  que 
ns os dois ficaremos presos por um motivo to agradvel.

A ideia de Losskov de deixar Jan Trosky em Tenerife teve de 
ser posta de parte. Era impossvel expor publicamente as 
querelas entre os membros da equipa e, depois, ter de dizer 
que o projecto falhara devido a problemas abaixo da linha da 
cintura. Seria uma capitulao vergonhosa.
Randler estava orgulhoso com a surpresa que organizara. 
Realizou-se um banquete num dos melhores hotis de Tenerife, 
durante o qual foram proferidos muitos discursos com apertos 
de mo, fotografias e simpticas raparigas com os trajos do 
pas, que distribuiram ramos de flores. Quando por fim 
conseguiram escapar a toda aquela confuso, retiraram-se para 
um canto do bar.
-        Apetece-me dar cabo de ti! - disse Losskov a Randler. - 
Para qu tantas festividades  volta da nossa chegada?
- Tinha de se fazer um investimento destes! Esta tua viagem 
tem de contribuir para dar uns trinta a quarenta mil novos 
leitores ao nosso jornal!
-        Viajar de barco para Tenerife no e  assim to difcil! -
        O que importa e  saber aproveitar ao mximo este 
acontecimento! At agora, j houve alguns acontecimentos que 
pudemos publicar! Tempestades com rajadas de cento e sessenta 
quilmetros no golfo da Biscaia! A luta pela sobrevivncia ao 
longo da costa dos Aores! Um petroleiro que quase abalroa o 
pequeno barco! Vocs so j uns verdadeiros heris!
-        Meu Deus! Mas tudo isso e  mentira!
-        "Mentira" e  uma palavra muito dura no meio jornalstico, 
Peer!
-        Mas nada daquilo que tu escreveste e  verdade! Imagina se 
algum descobrir isso!
Randler bebeu um gole do seu cocktail e, com um ar de 
desprezo, franziu o nariz.
-        Houve mau tempo no golfo de Biscaia ou no? - inquiriu.
- Era suportvel.
- Mas choveu torrencialmente. Ests a ver! - Randler mostrou 
um sorriso vitorioso. - Cruzaram-se com um petroleiro ou no?
-        Sim, duas vezes.
-        Ento, a est! Que mais e  que tu queres?
-        Mas havia no mnimo trs milhas de distncia entre ns e 
eles!
-        A quem e  que interessam esses nmeros?! H um pequeno 
barco e um enorme petroleiro que se cruzam. O que e  que 
acontece se o petroleiro abalroar o barquinho? Ou se o 
barquinho for apanhado pela corrente do monstro? Tudo isso e  
possvel e perfeitamente imaginvel! Alm disso eu s escrevi: 
"Quase que o abalroou!" Um jornalista tem de dominar bem a sua 
lngua, meu amigo!

Afinal Trosky tivera razo. O Helu realmente fora 
constantemente acompanhado e observado a partir do ar. Quando 
decidiram atracar em Santa Cruz para se abastecerem de gua, 
Randler preparara uma festa de recepo. Em Tenerife, uma 
viagem  volta do mundo num barquinho to pequeno era 
considerada uma coisa muito especial, embora a populao 
estivesse habituada s loucuras dos turistas. Alm disso, 
havia duas mulheres bonitas a bordo. Qual era o espanhol que 
deixaria escapar uma ocasio dessas!? Coragem e beleza 
constituam h centenas de anos atributos muito honrados. A 
beleza aliada  coragem faz derreter qualquer espanhol. Era 
provvel que a imprensa espanhola fosse relatar exaustivamente 
aqueles acontecimentos. O correspondente do jornal El Dia 
prometera no mnimo meia pgina de fotografias.
- Isto e  horrvel - comentou Losskov mais tarde, enquanto 
Trosky danava um tango com Lucrezia, e Randler telefonava 
para Hamburgo. - Agora no posso expulsar o Trosky!
-        Acho que no. Isso provocaria um escndalo. - Helena 
pousou a mo no brao dele. - Qual vai ser a nossa prxima 
paragem?
-        As ilhas de Cabo Verde em frente  Mauritnia e ao 
Senegal.
- Ento ser a que ele nos deixar.
- E se o Randler estiver de novo  nossa espera com uma 
multido de pessoas?
- Veremos como isto se desenvolve - disse Helena com calma. - 
Talvez com o tempo as coisas mudem e o Trosky at decida 
desistir voluntariamente.
-        Isso e  pouco provvel... - respondeu Losskov, 
preocupado.

Permaneceram dois dias em Tenerife, e durante esses dois dias 
Trosky manteve-se desaparecido.
Helena, Lucrezia e Losskov visitaram a ilha, foram ver a 
rvore do drago que tinha dois mil anos, percorreram as 
Canadas, uma paisagem estranha e silenciosa de crateras  
volta do Teide, visitaram o Sul da ilha, com as rochas nuas e 
negras, e a costa a norte que parecia um enorme jardim em 
flor. Foram at ao vale de Orotava, onde Humboldt se ajoelhara 
e supostamente exclamara: "Senhor, agradeo-Vos por ter tido a 
oportunidade de ver uma coisa to bela!" Mais tarde, 
sentaram-se na rebentao de Puerto de la Cruz, comeram um 
gelado e por trezentas pesetas deixaram-se retratar por um 
pintor de rua. Acharam esse lugar maravilhoso. Era a ilha dos 
bem-aventurados, como j lhe chamavam na Antiguidade.
Dois dias depois, Trosky voltou a aparecer. Restabelecido, 
forte e rijo como sempre.
-        Diabos, aqui em Santa Cruz h um bordel maravilhoso! - 
exclamou, entusiasmado. - E sabem como e  que lhe chamam? Casa 
de Pudre! No se riam, que e  mesmo verdade! Eu perguntei a um 
taxista, dado que eles costumam saber tudo. Ele compreendeu-me 
logo e disse: "Ah, senor, Casa de Pudre? Eu mostro-lhe!" 
Sinto-me bem como mil porcas! No foi o Goethe quem escreveu 
isso? Se no foi assim, ento foi parecido... Quando e  que 
prosseguimos a nossa viagem?
No fazia sentido dizer-lhe que seria amanh ou depois... mas 
sem ele! Teriam de lhe dizer: "Tu ficas aqui, em Tenerife. 
Podes fazer o que quiseres: apanhar sol, escalar o Teide, 
correr atrs das belas mulheres de Puerto de la Cruz, j que 
todas elas esto to ansiosas por viver aventuras e so to 
agradecidas, inspiradas pelos ventos do mar, ricos em iodo. 
Ou, ento, podes ficar com as prostitutas, na tua querida Casa 
de Pudre. Alis, podes fazer tudo o que quiseres. Mas para o 
nosso barco j no voltas!"
Ele nunca compreenderia; pensaria que estavam a brincar, 
correria para o barco, sentar-se-ia no poo e gritaria: "Seus 
estpidos, eu estou preso a este poo! Tentem arrancar-me 
daqui!"
E tudo isso aconteceria em frente das outras pessoas, que 
deste modo teriam encontrado um heri solitrio!
Losskov olhou para Helena, desesperado, encolheu os ombros e 
foi-se embora. Trosky viu-o afastar-se.
-        O que e  que ele tem? - perguntou, admirado. - No gosta 
da maneira como repartimos o trabalho? Afinal sou eu quem 
trabalha e ele colhe os louros! No me digas que ele est 
insatisfeito com esta situao! No era isto que ele queria? O 
nosso grande viquingue!
-        Partimos amanh - anunciou Helena, com uma voz fria, como 
era hbito. - Ainda h algumas latas de conserva por comprar. 
Alm disso, teremos uma novidade a bordo!
-        No! - Trosky ergueu os braos num gesto dramtico. - 
Espero que no seja outra besta como o Mister Plump! Isso eu 
no aguentaria!
-        Comprei um gira-discos para mim - informou Helena. - 
Funciona a pilhas. J comprei trinta discos para ouvirmos.
-        Acho uma ptima ideia! Uma pequena dana de vez em quando 
certamente ajudar a descontrair-nos. Um passo  direita, um 
passo  esquerda e pelo meio...
- Comprei discos de Beethoven, Wagner, Tchaikovsky, Schubert e 
Grieg.
- No! - gritou Trosky. - No me faas isso, Helena! Msica 
clssica a caminho da Terra do Fogo! Que suplcio!
Helena virou-lhe as costas e foi pelo molhe em direco  
cidade. Trosky sentou-se num bloco de beto e ps-se a 
observar um navio de mercadorias sovitico que mais parecia um 
barco de observao e informao, equipado com a mais alta 
tecnologia. Os marinheiros russos destacavam-se pelo seu bom 
comportamento quando estavam em terra. Usavam uniformes 
brancos e eram discretos e educados. Nunca nenhum deles andava 
sozinho. Mantinham-se sempre em grupo. Podia ter-se a certeza 
de que nunca se envolveriam em pancadarias durante a noite, 
como era o hbito dos marinheiros americanos e canadianos, 
isto para no falar da tripulao dos petroleiros.
Lucrezia saiu do barco. Vestia um vestido curto e justo. Era 
um perigo andar assim pelas ruas.
-        O que e  que andas aqui a fazer? - perguntou Trosky.
-        E tu? Onde e  que andaste este tempo todo?
-        Se eu te contar onde estive, aposto que vais corar, 
querida! Ou ento ficas irrequieta.
- Sem comentrios! - Lucrezia fez um gesto de mo 
depreciativo. - Ests informado de que partimos amanh?
-        Sim. E onde e  que vais agora?
- Ele chama-se Francisco Hernandez Marquez. e  um nome bonito, 
no achas?
-        Se a resistncia dele for to grande como o seu nome, 
ento ests de parabns!
-Tu s nojento!
Lucrezia quis ir-se embora, mas Trosky agarrou-a pela bainha 
do vestido.
-        Um momento, querida! Eu tenho s mais uma pergunta: 
passa-se alguma coisa entre o Peer e a Helena?
-        Porqu?
-        A moralidade deles assusta-me. Afinal, a Helena no pode 
ter gelo nas veias!
-        O que e  que eu tenho a ver com isso?
-        Onde e  que eles dormiram durante estas duas ltimas 
noites?
-        O Peter ficou a bordo e a Helena no Hotel Mencey.
-        Sozinha?
-        Claro que sim!
-        Isso e  assustador! Eu estava  espera que aqui, em 
Tenerife, finalmente saltassem um para cima do outro! - Virou 
as costas a Lucrezia e murmurou: - Est bem, querida. Ento, 
vai-te embora! Diverte-te, mas no exageres.
Lucrezia conteve uma resposta e depois foi at ao molhe em 
direco  cidade. No caminho, cruzou-se com um grupo de 
marinheiros soviticos e ficou admirada por nenhum deles 
interpel-la ou, pelo menos, assobiar. Porm, os marinheiros 
vermelhos eram treinados para terem um comportamento exemplar 
em qualquer situao.

Na manh seguinte, Trosky estava a limpar o convs quando 
Losskov acordou. O barulho da esfregona acordara-o.
Trosky tambm dormira a bordo, como Losskov lhe ordenara. As 
duas raparigas ainda estavam em Santa Cruz. Helena ficara no 
Hotel Mencey e Lucrezia estava algures com o seu Francisco 
Hernandez Marquez. Era cedo, de madrugada, e o crepsculo 
cobria o mar e a ilha. Nessa altura, ocorria a transio da 
noite para o dia, durante a qual a Natureza parece estar no 
momento da sua criao.
-        Porque e  que ests a limpar o convs a meio da noite? - 
perguntou Losskov.
-        Suponho que na altura da partida haver outra festa! 
Ontem encontrei o Randler. Ele j inventou um novo ttulo para 
um artigo no jornal: "A partida para o desconhecido!" Eu 
disse-lhe logo que ele era um idiota! Achas que fiz bem?
-        Fizeste muito bem! - Losskov riu-se. s vezes achava 
Trosky realmente simptico. - Deveramos partir s escondidas.
-        Se as raparigas chegarem a tempo...
-        Elas tm ordens para estarem aqui s sete horas da manh! 
Nessa altura, poderemos iar as velas e partir! O Randler 
queria saber qual seria a nossa prxima paragem. Como ele me 
perguntou a mim, calculei que no lhe tinhas dito.
- E o que e  que lhe respondeste?
-        Disse-lhe que seria em Barbados!
-        E ele acreditou em ti?
-        No, mas pelo menos parou de fazer perguntas.
-        Agora at me apetecia louvar-te.
-        Nada de sentimentalismos, chefe! - Trosky apoiou-se no 
cabo da esfregona e olhou para Losskov com um ar inquiridor. - 
Tu ainda ests com essa ideia de me deixares aqui?
Losskov tentou permanecer indiferente, mas ficou alerta.
-        Quem e  que te disse tal coisa? - perguntou.
-Fui eu que li.
-Onde?
- No teu livro de bordo! Encontrei-o ontem numa gaveta e 
fiquei curioso.
- Isso e  mentira! - exclamou Losskov, srio. - O meu dirio 
est sempre dentro de uma caixa fechada  chave. S eu e  que 
tenho a chave! Tu foraste a fechadura?
- A fechadura estava aberta! - respondeu Trosky.
Lucrezia tambm foi logo mudar de roupa e voltou para
o convs. Quem olhasse para ela no podia adivinhar que h 
noites que no dormia. Ria-se e estava cheia de energia. 
Trosky deu uma cotovelada a Losskov.
- J viste?! - murmurou, impressionado.
Quando partiram com o traquete, a genoa II e a vela de balo, 
o cu ainda estava plido, apenas com uma tira 
vermelho-violeta a leste. Havia uma coroa de nuvens  volta da 
enorme montanha. Avanavam rapidamente em direco ao mar. As 
raparigas encontravam-se por baixo das velas; Losskov, por seu 
lado, sentara-se ao leme, e Trosky estava a enrolar os cabos.
- Como eles vo ficar surpreendidos! - exclamou. - Quando 
chegarem ao porto com a banda de msica, ns teremos 
desaparecido! Qual e  o rumo que vamos tomar?
- O mais directo! Sempre pela costa sul e depois pelo mar 
aberto at s ilhas de Cabo Verde. A prxima paragem ser a 
ilha de Santiago. Passaremos a barreira de Cabo Verde. Nessa 
zona, pode ocorrer um vento muito forte!
O barco avanava bem. O Sol por fim nasceu e fez brilhar a 
neve no Teide como se a montanha estivesse coberta de cristais 
e se quisesse despedir deles em nome da ilha na qual se pusera 
a ltima hiptese de interromper aquela volta ao mundo.
Aquilo que os esperava agora podia, segundo todas as 
experincias colhidas at aquela data, ultrapassar a 
capacidade de resistncia do Homem.

 parte duas tempestades com as quais tiveram de se confrontar 
num espao de sete dias, a viagem correu bem, sem contratempos 
ou pontos altos. Porm, e devido a essas tempestades, viram-se 
obrigados a alterar o rumo e a dar uma grande volta para 
chegarem s ilhas cabo-verdianas.
Isso teve uma vantagem: Dieter Randler perdeu-os de vista.
No prprio dia em que deixaram o porto de Tenerife s 
escondidas, surgiu um avio no cu que os acompanhou durante 
algum tempo.
- Eu no tenho culpa de te teres esquecido de a fechar! Mas 
memorizei bem aquilo que escreveste. Na pgina sobre Tenerife 
pode-se ler: "Primeiro dia. A recepo organizada pelo Randler 
impossibilita-me de deixar o Trosky em Tenerife!" So 
exactamente estas as palavras que utilizaste! Deixar-me para 
trs! Tu s um hipcrita, Peter!
-        Claro que antes que isso acontecesse, teramos de 
discutir o assunto.
-        Claro que sim! E teriam feito uma votao democrtica: 
"Levante a mo quem for a favor! H algum que seja contra? 
No, ou seja, a proposta foi aceite. Por isso desaparece, Jan 
Trosky!" - Riu-se e o seu riso tinha um tom ameaador. - At 
vos vejo  minha frente! Mas fica a saber uma coisa, Peter: eu 
acompanhar-vos-ei at ao fim. Aceitei uma misso cientfica. 
Ns at fizemos um contrato. Desta j no te safas! Eu ficar 
em Tenerife? Ser que vocs ainda no me conhecem?!
-        No deverias ter feito essa pergunta! - proferiu Losskov 
muito srio. - A nica resposta de que me lembro : quem me 
dera que nunca te tivssemos conhecido!
-        Isso tambm dizia o avozinho  avozinha no dia do seu 
quinquagsimo aniversrio de casamento, mas nessa altura j 
era tarde! Ns os trs unimo-nos como se se tratasse de um 
matrimnio, e s espero que no seja at que a morte nos 
separe...
s sete horas em ponto, Helena apareceu num txi. O motorista 
carregou uma caixa de papelo na qual se encontravam o 
gira-discos e os discos. Helena saudou Losskov e Trosky com um 
beijo, foi logo mudar de roupa e pouco depois apareceu no 
convs com um fato de treino.
Lucrezia chegou vinte minutos mais tarde. Um enorme carro 
branco parou no molhe, Luzi desceu, beijou um homem invisvel 
atravs do vidro do carro e depois acenou-lhe, enquanto o 
carro se afastava. Tudo parecia to simples que Trosky disse, 
admirado:
-        Bravo! Afinal uma pessoa tambm no chora quando acaba de 
beber uma garrafa!
-        L est ele outra vez! - exclamou Trosky, furioso. - Ser 
que ele nos quer acompanhar durante toda a viagem  volta do 
mundo? Imaginem s a fortuna que isso custa!... Quem me dera 
ter todo esse dinheiro!
-        Quando iniciarmos a travessia do Atlntico, a perseguio 
acabar - disse Losskov. - A partir da, s nos procuraro se 
no chegarmos ao Brasil.
-        Onde e  que nos podem procurar? Tu transmites a nossa 
posio diariamente?
-        No, no a transmito nunca!
-        Isso quer dizer que ns estamos desaparecidos para o 
resto do mundo?
-        Mais ou menos. Podemos decidir quando e  que queremos 
voltar a comunicar. Basta uma transmisso de rdio e voltamos 
a fazer parte do mundo dos vivos. - Losskov ergueu o olhar 
para o pequeno avio que agora regressava, mexendo as asas. 
Era a saudao dos aviadores. Algum contara a Losskov que, na 
guerra, era habitual os avies abanarem as asas ao voltarem de 
territrios inimigos, quando tinham atingido um avio. - Mas 
eu apenas pretendo utilizar o rdio numa situao de 
emergncia.
-        E a que e  que tu chamas uma situao de emergncia?
-        Por exemplo, o caso de tu ficares maluco...
-        Nesse caso, j no haver salvao para ningum! - 
reflectiu Trosky com um ar taciturno. - Se eu ficar maluco, 
viro as vossas cabeas ao contrrio!
Dieter Randler voltara a perder de vista o pequeno barco. 
Porm, j elaborara um plano: apanharia o avio de Tenerife 
para Marrocos, dali para o Sara espanhol, depois para a 
Mauritnia e por fim para o Senegal, onde voaria a partir de 
Dacar para as ilhas de Cabo Verde. Nessas ilhas - disso estava 
certo! -, teria a ltima oportunidade de voltar a ver Losskov 
e a sua equipa, antes de estes desaparecerem definitivamente 
na imensido do oceano.
Randler telefonou para Hamburgo: "Eles desapareceram! Estamos 
perante um mistrio. Eu sei que se defrontaram com duas 
tempestades, mas isso no basta para que um barco como o Helu 
se afunde! Afinal ns testmos esse barco.
A nica certeza que temos e  que eles vo para a ilha do Sal. 
Eu l estarei  espera deles no aeroporto de Pedra Lume!"
Porm, Losskov no foi para a ilha do Sal. No se aproximou 
das ilhas cabo-verdianas do lado da costa africana, mas sim do 
oceano Atlntico, atracando na ilha de Santiago, perto de uma 
pequena aldeia de pescadores chamada Tarrafal. Chegaram trs 
dias depois da data prevista, mas a culpa no fora do mar, mas 
sim de Trosky que atrapalhara os planos.
Tudo comeara quando ele tomou o lugar de Losskov ao leme.
-        Eu exijo uma resposta clara: porque e  que tu me odeias? 
- disse.
Losskov fitou-o com um ar perplexo. O barco ia a direito e, 
devido  luz, parecia estar a trespassar um mar de sangue. O 
Sol punha-se numa imensido de cores como Losskov raramente 
vira. Parecia uma bola vermelha que fazia reluzir o firmamento 
e o oceano mais uma ltima vez, como se fossem vidros 
graduados com mil facetas, antes de o mar e o cu se unirem no 
horizonte. Essa transformao mgica da Natureza durava apenas 
alguns minutos. Depois a luz e as cores desapareceriam.
-        Cala-te! - ordenou Losskov. - Olha antes para este 
maravilhoso pr do Sol.
- O pr do Sol -me indiferente! - Trosky puxou o bon para a 
testa. - Tu odeias-me!
-        No me digas que vais recomear!
- Eu nunca acabei. - Losskov fez um gesto depreciativo, mas 
Trosky insistiu. - Tu odeias-me por seres alemo e eu 
checoslovaco!
-        Nunca ouvi maior disparate!
-        Eu sei que isso e  verdade. Antes de me teres includo na 
tua equipa, andaste a fazer investigaes acerca da minha 
pessoa.
-        Claro que sim!
-        Ah, isso quer dizer que confessas que tenho razo?!
-         perfeitamente normal fazer-se uma pequena investigao. 
Eu recebo a carta de um homem que quer participar nesta viagem 
e que me parece sensato e naturalmente penso: "Este poderia 
ser um bom companheiro de viagem! Mas ser que isso basta? 
Quem ser esse tal Jan Trosky?" Queria incluir-te numa equipa 
onde reine a confiana. Por isso, quis saber se podia confiar 
em ti. Afinal, tem de se saber mais ou menos de que tipo de 
pessoa se trata...
-        E os resultados dessa tua investigao fizeram-te logo 
decidir: "Este vai comigo! A meio da viagem, quando estivermos 
em pleno oceano, dou cabo dele e ningum dar por nada. Assim, 
vingo-me dele."
Losskov olhou para Trosky sem compreender.
-        Vingar-me de qu?
- De Maio de mil novecentos e quarenta e cinco!
- Mas nessa altura tu nem sequer tinhas nascido!
- Tu sabes exactamente quando eu nasci. No dia vinte e trs de 
Junho! E tu sabes tambm que, em Maio de mil novecentos e 
quarenta e cinco, o meu pai fazia parte da milcia popular que 
se revoltou contra as foras ocupantes e que liquidava os 
alemes, onde quer que os encontrasse. Sabes bem que o meu pai 
era um daqueles patriotas que perseguiam os soldados alemes 
como se fossem coelhos para caar.
-        Eu no sabia de nada disso! - respondeu Losskov. - E, 
agora, cala a boca!
-        No, eu ainda mal comecei!
- Por amor de Deus, no vais remexer o passado aqui, em pleno 
oceano Atlntico! Isso foi h trinta anos! Naquela altura, ns 
nem sequer tnhamos nascido! Fazemos parte da gerao que j 
nem consegue compreender o que se passou nesses tempos! Para 
qu ento falar nisso?
- Naquela altura o meu pai vivia fora de Praga num dos 
subrbios - continuou Trosky, decidido. - A minha me estava 
grvida de mim e h meses que o meu pai a mantinha escondida 
dos soldados alemes. Ela era uma mulher muito bonita. Durante 
a retirada, os alemes invadiram a nossa casa por quatro 
vezes. O meu pai servia-lhes po e cerveja e depois dava-lhes 
um tiro. O vizinho ajudava-o. Era um homem de oitenta e quatro 
anos que s conseguia andar com a ajuda de uma bengala, mas 
que ainda era capaz de disparar o seu revlver. A minha me 
ficava escondida no sto, aterrorizada e, cada vez que ouvia 
um tiro, protegia a barriga com as mos. Ao fim de uma semana, 
tnhamos catorze alemes mortos na cave. - Trosky olhou para 
Losskov com um ar irrequieto. - Tu sabias de tudo isto quando 
me incluiste nesta equipa! Quando soubeste da histria de 
Praga pensaste: "Espera, Jan Trosky! Vais pagar por isso! O 
castigo colectivo sempre foi uma tradio alem! Espera at 
ns estarmos sozinhos! Pensavas que eu no ficaria a saber 
desta histria?"
- Vai-te deitar! - ordenou Losskov, devagar. - Eu no discuto 
assuntos to estpidos. Ests a falar dos nossos pais! Eu nem 
sei o que o meu pai fazia naqueles tempos!
- Ele era oficial?
-Sim.
- E tu nunca lhe perguntaste?
-        s vezes, perguntava-lhe. Mas ele s respondia: vamos 
esquecer isso!
-        Essa e  a maneira mais fcil: simplesmente esquecer o 
passado. O meu pai, porm, nunca conseguiu esquecer os catorze 
alemes mortos! Tornou-se um verdadeiro heri e at foi 
condecorado. Mas nunca mais conseguiu rir-se a srio. "Eu 
fi-lo pela tua me", dizia-me. "Tinha medo que lhe acontecesse 
alguma coisa. S por isso! Eu tinha medo! Tu sabes o que e  
ter medo? A tua gerao nunca saber o que e  ter medo a 
srio, e por isso nunca nos compreender!" Mais tarde, eu 
pensei muito naquilo que ele me disse, sobretudo durante estas 
ltimas semanas, quando conclu que tu me odeias! Mas eu no 
tenho medo de ti!
-        Tu ests completamente doido! - exclamou Losskov. 
Sentou-se ao lado do leme, olhou para a bssola e verificou o 
rumo do barco. O mar cor de fogo estava a empalidecer, o Sol 
j se pusera e a gua brilhava em tons violetas enquanto o cu 
se repartia em listas cor de laranja, Sentia-se no ar um 
cheiro a carne assada, vindo da cozinha. Helena preparara um 
lombinho de porco, dado que era domingo. - Lembra-te do bom 
jantar que te espera, Jan, e pra de dizer disparates!
Trosky murmurou algo incompreensvel, passou por Losskov e 
foi-se embora. Pouco depois, Helena apareceu no convs, 
afastando o cabelo suado da testa.
-        O que e  que ele tem? - perguntou. - Foi at ao forno, 
olhou para a carne, cheirou-a e gritou: "Comam essa porcaria 
sozinhos!" e depois foi para o seu camarote!
-        Est num daqueles dias difceis. Desta vez, por razes 
polticas.
-        Razes polticas?!
-        Decidiu atribuir-me o papel de alemo mauzo com um 
passado insupervel.
-        Ele lembra-se de cada coisa! Qualquer dia ainda diz que 
s o filho do Frankenstein!
-        Tudo se resolver! - Losskov inclinou-se para a frente, 
deu um beijo a Helena e s a e  que ouviu a msica vinda do 
camarote. - O que e  isto?
-         a Pastoral de Beethoven. Segundo andamento.
De repente, ouviram algo por baixo dos seus ps. O barulho 
vinha do camarote de Trosky. Estava a bater com um objecto 
contra o tecto.
-        Isso e  por causa do Beethoven - disse Helena, 
calmamente. - O prximo disco ser para ele. e  uma polca da 
Bomia.
Contudo, no chegaram a ouvi-la. Trosky subiu as escadas a 
correr, usando apenas um pequeno calo de banho. O seu corpo 
estava coberto de uma fina e brilhante camada de suor, e o seu 
olhar tinha algo de inconstante, irrequieto, instvel, louco.
- Sabem o que e  ter prazer em matar?! - gritou mesmo antes de 
Helena poder dizer algo. - At hoje eu no fazia ideia! Mas 
agora sei o que e  sentir a saliva nos cantos da boca e ter 
vontade de destruir! e  isso que eu sinto neste momento! Vou 
dar cabo daquele horrvel gira-discos barulhento! Vou matar o 
Beethoven, o Chopin, o Tchaikovsky, o Wagner e o Schubert! De 
uma s vez! E quando finalmente tivermos silncio neste barco, 
chorarei de alegria! - Cerrou os punhos e estendeu-os em 
direco a Helena. - Vou destruir esse gira-discos! Vou 
desfaz-lo at ao ltimo parafuso!
Virou-se bruscamente e desceu as escadas.
-        Vai atrs dele! - exclamou Losskov. - Olha que ele 
concretiza as suas ameaas!
-        Ento, eu destruirei a estao climatolgica dele! - 
respondeu Helena, calmamente. Losskov fitou-a, admirado.
-        Vocs ficaram doidos?! Qualquer dia matam-se todos uns 
aos outros!
De repente, ouviu-se um barulho vindo de baixo, um praguejar e 
depois berros misturados com um ladrar forte e agressivo de 
Mister Plump. Trosky voltou para o convs e mostrou a sua mo 
esquerda a Helena.
-        Ele mordeu-me! - gritou. - Aquele maldito co mordeu-me!
-        Meu Deus! - exclamou Helena e juntou as mos. - e  melhor 
eu ir ver como ele est. O pobre co pode morrer de 
septicemia!
-        O pobre co em breve vai ser cortado ao meio! Ele 
mordeu-me!
-        Estava apenas a defender o meu gira-discos.
-        Ele odeia-me!
-        Realmente trata-se de um co extremamente inteligente e 
sensvel.
-        Vocs odeiam-me! - exclamou Trosky, aproximando-se de 
Losskov. - Eis a prova! S por eu dizer aquilo que penso e 
sinto e por no ser um hipcrita nojento como vocs, esto 
ansiosos para que eu seja devorado por um tubaro!
-        Nesta zona, os tubares so muito raros - comentou Helena 
com aquela sua maneira fria e ao mesmo tempo excitante de 
falar. - Seria um grande acaso um tubaro cheirar-te! - E 
depois, virando-se para Losskov, perguntou: - Como e  que , 
Peter? Eu no sei muito acerca de tubares. Eles tambm comem 
escumalha?
- Helena! - exclamou Losskov, num tom repreensivo. Depois, 
engoliu em seco. No fazia sentido continuarem a provocar 
Trosky.
-        Ns nunca deveramos ter-nos conhecido! - disse Trosky em 
voz baixa e olhou para a sua mo esquerda. Mister Plump no o 
mordera com muita fora, apenas pegara na sua mo. No havia 
marcas e nem sequer estava a sangrar. Mesmo assim, Trosky agia 
como se estivesse gravemente ferido. - Que diabo e  que te deu 
naquela altura para teres de escolher exactamente ns trs?! 
Essa mulher arrogante do Norte e a tarada da italiana...
- ... e esse teimoso da Moldvia, cuja clera quase o sufoca - 
acrescentou Helena, sem qualquer sinal de ironia. Trosky 
encolheu os ombros, virou-se e foi-se embora.
Meia hora depois, parecia outra pessoa. Saiu do seu camarote, 
sentou-se  mesa com um sorriso tmido e at suportou o 
gira-discos que tocava uma valsa de Viena. Mister Plump, que 
estava sentado ao lado de Helena, olhou para ele, zangado, e 
mostrou-lhe os dentes.
-        Ainda resta um pouco de sopa para um pobre maluco? - 
perguntou.
Como nunca se podia saber como e  que ele iria reagir, no lhe 
responderam, limitando-se a dar-lhe um prato com carne assada 
e batatas, que tinham sido mantidas quentes dentro do molho. 
Trosky comeu silenciosamente e bebeu uma lata de cerveja.
- Agradeo humildemente o po de caridade que me ofereceram! - 
proferiu.
Losskov ignorou aquela frase. Foi para o convs e ocupou-se do 
leme. Lucrezia, que at agora estivera sentada no banco 
almofadado, com as pernas nuas encolhidas, comeou a folhear 
uma revista americana que comprara em Santa Cruz e que 
continha histrias erticas ilustradas com desenhos 
extremamente libertinos. Helena encheu a tina de gua para 
lavar a loua.
-        Em Santiago, deixar-vos-ei! - declarou Trosky. - Podem ir 
sozinhos para a Terra do Fogo. Tudo isto foi um grande erro! 
No vamos aguentar esta viagem juntos. De que serve um barco 
que no se afunda, quando as pessoas que se encontram nele se 
odeiam?
Olhou para Helena e Lucrezia  espera que reagissem, mas elas 
ficaram quietas.
-        Ns irritamo-nos uns com os outros! - prosseguiu Trosky, 
um pouco mais alto. - E pensar que passou apenas to pouco 
tempo desde a nossa partida e que ainda temos tantos meses 
pela frente! Isto e  impossvel! e  impensvel! Ainda bem que 
ainda estamos a tempo de salvar a situao!
Voltou a esperar uma reaco delas. Contudo, nem Lucrezia nem 
Helena parecia quererem conversar com ele. Trosky amuou, ps o 
gorro na cabea e saiu do salo.
-        Parvas! - resmungou, mas nem assim conseguiu suscitar uma 
reaco de Helena.
No poo, Losskov estava sentado no banco de plstico que 
formava um meio crculo. Amarrara o leme e rizara todas as 
velas excepto o traquete. O barco deslizava suavemente pelo 
mar calmo. Era uma noite clara e quente. A lua minguante 
parecia estar deitada de costas, o que fascinava qualquer 
pessoa que nunca tivesse estado no Sul. Trosky sentou-se em 
frente de Losskov e, com os braos abertos, recostou-se, 
contra a balaustrada. Inclinou a cabea para trs e olhou para 
o cu negro.
-        Eu sempre perguntei a mim prprio porque e  que os 
grandes navegadores normalmente tambm eram piratas - 
declarou, depois de um longo silncio. - O Francis Drake, por 
exemplo, a quem at foi concedido um ttulo de nobreza pela 
rainha de Inglaterra. Ou, ento, os grandes heris, os teus 
dolos, como por exemplo, Vasco da Gama, Magalhes, Cook, John 
Cabot, Pedro Alvares Cabral, Almeida, Da Cunha, Queiroz e os 
outros. Eles tambm no navegavam pelos mares com muita 
meiguice. Quem e  que chegou primeiro  Austrlia? O pirata 
ingls William Dampier. E como e  que era aquela histria do 
famoso capito Bligh e do Bounty? No vale a pena tentarmos 
idealizar as coisas! Onde quer que estes grandes senhores 
aparecessem, os indgenas sofriam. Os navegadores levavam as 
mulheres estranhas para a cama, recolhiam o ouro e os 
diamantes e em troca deixavam para trs a Bblia e a cruz! E, 
se um comandante no permitisse isso, se no desse um pouco de 
divertimento aos seus homens, corria o risco de ser enforcado! 
Porque e  que as tripulaes dos barcos se amotinavam? Porque 
e  que Colombo teve de recorrer ao truque do ovo que fica em 
p? Para manter os seus homens calmos e evitar que ficassem 
doidos. Durante vrias e contnuas semanas eles s viam o mar, 
ouviam o vento e sentiam as calmarias, a gua podre, o po 
duro, a carne salgada, o peixe ou a farinha bichosa. E no 
havia uma nica mulher a bordo! Isso era pior do que todos os 
monstros do mar verdadeiros ou imaginrios! O ser humano no 
suporta a monotonia!
-        Mas eles suportavam-na! - contraps Losskov, calmo. - 
Descobriram as costas africanas, chegaram  ndia,  
Austrlia, aos mares do Sul, percorreram a costa 
sul-americana, foram  ndia e ao Ceilo e conseguiram ir at 
aos mares antrcticos. Apesar de todas as dificuldades! E foi 
exactamente isso que os transformou em heris! O facto de 
terem uma enorme capacidade para aguentarem tudo isso!
- E pelo meio matavam e violavam?! - perguntou Trosky.
Losskov respondeu-lhe em tom de troa.
- Mas afinal o que e  que tu queres? Achas que devamos 
assaltar uns petroleiros ou uns barcos de mercadorias para tu 
sentires o tal esprito de navegador antes de chegarmos  
Terra do Fogo?
-        Eu apenas estou a tentar provar, com a ajuda da Histria, 
que no sou nenhum monstro! Antigamente era natural algum 
libertar-se das agresses acumuladas. Tu e  que ests a exigir 
que ns nos comportemos como anjos na terra!
- Isso e  uma desculpa?
-        Eu no preciso de desculpas! - Trosky respirou fundo. - 
Apenas queria que tu me compreendesses!
-        Acho que isso vai ser impossvel. Tu consideras todas as 
pessoas  tua volta teus inimigos. - Losskov apontou para a 
gua. - E no entanto ns s temos um nico inimigo: o mar!
-        Eu consigo entender-me com o mar! - retorquiu Trosky.
-        Mas contigo prprio, no!
-        Em Santiago, quero trazer para o barco algo que se possa 
destruir - declarou Trosky.
Losskov fitou-o com um ar inquiridor.
-        Mas que ideia! Em que e  que ests a pensar exactamente?!
-        No sei muito bem! Por enquanto ainda no me lembrei de 
nada. Mas h-de surgir uma ideia. Eu li algures que
antigamente os marinheiros levavam sacos com palha para os 
barcos e que atiravam facas contra eles durante a viagem. E o 
que e  que fazem hoje em dia nas cidades flutuantes, nos 
porta-avies? Imagina que s no porta-avies Nimitz vivem 
cinco mil homens! Qual e  que achas que e  a principal 
ocupao dos homens que passam vrios meses juntos num barco 
?O desporto! Eles libertam as tenses atravs do desporto! E 
nos paquetes de luxo? Para que e  que pensas que existem os 
jantares, os bailes, as noites de mscaras, os sales de 
jogos, os cinemas, os teatros, as palestras e as danas? 
Apenas para evitar que o tdio d cabo dos passageiros! 
Afinal, seria isso que aconteceria se durante toda a viagem os 
passageiros se confrontassem apenas com a Natureza! O cu e o 
mar, o sol e o vento... Isso e  para os poetas! Uma pessoa 
normal no suportaria uma situao dessas! E tu queres que, ao 
fim destes longos meses no mar, ns deixemos este barco no 
mesmo estado mental com o qual inicimos a viagem?! Nesse 
caso, eu teria avisado Roma que algures perto de Huwa Siwa h 
quatro santos no mar
- Onde e  que queres chegar, Jan? - perguntou Losskov. - 
Queres ficar em Santiago?
- Isso seria um triunfo para ti, no seria?
-        Seria o melhor para todos ns.
-        E tu prosseguirias a viagem com as duas raparigas?
-Sim.
- Tu s ainda mais louco do que eu!
-        Eu at me atreveria a fazer esta viagem sozinho com a 
Helena.
-        Isso seria igual a um lento suicdio.
-        Julgo que esse e  um problema s meu.
-        Realmente acho que os heris da insensatez, como tu, 
deveriam ser sacrificados! Eu sei o que tu pretendes. Durante 
esta viagem, queres testar at onde vai a resistncia do ser 
humano! Eu posso dizer-te o resultado agora, j: dura at te 
partirem a cabea!
Desceu as escadas para a cabina, deitou-se no seu camarote e 
colocou algodo nos ouvidos, para no ouvir o gira-discos de 
Helena. Depois de ter batido com a porta do seu camarote, 
Helena desligara a msica, mas isso Trosky j no notou, 
devido ao algodo nos ouvidos.
Quatro horas mais tarde, pontualmente como era hbito, subiu 
para o convs para tomar a vez de Losskov. Embora estivessem 
longe do caminho martimo mais movimentado, tinham decidido 
no deixar o barco andar  deriva durante a noite.
- Eu acho que a Helena est a chorar! - comunicou Trosky.
- Porqu? - Losskov olhou para o mar. - A Helena a chorar? 
Porqu?
- Ela est a dormir com aquele horrvel co ao seu lado. Mas o 
seu rosto estava hmido.
-        Por tua causa! - disse Losskov.
-        A est! Porque e  que eu sou to idiota e te conto isto? 
Deveria ter imaginado que tu irias reagir assim. Eu sou sempre 
o culpado de tudo!
-        Se no fosses tu, ela no teria razo para chorar.
- Ser que ela tem medo? A Helena e  uma mulher inteligente. 
Ela sabe que Santiago ser a ltima paragem antes da imensa 
solido, e que ter de viver neste inferno at chegarmos ao 
Brasil.
-        Eu j disse que, se quiserem, podem todos desistir desta 
viagem! - protestou Losskov em voz baixa. - Todos! Eu consigo 
fazer isto sozinho! Talvez seja at melhor e mais seguro 
assim. Quando sentirem o cho por baixo dos vossos ps, 
beijem-no e no saiam mais dele! - exclamou, furioso, e foi-se 
embora.
Trosky esperou que ele tivesse desaparecido, iou a genoa II 
para alm do traquete, alterou ligeiramente o rumo do barco 
para sudeste e instalou-se no banco.
"Em Santiago comprarei um jogo de xadrez", pensou. "Ou talvez 
seja melhor comprar um arco, uma flecha e um alvo. e  claro 
que eu continuarei esta viagem com eles. O Peter no pode ser 
deixado sozinho. E eu no quero que me chamem cobarde! Isso 
seria insuportvel."
Enquanto Dieter Randler, que agora j se encontrava no 
aeroporto da ilha do Sal, sobrevoava vrias vezes por dia o 
mar com um pequeno avio de desporto  procura de Peter, a 
equipa entrou pelo lado norte no porto de Tarrafal da ilha de 
Santiago.
Era uma manh agradvel. Encontravam-se todos no convs, 
navegavam a todo o pano, dado que o vento era fraco, e olhavam 
para o ltimo pedao de terra que pisariam antes de enfrentar 
a imensa solido do mar. Aquilo que viam no era muito 
animador: a ilha parecia pobre, e a paisagem, queimada pelo 
sol, era dominada por tons castanhos e amarelados, com alguns 
montes, e era rida devido ao clima. Tratava-se de um pequeno 
pedao de terra, no meio da imensido do mar. Em tempos, 
aquela ilha tivera uma vegetao rica, mas hoje estava 
reduzida a uma regio ressequida e pobre. To pobre que no 
conseguia subsistir sozinha, mas, ao mesmo tempo, importante 
de mais para ser ignorada, devido  sua funo de sentinela 
entre a frica e a Amrica. A constante presena de barcos 
americanos e soviticos no porto da cidade da Praia era prova 
disso. Oficialmente, eram barcos de pesca; na verdade, estavam 
repletos de equipamentos electrnicos e tentavam detectar 
transmisses de rdio. Controlavam sobretudo os submarinos no 
oceano Atlntico, com a ajuda de aparelhos de sonar que 
localizavam o inimigo no fundo do mar.
Em Tarrafal no se notava nada disso. A pequena cidade parecia 
abandonada ao sol, havia algumas galinhas na rua, e a 
administrao do porto nem sequer se deu conta da chegada do 
barco de Losskcv. As casas tinham um ar inacabado, e o molhe 
estava a cair aos pedaos. Era uma imagem desoladora.
- Talvez as pessoas que vivem aqui compreendam o sentido da 
vida! - declarou Trosky num tom sarcstico. - Mas, apesar de 
todas as boas intenes, tenho de vos dizer que aqui, nesta 
ilha, no fico.
- A cidade da Praia fica a alguns quilmetros daqui. E a ilha 
do Sal at tem um aeroporto internacional. - Losskov guiou o 
barco para o pequeno porto e dirigiu-o at a uma ponte, cujo 
aspecto deixava adivinhar que j no estava em utilizao. Os 
barcos dos pescadores encontravam-se ancorados, lado a lado, 
atrs do molhe, num estreito cais. Eram barcos de cores 
garridas que estavam desbotadas pelo tempo.
No porto, havia alguns homens que no faziam nada e que 
observaram, curiosos, os estranhos que tinham acabado de 
chegar. Havia redes de pesca penduradas ao sol, a secar, e em 
frente de uma velha barraca estavam sentadas quatro mulheres 
que remendavam algumas redes. As crianas brincavam na areia, 
entre os barcos e os cestos virados para baixo. Ouvia-se o 
barulho de um motor, vindo de uma garagem ao lado, na qual um 
homem de tronco nu e completamente suado consertava a sua 
motocicleta.
De repente, como que por magia, apareceu um polcia. Era um 
dos crioulos cabo-verdianos que constituam setenta por cento 
da populao. Usava um uniforme limpo e at ostentava duas 
pequenas ordens no peito esquerdo. Por azar, dirigiu-se a 
Trosky, segurou-o pelo brao e perguntou-lhe qualquer coisa.
-        Larga-me! - exclamou Trosky. - Seno, eu cuspo-te para o 
teu olho preto!
Todavia, como um no compreendia o outro, sorriram. O polcia 
continuou a falar em crioulo.
-        Mostre-me o seu passaporte! - disse. - Mesmo que tenha 
vindo de barco, o senhor est a entrar no nosso pas. Possui 
um visto? Onde est o seu certificado de vacina? A bandeira no 
seu barco e  alem. O senhor e  da Alemanha?
"Alemanha" foi a nica palavra que Losskov conseguiu 
compreender. Assentiu com a cabea, retirou os documentos do 
seu saco e estendeu-os ao polcia.
-        O senhor fala ingls? - perguntou. - Ou francs?
O polcia abanou a cabea num gesto negativo e verificou os 
documentos. Era claramente visvel que no sabia tratar 
daquelas coisas. Apenas tinha a certeza de uma coisa: aquilo 
no era nenhum passaporte. Nem um visto. Aqueles alemes 
tinham chegado  ilha de Santiago e provavelmente queriam 
passear por l. Como se aquela ilha fosse habitada por 
selvagens! O polcia sentiu-se no dever de mostrar uma boa
imagem da sua ptria, a recentemente constituda Repblica de 
Cabo Verde. Por isso, guardou os documentos e fez um gesto de 
mo. Era um gesto inconfundvel, que em todas as lnguas 
queria dizer: "Sigam-me!"
-        Os homens so iguais em toda a parte do mundo, quando 
lhes e  delegado algum poder! - comentou Trosky, alegre. - 
Reparem naquilo que vai acontecer agora! Vamos ter de aturar o 
discurso de um homem gordo e de culos, sentado a uma 
secretria, que nos dir que somos uns miserveis.
- Porque e  que as mulheres vm connosco? Talvez fosse melhor 
elas j irem fazendo as compras necessrias! - disse Losskov e 
parou.
-        Tenta explicar isso ao polcia! - respondeu Trosky. - Ele 
interpretar qualquer coisa que digas como desrespeito ao 
poder!
- Deixa-me tratar disso! - exclamou Lucrezia e aproximou-se do 
polcia. Endireitou-se, realou o peito e sorriu. O polcia 
tambm sorriu e olhou descaradamente para o decote dela.
- Que porco! - exclamou Trosky. - Eu sei exactamente o que ele 
est a pensar agora!
-        Ns queramos ir buscar algo para comer! - proferiu 
Lucrezia num espanhol horrvel. Depois enumerou aquilo que 
queria comprar: gua, vinho, carne, milho, farinha de 
mandioca, batatas, caf, feijo, ervilhas, queijo e conservas. 
Ao mesmo tempo, fazia gestos to exaustivos que era impossvel 
no compreend-la.
O polcia lanou um longo olhar para o peito de Lucrezia e 
hesitou.
- Decide-te, homem! - exclamou Trosky num tom de voz 
ameaador. - J viste o que havia para ver!
O polcia ergueu a mo. Trosky ficou em estado de alerta.
-        Se ele tocar na Lucrezia, eu dou-lhe um murro! Mesmo que 
isso tenha consequncias dramticas nas relaes diplomticas 
entre Praga e a cidade da Praia!
- Pode ir! V fazer as suas compras! - concedeu o polcia com 
um ar generoso e fez um gesto de mo que devia querer dizer: 
"Faa favor, Tarrafal est  sua disposio."
- Muito obrigada! - disse Lucrezia com um olhar envolvente. 
Inclinou-se para a frente e deu um beijo na face do polcia.
-        Um a zero para ti! - resmungou Trosky. - No se esqueam 
de comprar aguardente! S nos restam trs garrafas de usque a 
bordo!
Assim, os homens seguiram o polcia, e Helena e Lucrezia 
passearam pela avenida ao longo do porto. Trosky deu uma 
cotovelada a Losskov.
-        Como e  que vamos pagar? Tens escudos?
-No, s dlares.
-        E eles aceitam dlares?
-        Claro que sim.
-        Os polcias tambm?
-        Porque e  que falas nos policias?
-        Suponho que daqui a pouco teremos de preencher um enorme 
questionrio. E consoante aquilo que eles encontrarem por 
baixo do questionrio quando o devolvermos, o nosso caso ser 
tratado em poucos minutos ou s em alguns dias. Por isso e  
que eu perguntei.
- Logo veremos. Por enquanto, ainda nem sabemos porque e  que 
nos esto a causar problemas. Os documentos do barco esto em 
ordem.
- Mas no havia dinheiro a acompanh-los! Por isso estavam 
incompletos.
O edifcio da Polcia tinha uma bandeira esfarrapada pendurada 
num mastro pintado de branco. No interior, havia um grande 
escritrio com dois ventiladores que agitavam o ar quente, e 
um homem magro sentado atrs de uma enorme secretria, que os 
fitou com um ar severo. O polcia fez uma continncia e depois 
ps-se em posio de sentido.
-        Adivinhaste mal! - comentou Losskov, contente. - No e  
nenhum homem gordo de culos.
-        Mas em vez disso um Napoleozinho arrogante. E isso e  
muito pior!
O polcia fez um curto relatrio daquilo que se passara e.
mais uma vez, Losskov apenas compreendeu a palavra "Alemanha". 
O homem atrs da secretria fitou-os com um ar curioso, 
apontou para duas cadeiras em frente  sua mesa e esperou que 
se tivessem sentado. O polcia ficou perto da porta como se 
quisesse vigiar a nica sada da sala.
- Alemanha! - pronunciou o chefe da Polcia e sorriu. - Muito 
bonito! At houve algum que me ensinou o vosso hino. - E 
depois recitou num alemo dificilmente compreensvel as 
seguintes palavras: "Bbedos hoje, bbedos amanh... Muito 
bonito!"
- Meu Deus! - exclamou Losskov baixinho e juntou as mos no 
colo. Estava a transpirar. - Quem e  que lhe ter ensinado 
isto? Se ele um dia descobrir o que e  que est a dizer, os 
Alemes de certeza que j no sero bem-vindos nesta ilha!
A conversa que tiveram foi cansativa, mas valeu a pena. Durou 
trs horas, durante as quais o polcia lhes serviu sumo de 
anans misturado com uma aguardente branca muito forte, 
destilada a partir de cana-de-acar. Entendiam-se com a ajuda 
das mos e dos ps e acabaram por preencher o questionrio que 
felizmente se apresentava em duas lnguas, portugus e ingls, 
e que no fim levou dois carimbos e foi metido numa caixa 
juntamente com outros papis.
- Alemanha bonito - disse o polcia, orgulhoso, em alemo. - 
Espelunca! - acrescentou e olhou para Losskov  espera de um 
louvor. Algum devia ter-lhe ensinado que essa palavra 
exprimia grande admirao.
- Bravo! - exclamou Losskov. Depois apontou para a janela, 
desenhou um barco  vela. - Temos de voltar para o nosso 
barco. Vamos continuar a viagem. Para longe! Grande mare!
O homem compreendeu o que Losskov queria dizer. Saltou da 
cadeira, aproximou-se e abraou Losskov e Trosky e depois 
mandou um berro ao polcia. Este abriu a porta e ps-se em 
posio de sentido. Obviamente que levaria os alemes de volta 
para o porto.
- Devamos ir  procura da Helena e da Lucrezia! - props 
Trosky. - Afinal elas no conseguiro carregar as compras 
sozinhas!
Foram at ao porto e dirigiram-se para a velha ponte. Quando 
l chegaram, Trosky soltou um rudo abafado e rasgou a camisa 
do peito. Losskov parou to repentinamente que parecia ter 
levado um murro.
A ponte estava vazia. O Helu desaparecera. Nada deixava 
adivinhar que h poucas horas ainda ali estivera um barco 
branco.
-        Os quatro heris permitem que lhes roubem o barco! - 
disse Trosky num tom de voz amargurado. - Ainda bem que pelo 
menos ainda temos as raparigas!
No entanto, Helena e Lucrezia tambm tinham desaparecido. Meia 
hora mais tarde, Losskov e Trosky tinham conseguido averiguar 
que tinham ido para o barco carregadas de sacos e que a seguir 
as velas haviam sido iadas rapidamente e o barco sara do 
porto.
Os dois comerciantes que tinham vindo para o porto com o resto 
das mercadorias, dois carrinhos repletos de conservas, vinho, 
cerveja e duas sacas de farinha e arroz, tinham dado meia 
volta ao verem o barco partir, furiosos, embora a mercadoria 
tivesse sido paga.
Um deles falava um ingls muito mau, mas que bastava para que 
fosse possvel compreender o que queria dizer.
-        Elas pareciam muito apressadas! - explicou. - Partiram a 
alta velocidade!
-        Devem ter sido mordidas por algum co raivoso! 
Provavelmente foi o Mister Plump. Eu j estava  espera disto! 
- bramou Trosky, furioso. - Tens alguma explicao para isto, 
Peer?
-        Algo aconteceu com o barco!
-        Claro que sim. Ele desapareceu!
- A Helena e a Luzi no foram sozinhas.
-        Ento havia algum pirata a bordo!
-        Ou algo parecido! O nosso barco foi capturado! Ora a 
tens a tua to desejada emoo! Que grande pirataria!
-        E isso em pleno dia? No porto?
A Polcia de Tarrafal alarmou a cidade da Praia. Dois barcos a 
motor iniciaram uma busca e chamaram um helicptero para 
Tarrafal.
- Ns vamos encontr-las! - prometeu um dos polcias em 
crioulo e mandou traduzir. - Porm, pode levar algum tempo. A 
costa e  rochosa e tem inmeras baas e grutas! e  constituda 
em grande parte por rochas vulcnicas que proporcionam ptimos 
esconderijos. Teremos de procurar muito cuidadosamente. Mas 
encontr-las-emos, meus senhores... Tenham pacincia! Um barco 
daqueles no pode desaparecer assim...
- O barco no e  a coisa mais importante! - disse Losskov. - 
Trata-se sobretudo das mulheres.
- Eu quase que lhe posso garantir que encontraremos o barco! - 
O chefe da Polcia fitou Losskov e Trosky com um olhar triste 
e depois acrescentou: - Mas ser que voltaremos a ver as duas 
mulheres? Isso s Deus e  que sabe!
- E Ele no nos responde! - completou Trosky, baixinho.
Helena e Lucrezia tinham regressado ao barco duas horas mais 
tarde, carregadas de compras.
Embora a aldeia de Tarrafal, no meio da paisagem vulcnica, 
tivesse um aspecto extremamente desolador, existiam trs 
pontos de referncia: uma igreja do tempo dos Portugueses, um 
bar e um supermercado que pertencia a um senhor que at falava 
razoavelmente bem francs e que recebeu Helena e Lucrezia como 
se fossem duas rainhas numa visita de estado: "A minha loja 
est ao vosso inteiro dispor, mesdames!" No se tratava bem de 
um gesto de generosidade da sua parte, mas antes exprimia a 
esperana de receber de uma s vez mais dinheiro do que 
normalmente ganhava num ms inteiro. E a sua intuio estava 
certa. Helena e Lucrezia compraram tudo o que tinham apontado 
na lista: desde a gua em garrafas de plstico fechadas 
hermeticamente, at s sopas prontas de farinha de ervilhas e 
massa de lentilhas. Compraram uma caixa com doze garrafas de 
usque para Trosky, e Helena, com o seu esprito prtico, at 
levou dois pacotes de detergente para a roupa.
- Quando o Trosky vir o detergente, vai deit-lo imediatamente 
para o mar! - disse Luzi. - Detergente para a roupa! Para ele 
seria muito mais lgico levar mais seis garrafas de usque! De 
qualquer maneira, acho que comprmos coisas a mais!
- Eu no quero andar com roupas malcheirosas! - declarou 
Helena, decidida. - E posso perfeitamente prescindir do 
lcool!
- Queres fazer grandes lavagens de roupa no Atlntico e em 
frente  ilha do Fogo?
-        E porque no?
- Creio que teremos preocupaes muito maiores do que uma gola 
suja. - Lucrezia encolheu os ombros, resignada. - Mas faz o 
que bem entenderes! Afinal, tu e  que mandas...
Helena, que estava entretida a ler as instrues numa lata de 
conserva, virou-se bruscamente ao ouvir esta frase. Ainda 
conseguiu ver a expresso maliciosa nos olhos de Lucrezia. 
Contudo, o seu olhar alterara-se imediatamente, os seus olhos 
voltaram a ficar grandes e redondos, adquirindo aquele ar 
infantil e ingnuo, tpico de Lucrezia com o qual costumava 
despertar o instinto protector dos homens.
- O que e  que queres dizer com isso? - perguntou Helena, num 
tom de voz severo. Luzi encolheu os seus ombros estreitos e 
sorriu com um ar infantil.
- Todos ns j o sabemos.
-        Sabem o qu?
-        No somos cegos!
-        Mas ligeiramente estpidos.
- e  possvel. - Lucrezia mostrou um sorriso malandro. - Mas 
no suficientemente estpidos para no percebermos que vocs 
se amam.
-        Que ideia mais absurda!
- Vocs olham um para o outro como se olhassem para um grande 
bolo, completamente esfomeados.
-        Que grande disparate!
- Um disparate e  o facto de vocs ainda dormirem em camarotes 
separados. Se eu pudesse, j estava a dormir com o Peer h 
muito tempo. Desde a primeira noite a bordo! Mas ele no me 
quer, ele quer-te a ti! Por amor de Deus, isso ser pecado? 
Vocs agem como se o barco fosse um convento, e esto a ser 
ridculos! Faam aquilo com que sonham todas as noites!
-        Para que tu possas ir para a cama com o Jan sem teres m 
conscincia?
-        Com o Jan?? Ele no faz o meu gnero! Eu gosto de homens 
carinhosos e no daqueles que s querem exibir os seus 
msculos. - Os olhos infantis de Lucrezia adquiriram um ar 
sonhador. Era impressionante ver como ela era capaz de 
modificar o rosto. Mudava de expresso como um camaleo muda 
de cor. - Mas, tendo em considerao que durante as prximas 
semanas ser impossvel conhecer um homem carinhoso...
-        Se essa e  a tua nica preocupao!
-        Isto e  no mnimo mais preocupante do que os teus 
problemas com o detergente para a roupa. - Lucrezia andou ao 
longo das estantes baloiando as ancas. Parou perto da seco 
de cosmticos, onde se podia encontrar perfumes baratos e 
cosmticos, e comprou um grande frasco de perfume de lrios, 
trs btons vermelhos, cores para as faces e rimel. - Cada 
qual com as suas manias! - exclamou, rindo-se. - Tu lavas a 
roupa e eu pinto-me! Meu Deus, isto vai ser uma viagem de 
doidos! Temos um bbedo que odeia todos os homens, um 
viquingue com a moral de um monge, uma dona de casa virgem e 
uma rapariga doida por homens. Afinal, e  isso que eu sou aos 
teus olhos, no ?

O proprietrio do supermercado corou de entusiasmo quando fez 
a conta. Como Helena pagou em dlares, acrescentou mais uma 
boa soma ao fazer o cmbio e ofereceu a cada uma delas um 
leno de seda com uma pintura a cores berrantes das ilhas de 
Cabo Verde. Os lenos ainda eram do tempo dos Portugueses, 
quando o turismo fora uma fonte de rendimento. Desde que as 
ilhas se tinham tornado independentes em 1975, quase que no 
havia mais visitantes em Tarrafal, e a loja com as lembranas 
para os turistas estava coberta de poeira.
-        Eu mando um moo acompanhar-vos at ao barco, mesdames - 
disse o dono da loja. Ele levar a mercadoria at ao porto com 
a ajuda de um carrinho. Boa viagem! E boa sorte! As senhoras 
seguem para a Guin-Bissau?
-        No, vamos para a Terra do Fogo - informou Luzi com um ar 
contente.
-        Para onde? - O dono do supermercado parecia desiludido.
-        Para a Terra do Fogo, passando pelo cabo Horne.
-        Com aquele pequeno barco  vela?
-Sim.
-        Devem estar a brincar!
-        Embora no seja uma brincadeira, gostamos daquilo que 
estamos a fazer!
Enquanto elas desciam a rua, seguidas pelo pequeno e magro 
rapaz que no devia ter mais de dez anos, o homem seguiu-as 
com o olhar. "H pessoas mesmo muito doidas neste mundo", 
pensou, olhando com um ar quase triste para as ancas 
baloiantes de Lucrezia. "Viajar at  Terra do Fogo num 
barquinho daqueles! Nunca mais voltaremos a ver estas 
raparigas to apetitosas. Que pena." Suspirou, olhou para os 
dlares que ganhara e decidiu ir nesse mesmo dia para a cidade 
da Praia deposit-los no banco.
No caminho de volta, as duas raparigas passaram pelo quartel, 
onde Trosky e Losskov estavam a chegar ao fim das longas 
conversaes com o chefe da Polcia.
O barco l estava, isolado no cais, amarrado pelos cabos de 
nylon. Os poucos barquinhos de pescadores que havia tinham 
sido trazidos para terra, e os dois nicos barcos um pouco 
maiores pareciam abandonados. No se via ningum na rua, o 
calor era insuportvel e seco e havia uma fina areia no ar que 
provinha dos temidos ventos Passat do Sara. Era uma areia 
avermelhada, fina como farinha, que parecia poeira e que se 
colava a tudo. Cobria as casas e os campos, as ruas e os 
telhados, os barcos e as rvores, rangia entre os dentes e 
entrava nas narinas, tapando-as.
Quando chegaram ao barco, Helena e Lucrezia no deram por nada 
de anormal; porm, o rapaz ficou parado, olhou fixamente para 
o barquinho, despejou o contedo do carrinho num gesto brusco, 
deixando cair as caixas para o cais e fugiu sem dizer uma 
palavra. Helena olhou para o monte de coisas e para o 
rapazinho em fuga, com um ar desiludido.
-        Se ele continuar assim, nunca vir a ser director de uma 
filial - notou Lucrezia. - Primeiro o polcia e depois este 
rapaz! No sei porqu, mas tenho a impresso de que no somos 
bem-vindas nesta ilha. Bem, ento teremos de ser ns a levar 
as coisas para bordo!
Pegou na caixa com o usque e colocou-a no ombro. Helena, por 
seu lado, levou as caixas com o detergente para a roupa. Mais 
uma vez ficou surpreendida com a fora e robustez do bonito 
corpo de Lucrezia, que  primeira vista tinha um ar to 
frgil. Doze garrafas de usque no so leves, mas Lucrezia 
carregou-as como se se tratasse de um caixote vazio. " uma 
mulher resistente", pensou Helena. "Quando entrarmos nas 
fortes tempestades, poderemos contar com ela. O mesmo no 
acontece comigo. Eu tenho medo quando penso no cabo Horne e 
nos ventos fortes da Terra do Fogo."
Subiram a bordo, pousaram as caixas e olharam para o monte de 
coisas que ainda havia no cais.
-        O paiol da palamenta no e  extensvel! - disse Lucrezia. 
- Acho que vamos ter problemas com o Peer! Comprmos coisas a 
mais.
-        Daqui a quinze dias, o Trosky j ter comido metade disto 
tudo.
-         melhor combinares isso com o Peer, o teu querido!
Foi at s escadas e parou, surpreendida. A porta para o salo 
estava aberta e no entanto ela lembrava-se perfeitamente de 
que Peer a fechara  chave. E apenas Helena tinha a segunda 
chave.
-        Eles j chegaram! - exclamou.
-        J? - Helena, que queria voltar para o cais para buscar 
mais caixas, parou.
-        A porta est aberta!
-        E eles no nos ouvem?
-        Isso j veremos. - Lucrezia bateu com o punho no tecto do 
salo e inclinou-se para as escadas. - Subam, seus 
preguiosos! - gritou. - No nos deixem carregar tudo 
sozinhas!
L em baixo, nada se moveu. Lucrezia olhou para Helena, 
encolheu os ombros e abanou a cabea.
-        Eu vou tratar deles! - exclamou.
Desceu as escadas, entrou no salo e de repente sentiu duas 
mos agarrarem-na e taparem-lhe os olhos. Outro par de mos 
torceu-lhe os braos para trs. A porta fechou-se, e durante 
alguns segundos Lucrezia ficou paralisada. Depois, os seus 
msculos contraram-se como se fosse um gato selvagem. Mas no 
tentou defender-se. Seria impossvel soltar-se. Por isso, 
ficou parada, sem se mexer, e esperou. Teve nojo. As mos que 
lhe tapavam os olhos cheiravam a peixe ou a leo de fgado.
Ouviu uma voz sussurrar-lhe algo em crioulo, mas ela no 
compreendeu nada.
- Fala francs? - perguntou uma voz grave atrs dela. Lucrezia 
ficou aliviada.
- Sim! - exclamou, zangada. - Vocs so uns idiotas!
Veremos. Chame a sua colega!
- E se eu no o fizer?
- Apertamos-lhe o pescoo e fazemos com que ela venha c na 
mesma. Seria uma pena obrigar-me a fazer isso... Eu no queria 
matar ningum! Odeio a violncia.
- Que trao de carcter to nobre. Eu, porm, no notei nada 
dele!
- Um assalto no constitui violncia.
-        No sabia disso! Existem algumas subtis diferenas, no 
?
- Vai cham-la ou no? - perguntou a voz grave atrs dela.
- Eu fao tudo para sobreviver!
- Mas tenha cuidado para que ela no d por nada!
- Esforar-me-ei para que assim seja.
Os dois homens viraram Luzi para as escadas; ela ouviu a porta 
a abrir-se e a bater contra a parede.
-        Chame-a!
Lucrezia respirou fundo.
- Blondie! - gritou. - Vem c! Passa-se algo! - S nesse 
instante e  que se lembrou de que os homens que a seguravam 
provavelmente no compreendiam alemo; ela poderia ter gritado 
aquilo que quisesse. Porm, no teve hiptese de chamar outra 
vez. Uma mo forte tapou-lhe a boca. "Eu podia morder-lhe", 
pensou. "Ele gritaria, afastaria a mo da minha boca por um 
simples reflexo e eu poderia chamar: "Foge! Foge! Assalto!" 
Mas de que e  que isso serviria? Eles matar-me-iam de qualquer 
maneira. Os actos hericos s raramente fazem sentido.
- Ela vem a! - disse a voz grave atrs do seu ouvido. - No 
se mexam!
Arrastaram Lucrezia para o lado, encostaram-na  parede do 
salo e fecharam a porta. Queriam surpreender Helena quando 
ela entrasse no salo e fosse agarrada, tal como tinham feito 
com Lucrezia.
Tudo se passou com extrema preciso. Helena desceu 
apressadamente as escadas. Estava preocupada, porque se Luzi 
dizia que algo se estava a passar, ento isso s podia querer 
dizer que houvera outra zanga entre Peer e Trosky... E quem 
sabia quais seriam as consequncias?
Helena foi igualmente imobilizada em poucos segundos. No lhe 
taparam os olhos; puxaram-na violentamente do ltimo degrau 
das escadas para o salo, atirando-a contra a parede. Durante 
a queda, ainda conseguiu ver Lucrezia, que estava a ser 
agarrada por um homem pequeno e gordo com uma careca. E tambm 
conseguiu ver o homem que estava a ocupar-se dela, um jovem 
alto e magro com um pequeno bigode e longos cabelos pretos 
encaracolados. Depois caiu no cho, ficou deitada sobre os 
joelhos e esperou. Pusera os braos  volta da cabea para se 
proteger.
- Suponho que tambm fala francs? - disse o homem com a voz 
grave.
- Sim - respondeu Helena. Virou-se. A porta que dava para o 
convs tinha sido de novo fechada, e Lucrezia encontrava-se do 
lado oposto da sala, encostada  parede. Os dois homens, um de 
caracis pretos, e o outro, careca, estavam lado a lado na 
parte da sala que fazia de cozinha. Lucrezia ergueu as mos 
num gesto desesperado.
- Eles obrigaram-me a chamar-te! - disse em francs. - Seno, 
ter-me-iam estrangulado.
O homem alto, de caracis, tomou a palavra. A sua voz era 
agradvel, mas fria.
-        Ns temos um problema - declarou. - E achamos que o vosso 
barco e  exactamente aquilo de que precisamos para resolv-lo. 
Sabem manej-lo?
-        No! - respondeu Luzi rapidamente.
-        No vale a pena estar a mentir. Primeiro, vou contar-vos 
uma pequena histria. J ouviram falar do Chade? e  um pas 
extremamente pobre, algures na frica Central. e  natural que 
no o conheam! De qualquer maneira, sabe-se que nesse pas 
milhares de pessoas morrem  fome, que h uma revoluo, que 
as diferentes tribos esto a matar-se mutuamente e que a 
Frana detm o poder nesse pas, apenas por motivos 
estratgicos. Eu era um legionrio estrangeiro. Sabem o que 
isso quer dizer? Mandaram-me, juntamente com mais duzentos 
homens supostamente voluntrios, para o Chade, para 
instaurarmos a ordem. Era uma misso que devia antes ser 
denominada assim: "Apodream em nome da Frana!" Eu decidi 
desertar. Creio que no tenho de explicar-vos o que e  que 
acontece aos legionrios que desertam e so apanhados! 
Felizmente, consegui abrir caminho do Chade pela frica at 
estas ilhas. Se quiserem ter uma ideia daquilo que eu passei, 
consultem o mapa e vero. E agora, graas a vocs, vou dar o 
golpe que me garantir uma vida nova. E isso em Tarrafal! 
Parece incrvel, no acham?! Tenho de ir-me embora daqui. No 
quero ir para longe. Apenas para Maio. S que para isso no 
basta um simples barco a motor! Tero de ser vocs duas a 
levar-nos para l.
-        Isso e  uma loucura! - exclamou Lucrezia e sentou-se num 
banco. - Acho que at seria mais seguro irem a nado! Imaginem 
a agitao que vai haver nesta ilha quando derem pela falta do 
barco! Afinal ns no viemos sozinhas.
-        Eu sei - respondeu o homem com o cabelo encaracolado. - 
Vamos trazer as vossas compras para bordo e partiremos 
imediatamente. A costa e  rochosa e cheia de baas e grutas. 
Uma paisagem vulcnica como esta proporciona excelentes 
esconderijos. Vamo-nos esconder e esperar que a noite caia, e 
depois iremos directamente para Maio. Acham que vai haver 
algum problema?
-        O senhor no conhece os nossos homens! - disse Helena.
-        Eu no subestimo ningum. Nem a mim prprio. - O homem 
com o cabelo encaracolado abriu bruscamente a porta. O outro, 
mais pequeno, com a careca, que at agora no dissera nada, 
subiu as escadas a correr. - No vale a pena tentarem ganhar 
tempo! - continuou o primeiro. - Eles no voltaro assim to 
rapidamente. O chefe da Polcia e  um tagarela e fica sempre 
contente quando encontra algum para interrogar. Quanto mais 
inocente e  o delinquente, melhor, j que assim ele pode fazer 
mais perguntas! Para ele, esses interrogatrios substituem a 
televiso e a vida social, que aqui praticamente no existem. 
Por isso, minhas senhoras, podem ter a certeza de que os 
vossos homens ainda vo levar muito tempo at chegar!
-        Mas seremos observados!
-        A esta hora, no. - O homem alto, com o cabelo 
encaracolado, sorriu, satisfeito.
-        O rapazinho do supermercado! Ele vai contar tudo! Se ele 
fugiu, deve ter sido porque vos viu!
-        Ele no vai dizer nada! Eu mostrei-lhe a minha pistola 
atravs da janela. e  um sinal que aqui qualquer pessoa 
compreende.
O homem da careca voltou, carregado de caixas que depositou na 
cabina.
-        Este e  o Jorge Silva - disse o homem mais alto. - O meu 
nome e  Maurice Depallier... Isto no quer dizer que estes 
nomes sejam verdadeiros. Mas podem chamar-nos assim. - Silva 
voltou a subir. Executava o trabalho sem dizer nada. Devia 
encarar Maurice como seu superior e parecia gostar de viver na 
sua sombra. - O que e  que acham de iarmos as velas?
Helena e Lucrezia trocaram um olhar rpido. Depallier reparou 
nesse olhar e sorriu.
-        Como e  que se faz isso? - perguntou Helena, calmamente.
-        Eu j estava  espera desta reaco, minhas senhoras. 
Posso ajud-las? - Avanou dois passos, puxou Helena pela 
blusa e torceu o seu brao esquerdo para trs, at ela gemer. 
Helena conseguiu suportar a dor, mas estava no limite. - As 
mulheres so sensveis aos gritos, no e  verdade?
- Eu no. - Lucrezia cruzou as suas longas pernas. Entretanto, 
Silva voltou a aparecer, sem flego e a transpirar, e colocou 
a caixa que continha as garrafas de gua num canto. E, sem 
sequer fazer uma pequena pausa, voltou imediatamente a subir. 
Apesar de tudo, aos poucos o tempo comeava a apertar.
-        Eu cresci entre gritos - continuou Lucrezia. - Quando era 
pequena, vivia perto de um enorme matadouro e costumava 
escapar-me para os pavilhes onde os animais eram mortos. 
Vocs sabiam que os porcos na hora da morte gritam de uma 
maneira assustadora? Eles sentem o sangue e adivinham que o 
seu fim se aproxima. No so assim to burros como se costuma 
dizer. Agora j sabem porque e  que os gritos no me 
impressionam. Fui habituada a eles desde muito cedo.
Maurice olhou para ela com um ar desiludido, largou Helena e 
passou a mo pelo cabelo.
-        Porque e  que as senhoras complicam as coisas? Levem-nos 
para Maio e eu prometo que, quando l chegarmos, deix-las-ei 
voltar. So sessenta quilmetros de ida e sessenta quilmetros 
de volta e mais o tempo de espera.
-        Que tempo de espera? - perguntou Helena.
-        Teremos de nos esconder durante alguns dias, at que 
desistam de nos procurar. Uma tempestade viria mesmo a calhar, 
porque a seguir achariam que j no havia mais nada a fazer e 
que o barco se tinha perdido. O mar aqui tem quatro mil metros 
de profundidade... Minhas senhoras, para que suportar dores, 
se de qualquer maneira tero de levar o barco, j que no tm 
outra escolha? No ser melhor serem sensatas e guiarem o 
barco voluntariamente?
Jorge Silva voltou, pousou as caixas e respirou fundo.
-        Mais uma leva e estar tudo a bordo - disse, em crioulo. 
- O que e  que elas dizem? - perguntou, olhando para as duas 
raparigas.
-        Claro que esto dispostas a fazer o que lhes pedimos -
respondeu-lhe Maurice. - O nosso amigo Jorge est a perguntar 
- continuou, desta vez em francs, e dirigindo-se a elas -, se 
ser necessrio ele cortar o rosto de uma das duas. e  que o 
Jorge tem um ar muito bondoso e simptico e de certa maneira 
paternal devido  sua careca, mas na realidade e  um diabo. Um 
verdadeiro animal selvagem sem sentimentos! E e  um artista 
com a faca. - Maurice fez uma vnia em frente a Helena e 
apontou para as escadas. - Podemos partir, madame. Eu ficarei 
a observ-las daqui. Se fizerem qualquer sinal ou tentarem 
sabotar o que quer que seja, eu disparo imediatamente. 
Lembrem-se de uma coisa: ns no temos nada a perder, estamos 
habituados a arriscar tudo. As senhoras, pelo contrrio, devem 
gostar bastante de viver, para no quererem perder esta bela 
vida devido a um gesto errado.
-        Est bem, vamos embora! - concordou Lucrezia. - Eu fao 
tudo para salvar o meu rosto. Mas as coisas no vo correr 
como o senhor as prev, Maurice. Repare que esto a chegar 
mais dois homens com carrinhos carregados de farinha, arroz, 
batatas e massa, cerveja e latas de conservas.
-        A senhora no sabe mentir. Infelizmente, eu sei que no 
compraram mais do que aquilo que est l fora no cais.
-        Engana-se! O prprio dono do supermercado est a chegar 
com o seu scio para ver o barco. Por isso, j no lhe resta 
tempo nenhum!
Silva voltou com o ltimo saco e parecia nervoso.
-        Temos de partir! - exclamou, sem flego, enquanto limpava 
o suor da careca. - O porto est a ficar cheio.
-        Para o convs! - A voz de Maurice adquiriu um tom duro, 
que no permitia discusses. - A todo o pano! E lembrem-se que 
eu disparo!
Helena e Lucrezia passaram pelo Sr. Silva, que estava 
completamente exausto, e subiram as escadas a correr. Soltaram 
as cordas, depois de terem recolhido a estreita prancha de 
embarque, e tomaram os lugares que tinham ocupado durante os 
treinos e em parte durante a viagem. O porto de facto estava a 
tornar-se mais movimentado. Como o vento estava favorvel, o 
barco podia avanar a alta velocidade para o mar aberto. Ao 
longe, j conseguiam distinguir o proprietrio do supermercado 
com o seu scio e dois carrinhos com mercadorias.
-        Bastavam-nos quinze minutos, Helena! - murmurou Lucrezia, 
que estava no mastro a iar a vela grande. - Achas que 
devamos arriscar?
-        E se ele realmente disparar?
-         o risco que temos de correr!
-        Se obedecermos, voltaremos para c, ss e salvas.
- Tu acreditas nisso?
-        Ento, est bem. Vamos tentar! - A vela grande subiu 
pelas cordas e desdobrou-se. Bruscamente, o barco mudou de 
direco e comeou a avanar. Lucrezia precipitou-se para a 
frente, soltou a corda e iou a vela de balo. O barco tremeu 
e depois saiu disparado do pequeno porto, baloiando 
perigosamente. Mas, logo a seguir, Helena conseguiu controlar 
o barco e olhou para as escadas. Maurice Depallier estava 
deitado no degrau superior com a pistola pronta a disparar. O 
seu rosto estava contrado e perdera toda a sua beleza.
Entretanto, o dono do supermercado e o seu companheiro tinham 
chegado ao porto e olhavam, incrdulos, para o barco que se 
afastava a alta velocidade. O dono da loja bateu com o punho 
num saco de farinha e parecia j no compreender nada.
-        Que estupidez! - gritou. - Vo-se embora e deixam a 
mercadoria para trs!
-        O que importa e  que a pagaram - fez notar o companheiro, 
calmamente. - Para ns, foi um ptimo negcio! Elas de certeza 
que no voltam. Afinal vo para a Terra do Fogo! Vamos beber 
um copo para festejar!
-        H algo de estranho nesta histria! - gritou o dono do 
supermercado.
-        E tu tens alguma coisa a ver com isso? Os turistas so 
sempre um pouco malucos!
-        Estas raparigas no me pareciam malucas! Alguma coisa 
est mal!
-        Queres ir  Polcia?
-        Sim!
-        E l se vai o nosso negcio! - O companheiro pegou no seu 
carrinho. - Eu acho que devamos antes voltar para a loja! O 
que e  que nos interessam os problemas dessa gente! Ns 
prprios j temos preocupaes suficientes. - Ps a mo na 
testa para proteger os olhos do sol e, abanando a cabea, 
observou o barco que se afastava a alta velocidade. - Mas elas 
levaram a mercadoria que o nosso rapaz as ajudou a carregar. O 
mido no disse nada?
-        No. Quando voltou para a loja, foi imediatamente para o 
armazm empilhar latas de conserva. No lhe devem ter dado 
gorjeta. Quando eu lhe perguntei se tinha gostado do barco, 
sabe o que e  que ele fez? Cuspiu para o cho, o que prova que 
no recebeu nada!
Ficaram ao lado dos carrinhos a olhar para o barco at este se 
tornar num pequeno ponto branco no horizonte. Depois, voltaram 
para a loja, empurrando os seus carrinhos, e s ficaram mais 
animados quando o sargento da Polcia apareceu no supermercado 
e berrou:
-        Onde esto os aldrabes? Venham j falar com o chefe da 
esquadra! Imediatamente!
-        Eu j estava  espera disto! - suspirou o dono do 
supermercado e ps o seu grande chapu de palha na cabea. - 
No e  mesmo nada fcil ganhar dlares nesta terra.

Avanaram a todo o pano apenas por pouco tempo. Quando j no 
podiam ser vistos a partir da costa, deram meia volta e 
dirigiram-se para a costa leste. Rizaram todas as velas 
excepto o traquete, e navegaram lentamente ao longo da costa 
pela gua profundamente azul, mantendo-se sempre na sombra das 
rochas vulcnicas e contornando as estranhas pennsulas que as 
correntes de lava tinham formado na gua. Aqui, a terra era 
deserta, hostil, indomvel, arrasada pelo fogo h milhares de 
anos, destruda pelas tempestades e roda pelo mar: havia 
pedra-pomes, porosa como uma esponja e lava sada do interior 
da terra. Ao longo da costa ngreme, tinham-se formado 
centenas de grutas enormes, lavadas pelo oceano, que se 
ofereciam como um ptimo esconderijo para o pequeno barco. 
Passariam por um dos estreitos tneis de gua entre as rochas 
e esconder-se-iam atrs das rochas mais salientes.
-        A esta hora j eles devem ter dado pela nossa falta - 
afirmou Helena, que ainda estava sentada ao leme e guiava o 
barco de maneira segura por entre os recifes de lava. A gua 
era transparente, permitindo-lhe ver todos os baixios. De 
qualquer maneira, no fazia sentido provocar um acidente. 
Seria o fim de toda a expedio, dado que o casco especial do 
barco com cmaras de espuma, que o tornava "inafundvel", no 
podia ser consertado. Se fosse danificado, o barco ficaria 
inutilizvel. Maurice Depallier estava sentado ao lado de 
Helena e comportava-se como se estivesse num paquete de 
frias. Silva encontrava-se no tecto dos camarotes e observava 
com um olhar devorador Lucrezia que, depois de ter rizado as 
velas, se deitara por baixo do traquete e agitava as suas 
finas pernas no ar.
- Bravo, madame! - exclamou Maurice Depallier quando entraram 
numa grande gruta, para escapar ao vento. O barco deslizava 
pela gua, entrando cada vez mais fundo na gruta e tornando-se 
assim invisvel para quem estivesse no mar. Nem mesmo do ar 
seria possvel v-los, dado que as rochas de pedra-pomes 
formavam uma espcie de telhado. - Permaneceremos aqui durante 
dois ou trs dias ou mais. Agora temos tempo.
-        Suponho que os habitantes da ilha conhecem bem estas 
grutas.
-        Elas existem aos milhares ao longo da costa. E de 
qualquer forma apenas nos procuraro de dia! Temos boas 
hipteses de escapar.
Lucrezia, que estivera na proa, aproximou-se deles e 
encostou-se na balaustrada.
-        Esse homem careca est a devorar-me com os olhos - disse 
a Maurice, fazendo tremer as pestanas. - Posso ir l para 
baixo?
-        A partir de agora, podem fazer o que quiserem.
-        Obrigada. - Lucrezia virou-se e desceu as escadas. 
assobiando. Depallier olhou para ela.
-        Uma vadia, no ?
-        No se iluda! - exclamou Helena.
-        Eu no correria atrs dela. Nem atrs dela, nem atrs de 
nenhuma mulher. Nunca mais.
-        E porque no?
-        Quer ouvir a minha histria, madame? Alis, como e  que 
se chama?
-        Helena Sydgriff.
-        Isso parece-me germnico.
- e  sueco.
-        Est a ver! - Depallier riu-se. Nessas alturas parecia um 
daqueles homens de Saint Tropez, perdido nessa solido. Era um 
homem bonito, pondo de parte os seus olhos que podiam emanar 
uma enorme frieza. Olhos castanhos, sem qualquer sentimento.
-        E a vadia?
-        Por favor, chame-lhe Lucrezia Panarotti! Ela e  italiana.
-        E e  bonita. - Maurice encostou-se para trs, estendeu os 
braos para o lado, no espaldar, e olhou para Helena com um ar 
inquiridor. - Voc tambm e  bonita. Em circunstncias 
normais, eu preferia-a a si a essa Lucrezia.
-        Obrigada.
-        O seu cabelo louro, o seu peito, essas ancas, as suas 
pernas rijas, tudo isso e  sinal de energia. Energia tambm no 
amor. Ns, os Franceses, sabemos reconhecer isso, Helena.
-        No sei para que est a enumerar as minhas qualidades. 
Isso no adianta de nada, Maurice.
-        Eu sei, o seu marido...
-        Ele no e  meu marido.
-Ol!... - Depallier voltou a rir-se. - Ser que neste barco 
se est a repetir a histria universal? A bonita Helena 
raptada por Pris e a perigosa e venenosa Lucrezia de Itlia? 
Que aventura... - Inclinou-se para a frente e, abanando a 
cabea, acrescentou: - No se preocupe. Ningum vai tocar em 
si. Eu tenho outras preocupaes. Ento, quer ouvir a minha 
histria?
-        Para qu? Isso mudar alguma coisa no facto de nos terem 
roubado o barco?
-        Ficaria a saber quais os motivos que nos levaram a 
roub-lo. - Depallier bateu palmas. - Voil, olhem para ela. 
Como eu estava  espera: de cortar a respirao!
Lucrezia aparecera nas escadas. Vestia um biquini dourado, to 
pequeno que era admirvel que no se rasgasse quando ela se 
mexia.
Passou por Helena e Maurice como se estivesse num desfile de 
moda, deitou-se no convs e encolheu os joelhos. Silva, o 
careca, observou-a, fora de si, at Depallier lhe fazer um 
sinal para desaparecer.
-        O que e  que acha de escolhermos uma boa garrafa da vossa 
reserva de vinhos? Reparei que h um ptimo bordeaux a bordo.
-        O senhor tem uma calma incrvel! - Helena passou as mos 
pelo cabelo despenteado. - J imaginou o que estar a 
passar-se na ilha por esta altura?
-        Consegue ver ou ouvir alguma coisa?
-        No vai tardar muito.
-        Mas eles nunca nos descobriro. Quer venham com barcos, 
quer com avies... As coisas s se tornaro perigosas no 
momento em que sairmos desta gruta para irmos para Maio.
-        Porque e  que quer ir para Maio?
-        Em Maio, ser-me- mais fcil esconder-me e depois poderei 
ir com um pequeno avio dos Transportes Areos de Cabo Verde 
para o aeroporto internacional da cidade do Sal. Pode parecer 
estranho, mas e  mesmo assim. Eu tenho muitos amigos em Maio. 
Porm, depois de tudo por que passei, e nisso incluo estes 
dias convosco, j no preciso de amigos. Os bons amigos no 
existem aqui. Alis... amigos? Ser que ainda existem? Eu s 
conheci a verdadeira amizade na legio. Aquilo era amizade at 
 morte. E afinal foi exactamente da legio que eu desertei.
-        Meu Deus, nada de sentimentalismos, por favor. Agora, 
no!
-        Devamos beber qualquer coisa, Helena.
-        Tragam para mim tambm! - exclamou Lucrezia. Tinha 
excelentes ouvidos. - E no me deixem sozinha aqui
em cima por muito tempo. O careca est  espera de uma 
oportunidade para me atacar.
- Eu vou buscar uma garrafa. - Helena levantou-se. No mesmo 
instante ouviu-se o barulho distante de um motor. Depallier 
apontou com o polegar para cima e sorriu.
- e  um helicptero. Estou impressionado! Parece que esto 
mesmo empenhados nesta busca. Isso admira-me. Minhas senhoras, 
tenho muita pena, mas parece-me que teremos de passar alguns 
dias juntos. Pelo menos at que as coisas se tenham acalmado 
em Tarrafal.
Escutaram o helicptero que parecia voar muito baixo, mas que, 
depois de ter dado algumas voltas, voltou a afastar-se.
-        Pronto, agora esta zona j foi revistada - comentou 
Maurice, satisfeito. - Se pensarmos logicamente, eles no 
voltaro, e ns estamos seguros. Tudo est a correr segundo os 
meus planos.
-        Acontecem sempre surpresas, Maurice! - Lucrezia 
espreguiou-se. Do ngulo de Depallier, ela devia parecer 
irresistvel. - O que e  que acontece se eu decidir fugir 
pelas rochas a meio da noite?
-        S faria isso se fosse realmente burra!
-        Voc est cheio de boa-f, Maurice. Na sua profisso, 
isso constitui uma desvantagem, no acha?
-        Se continuar com essa sua conversa, vejo-me obrigado a 
fech-la num quarto com o Jorge Silva durante esta noite.
Lucrezia ergueu a cabea e lanou um olhar fulgurante a 
Maurice.
-        Seria capaz disso?
-        Sim. Por mim, agora pode voltar a vestir-se. J vi o seu 
corpo.
-        E a isto chama-se um francs?
Helena voltou com uma bandeja com quatro copos de plstico e 
uma garrafa aberta de bordeaux. Pousou o tabuleiro numa mesa 
desdobrvel e fez um gesto depreciativo quando viu que 
Depallier quis fazer um comentrio.
-        No vale a pena protestar, Maurice! Eu sei que um francs 
fica arrepiado s com a ideia de beber um bordeaux em copos de 
plstico. Mas quando ns partimos no podamos adivinhar que 
iramos ter um gourmet a bordo. - Encheu os copos com o vinho 
vermelho-escuro e estendeu dois deles a Lucrezia. - D um copo 
ao Silva.
-        O vinho evaporar-se- sob o seu olhar ardente!
-        A culpa e  tua.
Esperou que Lucrezia tivesse ido para a proa e depois 
sentou-se ao lado de Depallier. Este pegou no seu copo, 
brindou com Helena e bebeu um grande gole.
-        Excelente - pronunciou. - Apesar do plstico! Sabe quando 
e  que eu bebi um bordeaux pela ltima vez? H sete meses, num 
bar em Lagos. Tinha acabado de chegar do Chade, depois de 
desertar, e devia ter um aspecto horrvel. Uma turista 
americana encontrou-me na rua, levou-me para o hotel para a 
sua cama e manteve-me durante dez dias como mquina de amor. 
Em troca, eu podia comer e beber o que me apetecesse. E ao fim 
dos dez dias ainda me deu mil dlares! Mil dlares! Imagine o 
que isso era para mim, naquela altura, quando eu era um pobre 
desertor perseguido! Aquele dinheiro constitua uma hiptese 
de sobrevivncia, Helena! Uma hiptese de atingir a verdadeira 
liberdade! e  que havia uma coisa que eu finalmente 
compreendera: quem e  realmente livre no e  o pobre, mas sim 
aquele que tem os bolsos cheios. - Depallier bebeu mais um 
grande gole de vinho. - Antigamente eu era assim. Um chacal 
vadio. S lentamente voltei a ser uma pessoa normal e 
lembrei-me de que o meu pai se chama Jrme Depallier e e  o 
dono da Fbrica Depallier. Essa famosa marca de fatos para 
homem. Um fato Depailier reconhece-se logo pelo seu corte, 
pelo tecido e pela sua elegncia intemporal.
-        E o filho desse imprio e  um legionrio.
-        Era! Depois, transformou-se num assaltante e ladro. Mas 
esses tempos tambm j passaram. E, graas  sua ajuda. 
Helena, depois de todos estes contratempos, eu voltarei a 
fazer parte da civilizao como um homem rico e normal. Porm. 
no regressarei  familia Depallier, pois para eles eu morri! 
Adoptarei outro nome. Qual? Isso no e  da sua conta! Quero 
ter sossego na minha nova vida. Passei por tantas
situaes horrveis que agora tudo o que quero e  um cantinho 
no paraso. - Inclinou-se para a frente. - Ento, quer ouvir a 
minha histria ou no?
- Sim! - acedeu Helena, assentindo com a cabea. - Depois 
deste preldio, sim.
- Por favor, madame... - Depallier ergueu o copo. - Encha o 
meu copo! - Depois, encostou-se para trs, olhou para 
Lucrezia, que entretanto voltara a deitar-se no convs, e 
acenou-lhe com o copo na mo.
- Tudo comeou devido a uma mulher - proferiu. - Que mais 
podia ser? Uma mulher que era to bonita como a nossa 
Lucrezia. Eu amava-a e fiquei, como se costuma dizer, louco de 
amor.
Quando um homem conta a sua vida, numa espcie de confisso, 
nunca deve ser interrompido. Tal como no caso de um doente dos 
nervos, existe uma regra sagrada que e  deixar falar. Ouvir. 
Ter pacincia. S fazer um sinal com a cabea de vez em 
quando, mas nunca interferir com palavras. Se, porm, houver a 
necessidade de dizer alguma coisa, deve ser sempre algo de 
encorajador, que permita ao que fala avanar no seu discurso e 
abrir mais uma vlvula. Deve-lhe ser transmitida a impresso 
de que se est realmente a ouvi-lo e que se est a compreender 
os seus sentimentos. H apenas uma coisa que nunca se deve 
fazer: perguntar pela razo das coisas. Ou at mesmo formar 
uma barreira de curiosidade ou de crtica. Uma pessoa que se 
abre desta forma e  igual a um ser que est a perder sangue, 
apenas com uma pequena, mas importante diferena: no fim, no 
morre; pelo contrrio, sente-se libertado e aliviado, feliz, 
exausto, devido a este esvaziar da sua alma. Afinal era isso 
que pretendia, cuspir o veneno do passado para fora e 
purificar-se para tentar um recomeo.
Maurice Depallier bebeu o resto de vinho que havia no seu 
copo, inclinou a cabea para trs e depois ficou calado. 
Parecia petrificado; apenas o ligeiro movimento do seu peito 
provava que ainda respirava. Lucrezia quis dizer qualquer 
coisa, mas Helena impediu-a com um gesto de mo. Olhou para 
Maurice, que parecia estar prestes a explodir.
-        Ela chamava-se Luliane... - disse, de repente. Disse-o 
to repentinamente que Helena estremeceu. - At consigo v-la 
 minha frente, alta, magra, com o cabelo loiro at s 
ancas... O seu cabelo parecia ouro em fio. Pode-lhes parecer 
ridculo, mas o seu cabelo era realmente assim, no h outra 
maneira de o descrever. Ela tinha o cabelo mais bonito que eu 
jamais vi. E o seu corpo era a coisa mais bonita que se pode 
imaginar. Onde quer que aquela rapariga aparecesse, o Sol 
brilhava com mais fora, as estrelas cintilavam de forma mais 
misteriosa, o mar ficava mais azul e os jardins floresciam por 
baixo dos seus ps. Chamava-se Lilhane e naquela altura tinha 
apenas dezanove anos. O pai dela trabalhava no matadouro, onde 
tratava dos resduos do matadouro, ou seja, das entranhas, das 
peles sangrentas, dos cascos cortados e dos cornos. Por isso, 
cheirava sempre a sangue. A me comeara a beber aos vinte e 
trs anos. Ningum sabe porqu. Talvez pelo facto de o marido 
cheirar constantemente a sangue? Quando Lilhane apareceu na 
minha vida, a sua me j era uma alcolica sem cura, com um 
fgado destruido e os nervos visuais afectados. - Depallier 
escorregou um pouco mais para a frente no banco, inclinando a 
cabea ainda mais para trs. Baixou os cantos da boca: seria 
um pequeno sorriso ou a expresso de nojo?
Ficou calado, e Helena no disse nada. Encheu o seu copo de 
vinho sem dizer uma palavra. Certamente que Maurice conseguia 
ouvir o vinho a cair no copo, porm no se mexeu. Permaneceu 
de olhos fechados, a recapitular toda a sua vida.
- e  preciso conhecer a famlia Depallier para compreender a 
minha histria. Os Depallier sempre foram uma famlia rica, 
mas algures, na profundidade da sua personalidade, so uns 
loucos. O mundo que os rodeia e  que no se apercebe disso e 
quando, s vezes, acontecem coisas estranhas entre este tipo 
de pessoas, costuma dizer-se num tom complacente:
os que esto em cima so mesmo assim! Podem-se dar ao luxo de 
terem um comportamento desses. Os ricos so todos doidos. 
Afinal de que e  que viveriam os jornais sensacionalistas se 
no fossem eles? Mas ningum sabe que na realidade acontecem 
verdadeiras tragdias. Acredite em mim, Helena. A histria com 
a Lilhane tambm foi uma tragdia. A minha me tinha um 
amante, um conde, cuja habilidade consistia em atirar o seu 
chapu de uma distncia de trs metros para o vestbulo sem 
nunca falhar o gancho. Ele fazia isso em casa de toda a gente 
e sempre que surgisse uma oportunidade. Por isso, chamavam-lhe 
o Comte de Chapeau. Suponho que a outra das suas qualidades se 
situava no mbito da cama. Nunca perguntei isso  minha me. A 
minha irm mais velha criava cobras que lhe obedeciam. O meu 
pai at mandou construir expressamente uma casinha para as 
cobras. A minha irm l ficava, dia e noite, sentada ao lado 
das bacias de vidro a observar com um ar encantado as suas 
cobras. O meu irmo Raymond participava em corridas de 
automveis, sempre num carro pintado de verniz cor-de-rosa e 
com um homossexual ao seu lado. As festas que dava para 
celebrar as suas vitrias tinham m fama. Prefiro no falar 
disso agora. Actualmente, est paraltico, depois de um 
acidente que teve, e vive em Marrocos, num pequeno palcio 
mouro onde mantm um corpo de bailado com danarinos nus 
constitudo naturalmente s por rapazes! A minha irm mais 
nova fugiu com um cantor de rock. Desde ento nunca mais 
apareceu. E o Jrme Depallier, o grande patriarca? Esse 
naturalmente tambm tem a sua amante, embora j s consiga 
andar com a ajuda de uma bengala. Foi nessa casa de doidos que 
por acaso conheci a Lilhane. Ela era amante do meu pai!
Depallier inclinou-se para a frente e bebeu o copo de vinho de 
um trago. Depois olhou para Helena e Lucrezia como um artista 
que est  espera de aplauso.
- A minha histria aborrece-as?
- e  agora que est a tornar-se interessante - redarguiu 
Lucrezia espreguiando-se com prazer.
- Eu parecia um embriagado depois de ter visto a Lilhane pela 
primeira vez...
- Eu tambm a consigo ver  minha frente... - murmurou Helena 
baixinho. - Um diabo com cabelo dourado.
Maurice voltou a recostar-se.
- Um diabo? Isso talvez seja exagerado! A Lilhane ficou 
ofuscada com a riqueza com que deparou em nossa casa. Ela era 
uma simples costureira das calas Depailier. O pai cheirava a 
sangue e a me estava sempre bbeda e, de repente, 
literalmente da noite para o dia, depara com o brilho de um 
mundo de sonho. Afinal, devia ser essa a imagem que essa 
rapariga tinha do nosso mundo. Um apartamento de luxo no 
Bulevar Hausmann, um carro desportivo vindo de Itlia, jias, 
peles, vestidos de alta costura, sapatos feitos  mo. e  que 
quando o meu pai via pernas to bonitas como as dela abertas, 
abria os bolsos! Voil, essa era a Lilhane. Eu conheci-a numa 
corrida em Longchamps, por acaso, sem saber que era o meu pai 
que cobria aquela beldade de ouro. Trs dias mais tarde, por 
volta do meio-dia, Lilliane tornou-se minha amante. Tambm eu 
lhe abria completamente os meus bolsos. Afinal tinha ficado 
louco nos seus braos, e aquele anjo dourado cobrava o dobro. 
Metade da familia Depallier pertencia-lhe. Mas eu no sabia 
disso. Ela repartia to bem o seu tempo, que o pai e o filho 
nunca ficavam aflitos. At quele dia vinte e trs de 
Setembro! Eu acabara de comprar um carro novo e, orgulhoso, 
queria mostr-lo  Lilhane. Queria fazer-lhe uma surpresa e 
aparecer a uma hora a que normalmente no costumava estar com 
ela. E quem e  que eu encontro no apartamento? Apenas com umas 
cuecas azuis no corpo, apoiando-se na sua bengala... um corpo 
horrvel, extremamente ridculo? O meu pai! "Eu j calculava 
que havia outro homem!", gritou. "Mas o meu prprio filho! 
Isto e  o cmulo! Maldito estupor!" Quis bater-me com a 
bengala, mas eu fugi do apartamento. Ainda consegui ouvir a 
Lilhane gritar: "Fica Maurice, no te vs embora!" Mas eu 
fui-me embora a correr e depois deambulei pelas ruas, 
completamente fora de mim. O meu anjo e o meu pai... S de 
imagin-los juntos na cama, talvez at no mesmo dia em que ela 
estivera comigo... Primeiro o pai e depois o filho ou ao 
contrrio... Era uma viso infernal!
Depallier respirou fundo e cerrou os punhos. Helena reteve a 
respirao.
-  noite - prosseguiu, devagar, mas acentuando bem as 
palavras -, decidi voltar para a Lilhane. Eu tinha de voltar a 
v-la. Nessa noite, apunhalei-a com uma faca de caa. A 
seguir, passei a noite inteira no carro e fui at Marelha. s 
sete da manh, estava na recepo da legio estrangeira, onde 
assinei o meu compromisso para com a legio. Tinha a certeza 
de que assim estaria seguro, de que era inatingvel e que 
continuaria a viver. Mas na verdade estava morto! - Esticou as 
pernas, pegou na garrafa, levou-a aos lbios, bebeu o vinho 
que restava e depois deitou-a ao mar. - e  esta a minha 
histria! Agora j sabem com quem e  que esto a lidar, minhas 
senhoras! Nada me conseguir impedir de sair daqui! A vossa 
sorte e  serem mulheres. Eu j no consigo matar nenhuma 
mulher. Se os vossos homens tivessem chegado primeiro, teriam 
sido eles a levar-nos, s que eles no teriam regressado. Eu 
aprendi a matar homens. Afinal, era essa a minha profisSo. 
Agora, entendem-me?
- No! - exclamou Lucrezia. Sentou-se nas pranchas e fitou 
Maurice com um grande sorriso.
- Claro que sim. Agora est tudo explicado! - interveio logo 
Helena.
- E se eu me recusar a ajud-lo, Maurice? - Lucrezia ps os 
braos  volta das pernas encolhidas e ergueu o olhar em 
direco a Depallier. Tinha aquele ar infantil que deixava os 
homens perplexos. - O que e  que faria? Afinal, ainda agora 
confessou que seria incapaz de nos matar...
- No e  preciso matar - declarou Depallier pensativamente e 
olhando para Lucrezia com a cabea baixa. - Eu aprendi a 
impor-me, em frica. Vocs nunca teriam foras suficientes 
para resistir aos meus mtodos. Toda a vossa fantasia no e  
suficiente para imaginar...
- O senhor e  um monstro!
- Talvez. Sim, talvez tenha razo! Mas isso tem alguma 
importncia? As senhoras levar-nos-o para onde ns queremos 
ir. Tudo o resto no interessa.
Levantou-se com um salto e dirigiu-se at s escadas, onde se 
cruzou com Mister Plump que estava a subir para se ir deitar 
um pouco ao sol. Ao contrrio do que seria de esperar, o co 
no se mostrou agressivo com Depallier, no agarrou a sua 
perna, nem mostrou os dentes. Pelo contrrio, at abanou a 
cauda, fitou-o com um ar fiel e encostou-se  parede para que 
Maurice pudesse passar. Helena seguiu esse encontro to 
harmonioso com um olhar incrdulo.
-Traidor... - sussurrou ao co, quando este chegou perto dela 
e quis ser acariciado. - Com tudo o que se passou, eu nem 
sequer me lembrei de ti! Tu devias ter defendido o nosso 
barco! Mas o que e  que fizeste? Simplesmente, abanaste a 
cauda! Se calhar, at deste as boas-vindas aos senhores 
assaltantes! e  esse o comportamento de um verdadeiro co de 
bordo? Vai-te embora, cobarde! Judas! Vai!
Mister Plump lanou um longo olhar, primeiro a Helena e depois 
a Lucrezia. Parecia no estar a compreender o motivo daquela 
descompostura. Para ele, o que contava era o cheiro das 
pessoas e, como Maurice Depallier cheirava bem, a raiva da sua 
dona no fazia sentido. Por isso virou-se, ofendido, e foi-se 
deitar no tecto dos camarotes ao lado da bia de salvao.
-        Quando partirmos daqui durante a noite - disse Lucrezia 
baixinho -, eu deitarei tinta vermelha para a gua. Tinta de 
leo que se mantm  superficie durante muito tempo. O 
helicptero ou os barcos que nos procurarem iro reparar na 
mancha na gua. Assim pelo menos tero uma pista!
-        Se e  que ainda nos procuraro nessa altura, Luzi!
- O Peer e o Jan no desistem! Isso est claro!
-        Tudo depende daquilo que as autoridades decidirem - notou 
Helena. - Quem sabe se daqui a alguns dias o Peter e o Jan no 
tero perdido todo o apoio...

O quartel da Polcia de Tarrafal tornara-se num 
quartel-general. Uma comisso constituda por um comissrio, 
dois subcomissrios e um capito da armada viera da cidade da 
Praia com um helicptero. O capito queria certificar-se de 
que seria necessrio envolver unidades da armada nessa busca, 
j que isso normalmente s acontecia em casos excepcionais e 
apenas era possvel com ordens superiores.
Trosky tinha provas irrefutveis para demonstrar a urgncia 
daquele caso. Tirou uma fotografia a cores do bolso, de
cuja existncia Losskov nem sequer sabia. Pela primeira vez e 
apenas devido  sua aflio, Trosky desvendou o seu segredo.
Era uma fotografia que tirara durante os treinos na ilha de 
borracha, na qual se via Lucrezia de uma nudez encantadora, 
sentada na beira da ilha de borracha, acenando com a mo.
- Eu entrarei imediatamente em contacto com o quartel-general! 
- comunicou o capito aps ter contemplado a fotografia 
durante longos minutos. - Realmente, trata-se de um caso de 
extrema urgncia!
O chefe da Polcia de Tarrafal ordenou uma srie de medidas 
nunca antes vistas pela populao da cidade. Estava 
visivelmente orgulhoso por finalmente ter entre mos um 
verdadeiro caso e no ter de se limitar apenas a tratar das 
pequenas intrigas quotidianas, das pancadarias nas tabernas ou 
dos enganos ao pesar a mercadoria. Agiu como um inspector da 
Polcia Judiciria nos filmes: interrogou todos os habitantes 
da zona porturia e convocou para a esquadra da Polcia todas 
as pessoas que tivessem de alguma forma contactado com as duas 
senhoras. Foi assim que se ficou a saber que os proprietrios 
do supermercado tinham visto a largada do barco. Um 
trabalhador conseguira ainda ver de longe que realmente tinham 
sido apenas as duas mulheres a iar as velas. Os nicos a 
acompanharem o desenvolvimento dos acontecimentos por completo 
tinham sido trs ces rafeiros que passeavam pelo cais, mas 
esses no podiam relatar nada. Ningum interrogou o pequeno 
rapaz do supermercado... No se lembraram dele no meio da 
confuso.
- Permanecemos perante um mistrio - disse Trosky, depois de 
terem concludo o interrogatrio.
- Quem e  que poderia ter interesse no nosso barco? E para ir 
para onde? O barco d tanto nas vistas que pode ser 
reconhecido imediatamente em qualquer porto. Ningum rouba um 
barco  vela para o esconder e depois deix-lo apodrecer.
- Uma coisa e  certa - afirmou o capito, seguro de si. - 
Agora que demos alarme, eles no se podero afastar das ilhas 
cabo-verdianas! Sero logo vistos!
- E durante quanto tempo pretendem procurar? - perguntou 
Losskov, preocupado.
- At os termos encontrado! - declarou o capito, orgulhoso.
- Os bandidos pensaro da mesma maneira e jogaro com o tempo. 
Eles tambm sabem que, o mais tardar daqui a uma semana, ns 
desistiremos da busca. - Trosky lanou um rpido olhar a Peter 
e virou-se. At ele sentia o desespero de Losskov. - Queres 
transmitir para Hamburgo que est tudo acabado?
- No. Ainda no. Eu no perco a esperana.
 noite, ficariam com a certeza de que o primeiro dia estava 
perdido. A busca  volta de Santiago com a ajuda de barcos da 
Polcia e de dois helicpteros militares fora interrompida ao 
cair da noite. Apenas dois barcos da Polcia patrulhavam entre 
Santiago e Fogo e Santiago e Maio, as ilhas vizinhas, 
controlando todos os barcos com que se cruzavam. Porm, esta 
iniciativa devia ser considerada mais como uma prova de boa 
inteno do que uma aco eficaz, j que era quase impossvel 
controlar toda a zona das ilhas com apenas dois barcos.
No edifcio da Polcia de Tarrafal, o chefe da Polcia estava 
a conduzir uma reunio geral. Afixara um mapa na parede, no 
qual marcara as reas que j tinham sido revistadas a partir 
do mar ou do ar. Trosky olhou para o mapa com um ar 
desmotivado. Losskov fumava um cigarro aps outro com gestos 
nervosos e bebia a fortssima aguardente de acar que lhe 
davam. Era previsvel que em breve casse da cadeira.
- A costa e  rochosa e tem inmeras grutas! - pronunciou-se o 
chefe da Polcia, solene. Adaptara-se perfeitamente  sua nova 
tarefa de um comandante-geral. - Porm, no proporciona muitos 
esconderijos. A rebentao e  forte e as correntes 
imprevisveis. Durante a mar cheia, o mar bate com toda a 
fora contra as grutas. S algum que saiba muito de barcos, 
seria capaz de superar uma situao dessas. As senhoras sabem 
manejar bem o barco?
O capito traduzia aquilo que o chefe da Polcia dizia. Peter 
von Losskov abanou a cabea.
-No!
- Ora, ento!
- e  claro que elas sabem o mnimo. Treinmos arduamente, 
sobretudo para situaes de emergncia. Para o caso de uma 
avaria. Mas uma situao to difcil como ter de navegar por 
entre estreitos tneis e grutas at a mim me colocaria 
dificuldades.
- Isso quer dizer que elas tm de estar algures numa baa! - 
exclamou o chefe da Policia com um ar triunfante.
- Isto, partindo do pressuposto de que os bandidos que levaram 
o barco no so eles prprios ptimos marinheiros.
- Porque haveriam eles de o ser?
- Quem haveria de roubar um barco desses sem saber como o 
manejar?
- Est bem! J compreendi onde quer chegar! - gritou o chefe 
da Policia. - Est a dizer que um dos nossos pescadores levou 
o barco!
- At podem ter sido dois ou trs.
- Aqui s vivem pessoas honestas e pacficas! O que faria um 
dos nossos com um barco desses?!
- Vend-lo!
- Onde? - berrou o chefe da Polcia. - No mercado da cidade da 
Praia? Um barco desses no se pode vender! J aqui foi dito 
que uma embarcao como essa d nas vistas!
- Podia ser vendido na Gmbia ou no Senegal.
- Primeiro, tem de se chegar l! - O capito da armada 
interrompeu aquele raciocnio com um gesto de mo. Acha que 
algum daqui roubaria um barco to vistoso como esse e 
correria tantos riscos para, em seguida, vend-lo?
- Para dois ou trs pobres pescadores, os lucros da venda 
representariam uma fortuna.
- Nada disto faz sentido! - exclamou Losskov agarrando o copo 
com aguardente com mais fora. - Ns estamos aqui a falar e a 
falar e ningum pensa naquilo que as raparigas estaro a fazer 
neste preciso momento. Ou naquilo que lhes aconteceu.
- Ainda bem que mencionou isso. - O chefe da Polcia, que 
estava profundamente ofendido por se ter insinuado que podia 
ter sido um cabo-verdiano a roubar o barco, levantou o dedo 
indicador num gesto demonstrativo. - Ns temos testemunhas 
oculares que afirmam terem sido as duas senhoras que iaram as 
velas!
-        Apenas, porque foram obrigadas a faz-lo! - exclamou 
Losskov, indignado.
-        Ns partimos desse pressuposto. Mas quem e  que pode 
provar que isso e  verdade? No temos provas de que houvesse 
mais algum a bordo.
-        O senhor est a insinuar que as raparigas quiseram...? - 
gritou Trosky.
-        Eu apenas estou a enumerar as diferentes hipteses! - 
respondeu o chefe da Policia tambm a gritar. - Quem e  que me 
diz que este desaparecimento do barco no e  apenas uma 
farsa!?
-        Quem nos quiser convencer disso leva um murro! - clamou 
Losskov, cerrando os punhos.
De repente, perdeu o equilbrio e escorregou da cadeira. 
Trosky j estava  espera disso. Deixaram-no sentado no cho, 
encostado  parede, e mostraram compreenso pelo seu estado de 
embriaguez. Nem todos os homens tm nervos para suportar a 
perda de um barco e de uma mulher bonita sem fraquejarem.

Permaneceram quatro dias e quatro noites na gruta. O barco 
baloiava tranquilamente na gua pouco agitada. Quando a mar 
estava cheia, o nvel da gua subia dentro da gruta e o espao 
tornava-se mais reduzido ainda; porm, as vagas grandes e 
cheias de espuma quebravam-se sempre do lado de fora, em 
frente s falsias, antes das colunas de lava. Ainda ouviram 
algumas vezes os helicpteros que sobrevoavam a zona e, embora 
no conseguissem ver os barcos que os procuravam, sabiam que 
eles deviam estar a percorrer a costa.
- O que e  que far se um barco da Polcia entrar nesta gruta? 
- perguntou Lucrezia num desses dias.
Maurice respondeu com sinceridade:
- No sei. At agora no considerei essa hiptese. Se isso 
acontecer, terei de agir espontaneamente. Apenas sei que seria 
uma situao bastante desagradvel.
Passaram os dias na gruta a dormir, nadar, jogar s cartas, 
pescar e cozinhar. Maurice contava histrias da legio 
estrangeira e Silva ficava calado, dado que s dominava o 
crioulo. No entanto, jogava com Lucrezia at  exausto. 
Quando ganhava, ficava radiante como uma criana e quando 
perdia punha-se a praguejar na sua lngua, e uma vez teve 
tanta raiva que at mordeu no seu bon.
Depallier e Helena jogavam xadrez; porm, o que Maurice mais 
apreciava era ficarem no salo enquanto Helena tocava os seus 
discos: o Concerto para Piano n.o 1 de Tchaikovsky, intermezzi 
de peras italianas, passagens do Tannhtfer ou do Lohengrin, 
sinfonias de Beethoven ou de Brahms, Nocturnos de C'lopin ou 
peas de grandes cantores com as mais bonitas rias de peras. 
Maurice fechava os olhos e as suas mos mexiam-se ao ritmo da 
msica. Nessas alturas, mergulhava no seu mundo de sonho.
-        A Callas costumava ser uma hspede privada em nossa casa 
- declarou uma vez, depois de ter ouvido uma ria da Norma -, 
e cantava para os nossos convidados, porque gostava do meu pai 
e porque o Onassis tinha dez fatos Depailier que lhe ficavam 
bem. Isso era admirvel... Afinal quem e  que jamais viu o 
Onassis com um fato que lhe ficasse bem?! At mesmo os seus 
smokings eram uma vergonha. E nunca mais me esquecerei como o 
Mano del Monaco cantou um dueto comigo, depois de eu lhe ter 
implorado. Eu dou um ptimo bartono e, naquela altura, o Mano 
disse: "Se tiveres aulas regularmente, talvez qualquer dia nos 
cruzemos nos bastidores, rapaz. Mas para que e  que um 
Depallier havia de cantar? Eu no me recordo de nenhum filho 
de milionrios que se tivesse tornado um grande cantor de 
pera... As pessoas que passam fome e  que se tornam grandes 
cantores. e  pena, porque tu tens talento!" Quem tinha aulas 
de canto era a minha me, mas isso apenas porque gostava muito 
do professor. - Depallier acabava sempre por falar da sua 
famlia. Parecia odi-la profundamente, por ter afogado a sua 
juventude em ouro.

Mister Plump tornara-se entretanto um caso srio. Sentava-se 
no colo de Depallier, dormia aos seus ps, lambia-lhe as mos 
e olhava para Helena com uns olhos to grandes que esta at 
comentou:
- Maurice, este co deve ser perverso. Costuma-se dizer que os 
animais reconhecem os homens bondosos. Mas o comportamento de 
Mister Plump e  verdadeiramente escandaloso! Afinal, voc e  
um assassino e e  doido!
- Eu sou vtima de uma mulher.
- Isso no desculpa tudo o que fez.
- Talvez tenha razo. - Depallier montou o jogo de xadrez. - 
Mas uma pessoa como eu tem de arranjar uma desculpa qualquer 
para continuar a viver. Helena, que cor e  que quer?
- Branco!
- A primeira jogada e  sua. Eu farei a ltima... Como deve 
ser. - Riu-se discretamente. - V-se habituando  ideia de que 
eu no fim acabo sempre por ganhar, Helena.

Durante os dois dias seguintes no ouviram mais nada do 
exterior. A busca devia estar a ser centrada noutra parte da 
ilha. J no se ouvia o barulho encorajador dos helicpteros e 
nada provava que a busca continuasse. No quarto dia, o vento 
tornou-se mais forte, as ondas entravam na gruta ou batiam l 
fora nas rochas de lava, e o vento assobiava. Eram ondas de 
vrios metros de altura que se quebravam  entrada da gruta. O 
barco era agitado com uma fora impressionante, aproximando-se 
perigosamente das paredes da gruta. Helena lanou mais uma 
ncora. Serviu-se de todas as defensas para abafar um possvel 
embate acabando por erguer as mos num gesto desesperado.
- No posso fazer mais nada, Maurice!
- Esta tempestade vale ouro! - respondeu ele, satisfeito.
- Mesmo que nos atire contra a parede rochosa da gruta?
- Isso no acontecer. O Silva e eu guardaremos o barco de 
noite. - Mostrou um grande sorriso. - Imagine o que 
aconteceria connosco se nesta altura estivssemos l fora, no 
mar!
- Seria horrvel!
- e  exactamente isso que esto a imaginar os nossos 
perseguidores. Eles acham que e  impossvel ns sobrevivermos 
a esta tempestade! Diro que o barco se afundou! A busca 
acabar! No podia haver nada melhor para ns do que esta 
tempestade. Agora esquecer-nos-o.
- Com que ento acha que e  isso que eles pensaro! - proferiu 
Helena com uma voz calma. "Ele no sabe que este barco no se 
afunda", pensou satisfeita. "Uma simples tempestade no o 
consegue afundar. Para isso seria necessrio que o casco fosse 
despedaado! A partir de agora ele partir do pressuposto de 
que j ningum anda  nossa procura. E, por isso, tudo o que 
ele fizer ser errado. Ele tem a certeza daquilo que diz. 
Devemos apoiar essa ideia." Por isso, disse: Talvez realmente 
nos acontea qualquer coisa se a tempestade piorar.

A noite foi dramtica. Ningum dormiu. Tiveram de permanecer 
todos no convs, ao lado das defensas, com varas na mo para 
afastar o barco das paredes da gruta quando este se aproximava 
demasiado. As ncoras de pouco lhes serviam; a gua rodopiava 
dentro da gruta, arrastando o barco ora para a esquerda, ora 
para a direita. O tecto da gruta era formado por rochas de 
lava, que h muitos anos tinham sido fundidas pelo calor 
inimaginvel do vulco, expelidas do interior da terra e que 
depois se tinham petrificado no mar em formas bizarras. Agora, 
o vento sibilava por entre as rochas. A gruta tinha o efeito 
de um funil que ampliava os sons como um megafone, 
expulsando-os de seguida pela entrada da gruta, onde chocavam 
com as enormes ondas e com o oceano que atirava as massas de 
gua contra as rochas que formavam um obstculo.
Foi uma noite infernal, sem hiptese de proteco, apenas com 
a esperana de evitar que o barco se despedaasse, o que 
poderia custar a vida.
Pela manh, a tempestade acalmou. Lucrezia e Mister Plump 
deitaram-se na cama, exaustos, enquanto Helena preparava um 
ch e Jorge Silva rezava uma orao na proa, o que era 
admirvel para um gatuno como ele. Persignou-se e depois 
apontou a pequena cruz de ouro que trazia  volta do pescoo 
em direco ao mar. Maurice Depallier verificou as ncoras e 
as defensas e depois foi para baixo, onde se deitou num banco 
almofadado e se ps a observar Helena. Esta, depois de ter 
preparado o ch, tirou uma garrafa de rum do armrio de 
parede. Tal como Depallier, tambm ela estava completamente 
encharcada, apesar do oleado, que usava h j quase quarenta 
horas. Pingos de gua salgada escorriam do seu cabelo louro.
-        Voc e  uma mulher maravilhosa, Helena - comentou Maurice 
enquanto tirava as botas que estavam cheias de gua. - 
Primeiro, devia despir-se. Este ch j no vai safar-nos de 
uma constipao. e  uma pena eu t-la conhecido nesta 
situao. Se eu pudesse, teria tratado bem de si.
-        Eu amo o Peter - disse Helena calmamente. - E s ele.
-        Isso e  invejvel. - Depallier despiu a sua camisola 
molhada e ficou em tronco nu. - Quer que eu lhe diga uma 
coisa? No quer saber porque e  que isto tudo est a 
acontecer? No est curiosa?
-No.
-        Trata-se de dois sacos de pele. De dois grandes sacos de 
pele, que contm toda a futura vida de Maurice Depallier.
Entretanto, apareceu Jorge Silva. Estava completamente 
encharcado e despiu-se sem qualquer pudor, envolvendo-se de 
seguida numa grande toalha que Helena lhe estendeu. Rangia os 
dentes, como um co. Lucrezia, que estava deitada na cama e o 
observava, abanou a cabea. "Meu Deus", pensou. "Para uma 
mulher se envolver com um homem destes tem de estar mesmo 
carente."
O ch com o rum soube muito bem depois daquelas longas horas 
de luta contra o mar. Silva bebeu-o como um leito bebe leite, 
Depallier bebeu-o em goles pequenos e rpidos e at Mister 
Plump saiu da cama e se aproximou abanando a cauda.
-        Traidor! - murmurou Helena com um ar de desprezo. - Mas 
espera, que ters aquilo que mereces.
Deitou um pouco de ch com rum no bebedouro do co, juntou 
gua fria para o arrefecer e depois adicionou mais um pouco de 
rum. Depallier olhou para ela, admirado.
- Este co e  um alcolico?
- No! Mas eu quero que se sinta horrivelmente enjoado, para o 
castigar!
- Talvez ele at goste. Um co embriagado mostra traos 
humanos. Eu j vi isso na ilha de Crsega, na legio. Havia um 
bar, cujo dono tinha um co. Era enorme, com manchas brancas e 
pretas, um co maravilhoso. S que era um verdadeiro 
alcolico. Aquele co bebia mais do que dois homens juntos. E 
quando estava embriagado punha-se a danar e a urinar, andava 
s voltas com apenas trs patas e ia contra as cadeiras. At 
arrotava! Ns gostvamos daquele co como se fosse nosso 
irmo. Ainda deve estar vivo, se e  que no bebeu at morrer.
Mister Plump bebeu o ch com rum com muito prazer e depois 
soluou. O seu corpo comeou a ser abanado to fortemente 
pelos soluos que quase caa. Decidiu retirar-se para a cama, 
onde se enrolou e depois ressonou.
- Acho que vou fazer o mesmo - disse Depallier e bebeu a 
terceira chvena de ch. - Todos ns estamos no limite das 
nossas foras. Hoje ningum ficar de vigia durante a noite. 
Por isso, tenho de pedir desculpas, mas esta noite vejo-me 
obrigado a amarrar as senhoras.
- Veja l se e  capaz! - exclamou Lucrezia.
- Lucrezia, ns demo-nos to bem durante estes ltimos dias. 
Porque e  que agora, de repente, est a causar problemas?
- Eu no permito que me amarrem!
- E eu no deixo que nada me impea de alcanar a liberdade 
que agora vejo mais prxima do que nunca! Prefiro ir pelo 
seguro!
- Ento ter de me obrigar! - gritou Lucrezia, levantando-se 
com um salto da cama. Parecia um animal selvagem que se sentia 
ameaado.
- O Jorge Silva tratar disso.
- Seu malvado, abusador!
Depallier virou-se para Helena que tinha uma toalha  volta do 
cabelo molhado.
- Tambm se recusa, Helena?
- No. No adiantaria nada.
- Seria possvel explicar isso  sua amiga?
- Eu no fugirei a nado! - gritou Lucrezia. - Prometo que no!
- Amarr-las ser mais seguro. - Depallier sorriu. - Por 
favor, compreendam que eu fao tudo para conseguir ter uma 
vida nova, que tanto desejo! Mesmo que me arrisque a ser 
desprezado pelas senhoras.
Bebeu mais uma ltima chvena de ch com rum, tirou quatro 
cordas finas da caixa de ferramentas e fez alguns laos. 
Esperou que Helena tivesse vestido umas calas secas e uma 
camisola e depois amarrou-lhe os braos atrs das costas, 
deixando as pernas soltas. Lucrezia, no entanto, bufava como 
uma gata e insultava-o; Maurice decidiu atar-lhe igualmente as 
pernas.
- No seu caso, Helena, acho que no preciso de amarrar as 
pernas - disse. - Acho que e  suficientemente sensata para no 
se aproveitar disso. Boa noite.
Levou Lucrezia e Helena para o camarote duplo e fechou a 
porta. Lucrezia deu um pequeno salto e atirou-se para cima do 
estreito beliche.
- Afinal ele e  mesmo um estupor! - gritou, furiosa. Pode ter 
o charme que quiser! Onde est o Mister Plump?
- Est com ele!
- Homens! - Lucrezia fez uma careta que exprimia nojo. - O 
Mister Plump perdeu toda a minha confiana! O que e  isto?
Na porta, ouviu-se um arranhar. Helena bateu ligeiramente com 
a ponta dos sapatos na porta.
- O que e  que est a acontecer? - gritou.
- O Jorge Silva vai-se deitar em frente da vossa porta, Helena 
- respondeu-lhe Depallier. - Assim, se a quiserem abrir, tero 
de empurr-lo primeiro para o lado. Isso f-lo- acordar de 
certeza.
- Eu bem dizia que ele e  um canalha! - Lucrezia 
espreguiou-se. Poucos minutos depois, o rum f-la adormecer.

Tal como Depallier esperara, em Tarrafal, a tempestade 
alterara muita coisa. Os helicpteros no podiam levantar voo 
e os barcos da Policia procuravam abrigo no porto. Com aquelas 
condies climatricas, era impossvel permanecer no mar. As 
ondas eram mais altas do que o muro do cais e at faziam 
buracos no dique de pedra. Os barcos de pescadores que ainda 
se encontravam na gua eram rapidamente trazidos para terra; 
dois pequenos cargueiros que se encontravam no porto danavam 
perigosamente na gua agitada e ameaavam soltar-se dos cabos. 
Constituam a maior preocupao dos trabalhadores do porto: se 
fossem atirados contra o muro ou para a areia, seriam 
completamente destruidos. A proposta de que poderiam partir 
contra o vento e esperar no mar alto, foi recusada pelos 
capites. No eram pagos para serem heris.
- Isso quer dizer que se perderam todas as esperanas - 
concluiu o chefe da Policia com sinceridade.
Enquanto a tempestade ameaava arrancar os telhados, varria as 
ruas e o barulho do mar abafava qualquer outro som e as 
pessoas nem sequer tinham coragem de sair para a rua, Peter e 
Trosky encontravam-se no quartel da Polcia e bebiam um vinho 
do Porto juntamente com o capito da cidade da Praia, o chefe 
da Polcia, o comandante de um barco da Polcia e dois pilotos 
de helicptero.
- Eles no sobrevivero a uma tempestade destas no mar alto - 
acrescentou o chefe da Polcia. - Nem mesmo se estiverem num 
esconderijo na costa. A fora das ondas atir-los- contra as 
rochas e tudo o que restar deles sero estilhaos!
- Aquele barco nunca se afunda! - afirmou Peter von Losskov. - 
O mximo que lhes pode acontecer e  que o mastro se parta. Mas 
o barco no se afunda!
- Isso no e  possvel! - retorquiu o chefe da Polcia com um 
sorriso condescendente. - Todos os barcos se afundam!
- Mas este foi construdo segundo um mtodo de construo 
especial.
- O oceano dar cabo dele.
- Do plstico, no. Ns fizemos vrias experincias.
-        Mas se for atirado contra as rochas...
-        Ento, sim - disse Peter, lentamente. - Esperemos que 
isso no acontea.
-        Mas temos de contar com isso. H muito tempo que no 
havia uma tempestade destas! E, assim, de repente! Apareceu 
to inesperadamente! Oia bem o que est a passar-se l fora. 
O mar est a destruir o muro do nosso porto! E os senhores 
falam num barco que nunca se afunda! Julgo que depois desta 
tempestade poderemos interromper a busca.
- Eu sou contra essa resoluo! - protestou Trosky, num tom de 
voz irritado. - Continuaremos a procurar. Um barco como o Helu 
no pode desaparecer! Ele ir algures! - Aproximou-se da 
janela e olhou para o porto. As vagas tinham vrios metros de 
altura e dobravam-se sobre o muro do cais. O cu estava 
amarelo-plido, impregnado de areia do deserto.
"Meu Deus", pensou Trosky. "Se realmente estiverem no alto mar 
s tero uma coisa a fazer: amarrarem-se e esperarem. O barco 
no se afunda, mas quem e  que ainda acredita nisso com uma 
tempestade infernal?"
Afastou-se da janela e voltou para perto dos outros.
- O que e  que acontece se apanharmos os piratas? - perguntou.
-        Iro para a priso.
-        Isso e  suprfluo. - Trosky cerrou os punhos. - Basta 
deixarem-me cinco minutos a ss com eles! - Como os outros no 
lhe responderam, comentou, pensativo: - Como eram simples as 
coisas, antigamente, quando se apanhava um pirata. Havia uns 
ganchos no mastro que serviam para os enforcar! E, mesmo 
assim, eram navegadores cristos.

Na quinta noite, chegara a hora. O mar acalmara-se:
havia apenas algumas ondas compridas. O vento tinha a 
velocidade quatro, o cu estava limpo e coberto de estrelas 
com uma lua em quarto crescente.
- e  o tempo perfeito para viajar - declarou Maurice 
Depallier, satisfeito. - Quando a mar estiver baixa, 
partiremos. - Era a nica maneira de sarem da gruta. O vento, 
que entrava pelo tecto irregular da gruta, era fraco de mais 
para fazer avanar o barco. No dispunham de um motor, e assim 
voltou a provar-se que o protesto de Trosky contra a falta de 
motor fora justificado.
- Servir-nos-emos do grande remo - disse Depallier. - Quando 
tivermos sado da gruta haver mais vento e poderemos sair 
para o mar alto. - Olhou para Lucrezia com um sorriso sedutor. 
- O mais tardar, daqui a vinte e quatro horas estaro livres 
de ns.
- Mostre-me esses tais dois sacos, Maurice - lembrou Helena, 
enquanto vestia o oleado. O vento soprava com a velocidade 
quatro, e as ondas eram to grandes que de certeza algumas 
delas iriam cobrir o barco.
- e  verdade! - Depallier anuiu com a cabea. - Eu tinha-lhe 
prometido isso. A minha nova vida dentro de um saco! - Abriu a 
porta do paiol da palamenta e tirou de l um saco de pele j 
muito gasta que estava fechado com grossas correntes de pele e 
fivelas. Quando pousou o saco na mesa, ouviu-se um barulho 
metlico.
- Este e  o novo Depallier! - afirmou, num tom de voz 
ligeiramente dramtico. - Espero bem que este seja diferente, 
melhor do que o anterior...
De repente, fez-se silncio no pequeno salo. Lucrezia, que 
estava a calar as botas de borracha, parou de repente e ficou 
encostada  parede com apenas uma bota calada. S Jorge Silva 
disse algo em crioulo.
- Cala-te! - respondeu-lhe Depallier bruscamente.
- O que e  que ele disse? - perguntou Helena.
- Ele acha que no vos deveria mostrar isto.
- Talvez tenha razo.
- Vocs iro denunciar-me? Porqu? Eu tratei-vos bem, 
deixei-vos viver, o que no e  assim de to pouca importncia! 
E deixar-vos-ei partir em liberdade. Isso j vale alguma 
coisa, no acham? - Sentou-se  mesa, pegou no saco, bateu 
nele com o punho e dirigiu-se a Helena: - Abra-o.
-Eu? Porqu?
- Tem medo de ser culpada de algo?
- Isso seria um medo estpido. - Helena desfez os ns, desatou 
a fivela e depois abriu o saco. Lanou um rpido olhar para o 
seu contedo e depois largou-o, encostando-se para trs.
- Ento o que e  que v? - perguntou Depallier.
- Moedas em ouro.
- Moedas em ouro. Diz isso de uma forma to simples:
moedas em ouro! Minha querida, voc nunca viu uma coisa 
parecida! Se o director de um museu visse estas moedas, teria 
um ataque cardaco! Elas tm cunhos de imperadores romanos, 
cunhos privados do Rei Sol, Lus XIV, e h tambm moedas 
bizantinas, cunhadas em ouro puro, dos tempos dos 
conquistadores, ouro que pertenceu aos Astecas, aos Incas e 
aos Maias, e no qual ainda est colado o sangue desses povos 
desaparecidos. So moedas de cuja existncia hoje em dia quase 
ningum sabe e que o homem a quem as tirei s as pode ter 
obtido por vias ilegais. E voc diz "moedas"! Isto e  um 
tesouro com um valor incalculvel!
- Parabns, Maurice! - disse Helena, friamente.
- Obrigado, madame. - Depallier inclinou-se para a frente, 
enterrou as duas mos no saco, encheu-as com as moedas de 
ouro, ergueu-as e depois deixou cair as moedas com um barulho 
tilintante para dentro do saco. Repetiu isto vrias vezes... 
Pareciam cascatas de ouro. Os seus olhos brilhavam. - Eu 
compreendo que haja pessoas que gostem de nadar em ouro - 
afirmou, devagar. - Realmente, e  uma sensao muito estranha 
ver todo este ouro e ouvir o seu barulho.
- Mas no ser fcil comear uma vida nova com isso, Maurice. 
Quem e  que vai comprar esse ouro todo? Quem souber da 
existncia dessas moedas vai tambm querer saber de onde e  
que elas vieram. E depois ser perseguido!
- Existem suficientes coleccionadores dispostos a pagar 
milhes por isto. Escondero as moedas no cofre e no diro 
nada a ningum. Sobretudo na Amrica. So coleccionadores 
fanticos que normalmente agem  margem da lei. Eu nem quero 
imaginar quantas das obras de arte que desapareceram dos 
museus no esto agora em casas privadas, em galerias 
subterrneas, protegidas como se fossem cofres bancrios. - 
Depallier colocou a mo no saco e lanou um olhar depreciativo 
a Helena - Adivinhe quantos milhes isto vale!
- No fao ideia. Dois?
- O valor do ouro talvez seja esse. Mas eu estou a falar do 
dinheiro que os coleccionadores dariam por isto! - Depallier 
ergueu-se, fechou o saco e depois apoiou-se nele. - O outro 
saco contm a mesma quantidade de ouro. Agora, compreende 
porque e  que eu preciso de vocs e do vosso barco? Em Maio, 
escapo-me rapidamente. E um belo dia viverei com calma e 
tranquilidade algures neste grande e infinito mundo, e no 
haver razo para eu dar nas vistas. e  s isso que eu quero: 
viver em paz. - Pegou no saco e voltou a arrum-lo. - Bem, e 
agora vamos a isto! Todos para o convs! Eu e o Silva ficamos 
com os remos. A Helena vai navegar e a Lucrezia que se prepare 
para iar as velas mal sinta a mais ligeira brisa. Suponho que 
isso acontecer logo no canal de sada da gruta. E depois 
navegaremos a todo o pano pelo mar!
- Sim, capito! - Lucrezia passou por ele e ficou parada ao 
lado das escadas. - Maurice, o senhor e  um egosta! Pelo 
menos, poder-nos-ia ter dado uma moeda inca. Daria um bonito 
pingente, uma espcie de talism que de agora em diante nos 
protegeria de pessoas como o senhor.
Meia hora mais tarde, encontravam-se no oceano, de vento em 
popa e tinham iado a genoa 1 e a vela de balo. O mar estava 
ainda ligeiramente agitado, mas j no era perigoso. O barco 
singrava a alta velocidade pelas ondas, afastando-se cada vez 
mais da costa rochosa da cidade da Praia em direco a 
noroeste. Se continuassem assim, Maurice Depallier chegaria ao 
seu destino antes do amanhecer, e aquela aventura teria 
finalmente chegado ao fim. Ao nascer do dia seguinte, 
aproximaram-se da ilha de Maio. Conseguiam ver as salinas por 
entre a bruma, e navegaram ao longo da costa, at Depallier 
descobrir uma baa deserta rodeada de pequenas rochas 
fendilhadas.
- Dirijam o barco para aquela baa! - berrou. - Helena, voc e  
uma mulher extraordinria! Eu farto-me de repetir isso! O seu 
marido, o seu noivo ou quem quer que ele seja, e  uma pessoa 
invejvel. Eu, pessoalmente, acho que est a ser desperdiada! 
Ali, iremos para terra e depois ver-se-o finalmente livres de 
mim!
Entraram na baa, sempre a sondar, dado que o fundo do mar 
subia rapidamente e tinha recifes formados por lava 
arrefecida, cujas pontas mais pareciam gigantescas facas que 
facilmente poderiam cortar o casco do barco. Chegaram  costa 
que formava uma espcie de planalto que se estendia pelo mar e 
onde amarraram o barco. Jorge Silva saltou para terra, apanhou 
os cabos que Lucrezia lhe lanou e amarrou
-os  volta de pequenas rochas.
Depallier desceu para a cabina, voltou com os sacos de pele e 
pousou-os no cho. Trazia um saco de viagem  volta dos ombros 
com roupa, as coisas necessrias para se barbear e mais um par 
de sapatos.
-        Chegou a hora da despedida! - exclamou.
-        No lhe d um ar to festivo. - Helena estava encostada 
ao mastro. - V-se embora!
-        Nem sequer me deseja sorte?
-        Estava  espera disso, Maurice?
-        Eu julgava que nos tivssemos aproximado um pouco um do 
outro. Eu fui sincero consigo, talvez at mesmo de mais. - 
Depallier aproximou-se da balaustrada. Jorge Silva estava na 
plataforma de rochas e estendeu-lhe um pau para ele subir. - 
Estou a ficar pensativo.
-        E o dia est a nascer.
-         verdade! Durante alguns dias esqueci-me que as senhoras 
representam um risco para mim.
Depallier foi para terra, pousou os pesados sacos de pele nas 
rochas e depois voltou a saltar para o barco. Desceu para a 
cabina sem dizer uma palavra, voltou com uma faca e com fortes 
golpes destruiu todo o cordame, tornando impossvel iar uma 
vela. Lucrezia cerrou os punhos, baixou-se e atirou uma 
pequena e dura defensa contra Depallier. Este agachou-se, 
agilmente, cortou os ltimos cabos e depois atirou a faca para 
o mar.
-        Que grande canalha! - gritou Lucrezia. - Eu sempre disse 
que ele era um grande canalha!
Depallier voltou para a plataforma, Silva soltou as cordas que 
seguravam o barco s rochas e depois, com a ajuda do longo 
pau, deu um forte empurro no barco. O Helu afastou-se da 
margem, baloiando nas ondas. Podia-se gui-lo, mas sem velas 
ficava quase imvel. Nessa altura, sentiram grande falta do 
tal motor auxiliar que Peter no quisera instalar. Helena 
correu at ao leme, endireitou o barco, e Lucrezia lanou a 
ncora que tocou imediatamente na areia, j que o mar ali no 
era muito fundo.
Em terra, Maurice Depallier acenou-lhes uma ltima vez antes 
de desaparecer juntamente com Silva por entre as rochas. 
Levava os sacos ao ombro.
-        V para o inferno! - gritou Lucrezia. Sentou-se no tecto 
da cabina e olhou para o oceano. - E agora?
-        Teremos de reparar os cabos para podermos iar no mnimo 
uma vela. Proponho que seja a genoa 1 para nos manter melhor 
ao vento.
-        Apetece-me estrangular aquele homem! - exclamou Lucrezia, 
furiosa. - Imagina o tempo que levaremos para sair daqui... 
Com um avano desses, ele conseguir escapar!
-        Em vez de o estrangulares, devias investir as tuas foras 
no conserto das velas. No vale a pena darmos ns nos cabos, 
teremos mesmo de os coser! No podemos arriscar que de repente 
uma vela voe pelos ares!
Ficaram o dia inteiro a fazer costuras. Tinham treinado 
durante vrios meses a remendar cabos e velas antes de terem 
iniciado aquela viagem. Nessa altura, todos eles e 
especialmente Trosky tinham-se queixado, classificando esse 
trabalho de completamente intil. Agora, porm, as raparigas 
compreenderam a utilidade desse treino. O barco baloiava nas 
ondas,  volta da ncora, mas as horas passavam e ningum 
aparecia. Deviam estar numa zona completamente deserta. Nem 
sequer havia barcos de pescadores. Helena at utilizou trs 
foguetes de emergncia. Disparou com a pistola sinalizadora 
uma bala vermelha para o cu azul, sem qualquer sucesso. No 
havia sinal de vida, nem em terra, nem no mar.
Coser os cabos era duro; provocava feridas nas mos, rasgava a 
pele, e Lucrezia j tinha as pontas dos dedos a sangrar, 
embora usasse um gancho especial para fazer costuras.
Por volta do meio-dia, comeou a delirar. Helena j estivera  
espera dessa reaco. J antes reparara na expresso contrada 
da cara de Lucrezia, no cintilar dos seus olhos, nos seus ps, 
que raspavam o cho, e notara que o seu bonito corpo, quase 
completamente nu, estremecia de vez em quando. Chegara a 
altura de libertar toda a tenso. De repente, Lucrezia atirou 
o cabo para o cho, bateu com os punhos no convs e ps-se a 
gritar num tom histrico. Os seus gritos no eram palavras nem 
frases articuladas, mas sim sons que se sobrepunham, 
acompanhados de um forte tremer do corpo e de um oscilar da 
cabea. Ficou assim, a gritar, durante alguns minutos, at 
Helena se levantar, encher um balde de gua do mar e 
esvazi-lo em cima dela.
A gua fria teve um efeito calmante em Lucrezia. Parou de 
gritar, deixou a cabea tombar para a frente e todo o seu 
corpo caiu para o cho, como se j no tivesse ossos. Helena 
voltou a pegar nos cabos sem dizer uma palavra, sentou-se e 
continuou o trabalho.
Depois de alguns instantes de silncio, Lucrezia ergueu a 
cabea.
-        Fui mesmo estpida, no fui? - A sua voz estava rouca e 
perdera aquele tom ertico.
-        Esquece. - Helena apontou para a corda. - Continua, Luzi!
-        O sol. Este calor hmido e pesado. O silncio. Eu no 
aguentei mais.
-        Eu sei.
-        Tive de gritar.
-        Fizeste bem, se isso te aliviou.
-        Agora, sinto-me vazia. Parecia que ia explodir. Conheces 
essa sensao?
-Sim.
-        Mas tu nunca gritaste, Helena.
-        Tens a certeza disso?
-        Quando e  que tu alguma vez soltaste um grito?
-        Sabias que se pode gritar para dentro de uma almofada? Ou 
para dentro do plo de um co, do paiol das velas ou de uma 
loca? s vezes, vocs estavam todos a dormir l em baixo 
quando eu gritava, durante os meus turnos da noite.
-        E eu sempre pensei que nada te podia afectar. Pensava que 
tu eras feita de pedra. Que no tinhas um corao, mas sim um 
motor bem oleado dentro de ti.
-        Isso tambm e  preciso em certas situaes, Luzi.
-        Eu nunca serei capaz de me conter como tu.
-        Ningum exige isso de ti.
-        Mas de ti, sim!
-        Se assim no fosse, como e  que ns sairamos daqui?
Lucrezia voltou a dedicar-se ao trabalho. Os seus dedos 
tremiam e ainda no tinham recuperado as foras.
-        No contes aos outros o que acabou de acontecer. - pediu, 
num tom suplicante. - Por favor, Helena!
-        Ningum tem nada a ver com isso. Ficar entre ns. - 
Helena ergueu o olhar para o cu e o sol que ardia sem 
piedade. Parecia quase impossvel que ainda dois dias antes o 
cu estivesse cinzento e tivesse havido uma violenta 
tempestade que arrasara tudo o que havia em terra e no mar. - 
Esta noite j poderemos iar a genoa 1 e partir.
-        Claro que sim! - Lucrezia segurou com mais fora o cabo 
em que estava a trabalhar. - E se eu delirar de novo, atira-me 
para a gua.
-        No farei nada disso - declarou Helena, calmamente. - Da 
prxima vez, dar-te-ei duas bofetadas. Ficars a senti-las 
durante uma semana.
-        A mulher de ferro est de volta! - Lucrezia sorriu. - Meu 
Deus, ser preciso um homem muito especial para te conseguir 
domar!

J era noite quando partiram. Tinham iado a genoa 1 com cabos 
que tinham estado a arranjar durante todo o dia. O vento 
estava favorvel, e navegaram pelo mar relativamente calmo. 
Avanaram a uma velocidade moderada e, embora algumas velas a 
mais tivessem ajudado, ficaram muito contentes ao ver a nica 
vela encher-se de vento. Quando isso aconteceu, bateram 
palmas, abraaram-se e beijaram-se.
A nica maneira de definirem o rumo era a bssola. Helena 
dirigia o barco sempre para sudeste e corrigia a direco 
sempre que se desviavam. Por volta das trs da manh, Lucrezia 
apareceu no convs e sentou-se ao lado de Helena, na cabina. 
Dormira profundamente durante trs horas e queria agora tomar 
o lugar de Helena.
-        Tens a certeza de que l chegaremos? - perguntou.
-        Na vinda, navegmos em direco a este, por isso agora 
temos que ir para leste.
-        Isso e  tudo o que sabes?
-        Sim.
-        Pois bem! E se passarmos ao lado de Santiago?
-        Ento teremos o grande oceano pela frente at  Amrica. 
- Helena viu a expresso aflita de Lucrezia e riu-se. 
- No te preocupes. Com cada milha que passa entramos em zonas 
mais movimentadas e provavelmente tambm na zona onde andam  
nossa procura.
-        Tu realmente acreditas que eles ainda andam  nossa 
procura?
-Sim.
-        Ao fim de seis dias? Aposto que j puseram uma cruz atrs 
dos nossos nomes. Devem estar a dizer: "Quem e  que paga esta 
busca? O dever de ser humano? Isso no e  moeda! No serve 
para comprar gasolina! Tanta confuso  volta de duas 
pessoas!"
-        Pelos vistos tu no conheces bem o Peter. Eu tenho a 
certeza de que ele e o Trosky no os deixaro em paz at nos 
terem encontrado.
-        Ou at os terem fechado algures. - Lucrezia pegou no leme 
e olhou para o mar. O vento era fraco e o barco baloiava 
lentamente pela gua com as velas pouco cheias de vento. - 
Vai-te deitar, Helena. Devias dormir um pouco.
-        Eu fico aqui. No tenho sono.
-        Qualquer pessoa no teu lugar j teria cado para o lado.
-        Eu encosto a cabea para trs e fecho os olhos. De 
acordo? - Helena inclinou-se para trs e fechou os olhos. 
Acorda-me imediatamente se vires alguma coisa.
Juntou as mos sobre a barriga e respirou fundo. "Estou
exausta da ponta dos cabelos at aos dedos dos ps", pensou. 
"J nem sequer sinto o meu corpo. Mas no posso dizer isto  
Lucrezia. Meu Deus, o que ser de ns se eu fraquejar agora? A 
Lucrezia nunca conseguir enfrentar esta situao sozinha. 
Nunca!"
O movimento regular do barco f-la sentir-se pesada e imvel. 
Tentou no se deixar apoderar por esse sentimento, mas j no 
tinha foras suficientes. Adormeceu contra a sua vontade e s 
acordou quando a luz do dia penetrou pelas suas plpebras.
Era uma manh cheia de sol. O barco deslizava  deriva pela 
superfcie quase lisa da gua. Lucrezia estava deitada ao lado 
do leme e dormia profundamente. Helena levantou-se com um 
salto e pegou na bssola.
Estavam a navegar rumo a norte. H quanto tempo?
Corrigiu a direco do barco e esfregou a cara com as duas 
mos, para acordar completamente. No valia a pena correr para 
a mesa de cartas e consultar os mapas. Navegar sempre fora a 
tarefa de Peter, e os ngulos e crculos que ele desenhara nos 
mapas no lhe diziam nada. Poderia tentar calcular a posio 
do barco com a ajuda de um sextante, mas infelizmente nunca se 
preocupara em aprender a fazer esses clculos. Agora que se 
tratava de voltar a navegar exactamente para sudeste, a nica 
hiptese que lhe restava era confiar nos seus sentimentos e 
esperar que se cruzassem com um barco. Depois, s teria de 
disparar as balas vermelhas para o ar.
Meia hora depois, Lucrezia acordou. Ergueu-se bruscamente como 
um animal selvagem e olhou com um ar assustado para os olhos 
calmos de Helena.
-        Onde e  que estamos?
-        No sei. Algures. Estvamos a navegar em direco a norte 
quando acordei.
-        A culpa e  minha.
-Sim.
-        Queres que eu pea desculpa ou achas que me devia atirar 
ao mar?
-        Nada disso nos ajudaria. Estamos de novo a navegar na 
direco correcta. S no sabemos onde iremos parar. - Helena 
olhou para o mar. - Chegaremos algures. Resta saber quando.
Navegaram durante todo o dia. O sol queimava e o vento era to 
fraco que durante quatro horas quase que no saram do mesmo 
lugar. Apenas  tarde, a vela finalmente encheu-se 
de vento e fez o barco avanar.
Ao cair da noite, avistaram terra no horizonte. Havia rochas 
que se destacavam do mar. Lucrezia danou como uma louca, 
abraou Helena, chorou de alvio e alegria e, quando se 
aproximaram da costa e julgaram reconhecer a ilha de Santiago, 
at juntou as mos como se quisesse rezar.
-        Chegmos! - exclamou Helena enquanto navegavam ao longo 
da costa em direco a norte e contornavam o cabo atrs do 
qual deveria ficar a cidade de Tarrafal. - Tivemos tanta sorte 
que parece inacreditvel. Isto vai contra todas as regras da 
nutica! No sabemos nada acerca de barcos e mesmo assim 
conseguimos chegar! Luzi, ns devemos ter um anjo protector.
-        Eu j estou a rezar para ele - respondeu Luzi com uma voz 
emocionada. - Acho que passei a acreditar em milagres.
Entraram no pequeno porto de Tarrafal sob o pr do Sol que 
parecia incendiar a terra e o mar,como Helena nunca o vira 
antes. Atracaram no mesmo lugar do cais onde tinham estado 
ancorados anteriormente e empurraram a prancha de embarque 
para terra. O polcia que apareceu no cais ficou parado como 
se tivesse levado um murro, olhou para o barco, virou-se 
bruscamente e correu at ao quartel da Polcia.
-        Chegaram! - gritou. - Elas voltaram! Apareceram no cais 
como se nada tivesse acontecido!

Primeiro, tiveram de se submeter a um interrogatrio. O chefe 
da Polcia teve de faz-lo, dando assim ao mesmo tempo uma 
satisfao s autoridades da cidade da Praia devido ao esforo 
feito e ao dinheiro despendido durante os quatro dias de busca 
intensiva. O capito, que ainda estava presente, cumprimentou 
as senhoras de uma maneira galante, beijando-lhes a mo, 
depois de Peter e Trosky terem festejado o reencontro com elas 
numa sala ao lado.
Helena abraara Peter e beijara-o. Era a primeira vez que no 
tentava esconder os seus sentimentos e ficou pendurada nele 
como se fosse uma criana. Trosky e Lucrezia ficaram frente a 
frente, Trosky com uma cara sria e sombria, como era hbito, 
e com um ar de desprezo.
-        Se eu te abraar agora, isso no quer dizer que queira ir 
para a cama contigo! - declarou Lucrezia com a voz rouca. 
Trosky franziu as sobrancelhas ao ouvir aquele tom de voz.
-Est bem!
-        Seu tonto! - Lucrezia abraou-o e beijou-o enquanto ele 
parecia menos gil. Deixou que ela o beijasse e depois, quando 
Helena largou Peter, ps o brao  volta dela.
-        Depois de nos termos lambido exaustivamente - disse 
Trosky por fim, rindo-se -, seria talvez interessante saber 
onde e  que as senhoras estiveram.
-        Em Maio! - exclamou Lucrezia.
-        Que interessante! Decidiram fazer uma pequena excurso?
-        Mais ou menos. - Helena afastou o cabelo da cara. - Fomos 
raptadas e obrigadas a levar o barco para Maio.
-        Ento, afinal foi mesmo isso! Ningum quis acreditar em 
mim! - Peter cerrou os punhos.
- E elas conseguiram sobreviver  tempestade! - Trosky pegou 
nos cabelos compridos de Lucrezia, puxou-a para perto de si e 
beijou-a com tanta fora que ela no conseguiu libertar-se 
dele. 
Quando, no fim, j no conseguia respirar, deu-lhe um pontap 
na canela. Trosky gemeu e soltou-a. - Eu queria apenas 
comemorar! - disse, ofendido.
Depois de terem bebido duas garrafas de vinho, que o agente da 
Polcia oferecera para tornar o interrogatrio um pouco mais 
agradvel, chegaram  concluso que Helena e
Lucrezia tinham tido uma sorte incrvel.
-        Eu no compreendo porque e  que o Depallier vos contou 
tudo isso - disse o capito, admirado. - Assim j temos a 
confisso dele. Agora s falta apanh-lo!
-        O Maurice tem um avano grande de mais. Nunca o 
conseguiro apanhar. - Helena encostou a cabea ao ombro de 
Peter. - J deve ter deixado as ilhas de Cabo Verde h muito 
tempo.
-         para isso que existe o rdio, madame. - O capito 
sorriu com um ar condescendente. - Em breve, saberemos qual o 
avio que deslocou da cidade do Sal com dois desconhecidos a 
bordo. Desta forma teremos o seu rasto.
- e  muito mais importante descobrir a quem e  que ele roubou 
as moedas de ouro! - exclamou o pequeno chefe da
Polcia, exaltado. - Ele roubou-as aqui, na nossa ilha!
Santiago! Quem ser o habitante desta ilha que possui um 
tesouro desses? - O seu rosto estava vermelho e brilhava, 
coberto de suor. - Isso quer dizer que havia aqui algum que 
tinha milhes na cave e ns no fazamos ideia disso! Milhes 
a que nem sequer tinha direito! E ainda por cima permite que 
lhe sejam roubados! E no apresenta queixa! Simplesmente, 
deixa os ladres escapar com um tesouro que vale milhes! No 
acham isso extremamente suspeito? Teremos de analisar esse 
caso!
-        Onde e atravs de quem? - perguntou Peter von " Losskov. 
- e  impossvel recapitular tudo. O habitante da ilha
a quem roubaram o tesouro deve ter desaparecido h muito 
tempo.
-        Porque ele prprio e  um gatuno!
-        Provavelmente, sim.
-        Na minha ilha! - O chefe da Policia disse "minha" ilha e 
os outros no fizeram nenhum comentrio, permitindo que se 
considerasse um orgulhoso soberano, embora a sua rea no 
abrangesse muito mais do que a cidade de Tarrafal. - Isso 
preocupar-me- at ao fim da minha vida!
Nessa noite ainda souberam que um avio com cinquenta e quatro 
passageiros partira do aeroporto da cidade do Sal para Lisboa, 
entre os quais trinta e trs estrangeiros todos em viagens de 
negcios. Obviamente, na lista de passageiros no constava 
nenhum Maurice Depallier nem um Jorge Silva. O avio aterrara 
em Lisboa h dez horas. J no havia hiptese de os encontrar.
-        Apetece-me trepar s paredes! - gritou o pequeno chefe da 
Polcia.
-         exactamente isso que vamos fazer. - Trosky levantou-se. 
- Mas no vamos trepar s paredes, mas sim ao mastro do nosso 
barco! Temos de arranjar novos cabos e desapareceremos daqui 
antes que aconteam mais imprevistos.
-        No tm o direito de se queixar! Ns tratmos os senhores 
de forma exemplar.
-        At ao cancelamento da busca depois da tempestade! Como 
v, as raparigas esto vivas!
-        Quem podia adivinhar isso? - O chefe da Polcia ergueu as 
mos, como se quisesse pedir perdo. - Foi um caso realmente 
excepcional.
A noite cara, mas mesmo assim foram acordar o comerciante de 
equipamentos para barcos, compraram cabos novos e substituiram 
os antigos. De manh, experimentaram as velas e tudo parecia 
estar em ordem. O barco estava pronto para partir.
A despedida foi rpida. O capito, o chefe da Policia, o 
polcia e um oficial do barco da Policia ficaram no cais para 
acenar-lhes. Espantados, deixaram passar um rapazinho com um 
carrinho de mo que parecia muito apressado. Trosky que se 
encontrava na prancha de embarque que ainda no fora 
recolhida, respirou aliviado.
- At que enfim! - disse. - Agora j no falta mesmo nada.
No carrinho de mo, havia apenas um grande fardo de palha.
Losskov, que estivera na cabina, aproximou-se. Helena e 
Lucrezia debruaram-se para a frente.
-        Tu e  que pediste isto? - perguntou Losskov, desanimado.
-        Sim! - respondeu Trosky com um ar teimoso. - Tens algo 
contra isso?
-        Palha?
-        Eu preciso urgentemente de palha.
-        Queres manter uma cabra a bordo?
-        Para qu? Ns j temos duas...
-        Eu ainda lhe dou uma bofetada! - exclamou Lucrezia. - 
Helena, lembra-me para fazer isso daqui a pouco!
Losskov afastou-se para que Trosky e o rapaz pudessem passar 
por ele com o monte de palha. Depois, Trosky recolheu a 
prancha de embarque e apanhou os cabos que lhe atiravam. O 
barco estava agora solto. Peter encostou-se  balaustrada ao 
lado de Trosky e esperou. Este olhou-o de lado.
-        H algum problema, capito?!
- No sei. J agora podias tambm trazer um camelo a bordo!
- Esse j c ns temos! - Trosky foi at ao leme e sentou-se. 
- Eu quero construir uma coisa. E para isso preciso
da palha.
-        Mas porqu exactamente palha?
-        Depois, vers! - Trosky levantou-se e ergueu a mo - Iar 
o traquete! - berrou. - Raios, eu quero ir-me embora daqui!
O barco deu meia volta e deslizou rapidamente para o mar 
aberto. Os homens em terra acenavam-lhes, e Losskov e as 
raparigas respondiam aos acenos at que eles ficaram to 
pequenos que mal os conseguiam distinguir. O barco avanava a 
alta velocidade para o horizonte inatingvel do oceano 
Atlntico em direco  Amrica do Sul, para sudeste, sempre 
visando a sua meta: a Terra do Fogo e o cabo Horne.
Quando no viam nada para alm do mar e do horizonte  sua 
volta, Losskov sentou-se ao lado de Trosky no banco. As 
raparigas estavam em baixo. Era a vez de Lucrezia arrumar a 
cozinha enquanto Helena anotava a partida da ilha no livro de 
bordo e tratava de Mister Plump.
O co realmente tornara-se um caso srio, digno de tratamento 
psiquitrico. Desde que Maurice Depallier os deixara j no 
comia nada, ficava deitado na cama com um olhar triste e no 
reagia a mimos ou palavras simpticas. Nem se quer reagiu 
quando Trosky o invectivou:
-        Oh, no! Este maldito animal tambm sobreviveu. Porque e  
que no aconteceu alguma coisa pelo menos ao co?!
Depois de terem partido, aproximara pelo menos o nariz
de um pedao de carne, mas no o comera. Pousou a cabea sobre 
as patas. suspirou profundamente e continuou de luto pelo seu 
amigo desaparecido.
"Como e  que pode explicar-se a um co que o tipo era um 
ladro?", pensou Losskov.
- Temos de estar conscientes de uma coisa: esperam-nos quatro 
semanas de solido - declarou Losskov. - Se houver calmarias, 
podem tambm ser seis ou oito semanas at voltarmos a ver 
terra firme. Pretendo passar por So Paulo e pela ilha de 
Fernando Noronha e depois ir para a bacia da Argentina. - 
Fitou Trosky com um ar inquiridor e ficou calado.
-        Por mim, est tudo bem - resmungou este. - Tu e  que 
mandas!
-        Tambm podemos saltar de um lugar para o outro, Jan. De 
Fernando Noronha para o Recife e depois ao longo da costa at 
s ilhas Falkland. L podemos dar uns arranjos ao barco e 
preparar-nos para a Terra do Fogo e o cabo Horne.
-        Porque e  que no vamos pelo caminho mais directo?
-        O teu monte de palha faz-me desconfiar.
-        Tambm no se destina a acalmar-te.
-        Oito ou mais semanas de solido, Jan! Eu no quero 
problemas a bordo!
-        Vais comear de novo com essa conversa? Tens medo que eu 
delire, no ?!
-        Confesso que sim!
-         para isso que serve a palha! - Trosky sorriu. - Deixa 
que eu te surpreenda.
-        Eu no gosto de surpresas a bordo, Jan. Tudo aquilo por 
que j passmos parece uma brincadeira quando comparado com 
aquilo que temos pela frente.
-        Eu sei, meu mestre! E estou-me nas tintas para os teus 
sermes! Eu fao aquilo que for preciso. E neste momento e  
preciso comer. Estou a morrer de fome.
Mis ter Plump apareceu no convs, olhou para Trosky e 
mostrou-lhe os dentes. Isso j constitua uma grande 
progresso no seu comportamento: voltara a tomar conscincia 
do seu inimigo.
-        Um dia ainda frito este co! - resmungou Trosky e puxou o 
gorro para a testa. - Mas ainda bem que ele existe! Sem estas 
pequenas guerras, no haveria nada a bordo.
Depois de oito dias de viagem calma, durante os quais 
avanaram bem, Trosky comeou por fim a dedicar-se ao seu 
fardo de palha. Dobrou uma verga que trouxera, de modo a 
formar uma roda e depois ps-se a fazer uma rede de fios, nos 
quais entrelaava agilmente a palha.
Depois de trs dias, Losskov descobriu o que Trosky estava a 
tentar fazer.
- Ele est a construir um grande alvo - disse para Helena e 
Lucrezia. - Suponho que ele quer atirar flechas. Que <~ o faa 
 vontade! Prefiro que atire flechas do que fique por a 
sentado a tiranizar-nos.
A vida a bordo tinha entrado numa rotina; todos eles tinham 
percebido que agora estavam realmente dependentes uns dos 
outros. Nas prximas semanas, no haveria maneira de fugirem 
uns aos outros ou de, caso a sua convivncia se tornasse numa 
tortura insuportvel, simplesmente deixarem o barco.  sua 
volta, s havia o mar e o cu e mais nada. Teriam de aceitar e 
suportar o que quer que acontecesse: sol e nevoeiro, calmarias 
ou uma tempestade, um calor insuportvel ou chuva, um mar 
calmo ou selvagem com ondas de vrios metros de altura. S 
havia uma regra: enfrentar tudo At chegarem  Terra do Fogo. 
At ao fim do mundo.
No dcimo quarto dia - era um domingo, como Peter von Losskov 
pde verificar no seu calendrio - Trosky concluiu finalmente 
o seu trabalho. Atou-o com cordas  balaustrada e depois fixou 
no alvo uma grande folha de papel na qual desenhara algo 
durante a noite.
Helena, que nesse momento apareceu no convs com um bule de 
ch com limo para Peter e Trosky, virou-se imediatamente 
quando viu aquilo que estava desenhado na folha e desapareceu 
pelas escadas. Chamou Lucrezia, que h trs dias comeara com 
os seus trabalhos cientficos e estava sentada ao microscpio, 
observando amostras de gua do fundo do mar.
-        Ele pendurou um desenho no alvo - disse Helena. -
Tens de v-lo. Eu no compreendo o que se passa na cabea 
daquele homem.
Quando subiram ao convs, viram Trosky com um arco e uma 
flecha, na proa. Parecia muito animado. Lucrezia deitou um 
olhar para o desenho. Mostrava dois peitos desenhados de uma 
forma muito naturalista e cujos contornos eram ainda mais 
reforados pela luz do Sol. Trosky parecia, sem dvida, ter um 
talento para o desenho.
-        Ento, gostas? - gritou.
-        Eu sempre desconfiei que tu eras um perverso! - exclamou 
Lucrezia.
-        Nem vale a pena esforares-te e olhares para o espelho... 
Este peito no e  o teu! Pelo menos no e  s o teu. Tambm 
contm um pouco do da Helena. Eu criei um peito perfeito, que 
e  uma mistura das duas!- Brincou com o arco nas mos. Depois, 
pegou na flecha, apontou-a para o alvo e atirou. A flecha 
cortou o vento e foi parar  borda superior do alvo. Trosky 
apoiou o arco no joelho  sua volta,  procura de Peter.
-        Vamos dar prmios, Peter! Quem acertar no bico do peito 
ganha doze pontos! E cada vez que tiver doze pontos recebe uma 
garrafa de cerveja! Se tiver doze pontos seis vezes 
consecutivas, fica com a Luzi!
-        No haver concurso para ningum! - Losskov aproximou-se 
e arrancou o arco das mos de Trosky antes de este poder 
segur-lo com mais fora. Durante alguns segundos, 
permaneceram num perigoso silncio.
-        D-me o arco, Peer - disse Trosky, pouco depois.
-        Tira o desenho dali!
-        No! Eu e  que digo aquilo que quero! Amanh porei ali a 
tua cabea! - Trosky estendeu a mo. - O arco! Eu estou a 
avisar-te, Peter! Constru uma coisa que me satisfaz e no 
permitirei que ma tirem enquanto esta cabea estiver assente 
nos meus ombros! Compreendeste?
-        Perfeitamente!
Losskov pegou numa flecha, colocou-a no arco, apontou 
rapidamente e atirou. A flecha soltou-se e foi directamente 
para o bico do peito esquerdo. Ningum aplaudiu. Ficaram 
silenciosos. Todos olharam para a flecha como se esta 
realmente tivesse acertado no peito de uma mulher. Helena 
ficou com o plo eriado.
-        Doze pontos, Trosky! - disse Peter bem alto. - Deves-me 
uma garrafa de vinho. Est bem! Vamos arranjar um
livro em que apontaremos os resultados. Quando chegarmos
a terra, pagaremos as dvidas. - Atirou o arco a Trosky que o 
apanhou e o deixou cair de seguida.
-        Desmancha-prazeres! - disse, baixo. - Mas eu treinarei. 
Treinarei at ser melhor do que tu!
 noite, quando Helena estava a rizar as velas com Peter, 
perguntou:
-        Tinhas de fazer aquilo com as flechas?
-        Sim. Ele precisa de um adversrio, seno, no consegue 
viver. Acabei por compreender isso.
-        Passar a odiar-te ainda mais.
-        Ele no me odeia, apenas se odeia a si prprio. No sei 
porqu.
Na manh seguinte, Trosky voltou a treinar a atirar as 
flechas. Concretizara a sua ameaa: desenhara a cabea de 
Peter e durante o dia acertou quatro vezes nos seus olhos ou 
na raiz do nariz.
O sol, o mar, as distncias infinitas, o silncio apenas 
quebrado pelas ondas, o ranger das velas, o barulho do barco a 
avanar, o sussurrar montono e contnuo do vento. Sons que em 
breve j no pareciam sons. Sons que eles nem sequer ouviam, 
que faziam parte da vida e cuja falta teria sido uma 
catstrofe. As horas prolongavam-se infinitamente, apesar do 
trabalho a bordo e das investigaes cientficas que tinham 
iniciado. Peter von Losskov comeara a escrever o livro 
planeado, mas o seu relato deixava adivinhar j a partir das 
primeiras pginas uma constatao: estavam todos fartos
uns dos outros.
H muito tempo que tinham compreendido que o barco era pequeno 
de mais para quatro adultos. No havia espao suficiente para 
uma pessoa se retirar na tentativa de fugir  tentao de 
bater em algum. Estavam sempre juntos, viam-se 
constantemente, roavam-se sem querer, sentiam-se, 
cheiravam-se e ouviam-se uns aos outros.
O pior era os fins de tarde, quando Helena punha os seus 
discos a tocar. Era Tchaikovsky e Beethoven, Wagner e Bruckner 
e de vez em quando uma opereta.
- Quero ouvir msica rock! - gritava Trosky.
-        Msica e  cultura! Ser que tu no s capaz de 
compreender isso?! - respondia-lhe Helena, tambm aos berros.
Trosky costumava desaparecer no seu camarote ou ento ficava 
sentado, amuado, no convs e dava pontaps a Mister Plump 
quando este passava inocentemente por ele.
-        Juro que um dia utilizarei aqueles discos como alvo! - 
dizia s vezes a Peter. - Quem e  que consegue aguentar uma 
coisa destas? Sempre bum-da-da-bum... bum-da-da-bum...
O cu e o mar, o sol e, de vez em quando, um pouco de chuva, 
calmarias durante as quais ficavam quase parados e que eram 
uma ocasio para Trosky chamar a Peter idiota, por este no 
ter instalado um motor no barco.
Solido. Um calor sufocante. Um oceano que parecia chumbo. 
Lucrezia deitava-se nua no tombadilho por baixo de um toldo e 
dormitava. Peter escrevia o seu livro, Helena lia romances ou 
ouvia os seus discos. Trosky exercitava-se com o arco e a 
flecha e, dia sim dia no, mudava o desenho no alvo: ora era a 
cabea de Peter, ora a boca de um tubaro, ou ento mais um 
peito de mulher ou a bandeira nacional americana, que 
costumava durar muito tempo, j que Trosky tentava acertar em 
cada uma das estrelas.
Quarenta e trs dias rodeado apenas por trs pessoas e algumas 
velas, corpos nus e msica de Beethoven. Quarenta e trs dias 
a acumular dio.
Uma noite, Trosky decidiu mudar de alojamento. Instalou-se no 
poo.
-        Agora durmo aqui! - gritou para Losskov. - Sinto nojo s 
de vos ver! Alm disso, tornou-se impossvel para mim ficar 
quieto na cama quando sinto um cheiro a mulher a penetrar pela 
parede! Claro que tu no compreendes isso! Mas ser que s 
castrado? Deixa-me em paz! O teu olhar azul e  enjoativo!
Porm, apesar da atmosfera intensa que viviam e que se 
assemelhava quela que antecede uma exploso, o barco mantinha 
o seu curso. Entrou no mar brasileiro a oeste da ilha de 
Fernando Noronha. Ali, o mar tinha cinco mil metros de 
profundidade. Peter elaborara bem o curso e manejava o barco 
de uma forma excepcional, apesar das inmeras calmarias e da 
consequente deriva com a corrente, merecendo assim at a 
admirao de Trosky.
O quotidiano montono ajudou a eliminar as ltimas inibies 
que restavam entre eles. Losskov notou isso em si prprio com 
horror, mas sem foras para se defender. Gritava com Helena 
quando as batatas estavam mal cozidas, despejava verdura para 
o mar quando a achava salgada de mais, e Trosky dizia com um 
ar triunfante:
-        At que enfim que ele compreendeu que as mulheres so 
umas chatas! Salgam demasiado a comida para que ns no 
paremos de beber!
-        Porque faria eu isso, seu idiota? - respondeu-lhe Helena 
aos gritos. - Afinal ns precisamos de vocs!
-        Isso e  novidade para mim! Peter, vamos para a cama! Mas 
isso elas no querem!
No dia seguinte, Losskov recusou-se a beber o ch, alegando 
que estava muito forte e amargo.
-        O ch est como todos os dias - disse Helena.
-        Mas mais amargo! Se sempre assim foi, ento sempre foi 
amargo!
-        Entorna-lhe o ch na cabea! - gritou Lucrezia, que 
estava sentada num canto.
-        A partir de hoje recuso-me a cozinhar! - exclamou Helena. 
- Cada um que trate de si prprio.
-        Que bom! - gritou Trosky. - Agora, elas at entram em 
greve!
Mais tarde, Losskov entrou no camarote de Helena.
-        Esquece aquilo que aconteceu, Helena - disse-lhe. - Eu 
tambm no tenho nervos de ao. Lamento o sucedido. e  claro 
que o ch estava bom.
-        Estava amargo.
-        Por favor, no comeces.
-        Eu provei-o. Ele realmente estava amargo. Hoje,  hora do 
almoo, podem comer comida enlatada, se quiserem.
-        Ento, ests decidida a deixar de cozinhar para ns?
-        Cozinhar? Tu chamas cozinhar a abrir latas de conserva? 
Isso vocs tambm sabem fazer sozinhos.
-        Mas os teus espaguetes so to bons.
-        Pede  Luzi para prepar-los! Como ela e  italiana, deve 
saber faz-los muito bem.
-        Isso quer dizer que j no queres tratar de ns?
-No!
-        E o que e  que vais fazer ento?
-        Vou ficar a observar-vos, enquanto do cabo um do outro!
Porm, no dia seguinte, Helena estava de novo na cozinha a 
aquecer feijo verde com toucinho, enquanto preparava um pudim 
de chocolate com molho de baunilha. Quando estavam sentados  
mesa, Trosky aparentou no ter vontade de comer.
-        Agora a comida j no tem sal nenhum! - gritou. - Querem 
que fiquemos com falta de sal?
-        Mais uma palavra e eu ponho-me aos murros. - Losskov 
cerrou os punhos. - Jan, a comida est excelente!
-        Para os peixes de certeza que serve.
As mos de Losskov pareciam dois ganchos quando agarrou Trosky 
pela camisa. Puxou-o para perto de si. Trosky olhou, 
assustado, para os olhos frios de Losskov.
-        Repete isso! - disse Peter baixinho e com um tom de voz 
ameaador. - A comida est boa!
-        Se a tua felicidade depende disso.... A comida est 
ptima! - Trosky soltou-se das mos de Losskov. - Ests 
satisfeito? Cus, eu j no vos posso ver  frente!
Derrubou o banco no qual estivera sentado e subiu para o 
convs.
Pendurou o desenho da banheira americana numa tbua de madeira 
e ps-se a alvejar cada uma das estrelas. Cada vez que 
acertava numa estrela, dava-lhe um nome.
- Esta eras tu, Potisky! - gritava. - Liquidado! E esta tu, 
Pslelcek! Vai para o inferno! E agora tu, Kretin Lombaczy! Em 
cheio, no olho! Que Satans d cabo de ti!
Quando Losskov veio para o convs um pouco mais tarde, Trosky 
acertara em dezanove estrelas. Trosky acenou-lhe com o arco na 
mo e apontou para as estrelas.
- Estou a liquidar os meus colegas de Praga! - exclamou. - 
D-me imenso prazer! Agora e  a vez do gordo, Hadeck! Ele era 
chefe da repartio. Um homem repugnante! Um lambe-botas! 
Hadeck, chegou a tua vez!
Losskov sentou-se ao lado do leme e ergueu o olhar para o cu 
quente e plido.
Era o dcimo nono dia sem vento. Nunca tinha pensado que isso 
fosse possvel.
" cu, ests a dar cabo de ns", pensou. " sol, queimas as 
nossas mentes e tu, oceano, ests a levar-nos  loucura! Deus 
dos cus, envia-nos um pouco de vento. S um pouco de vento. 
Estaremos salvos quando sentirmos uma leve brisa nas velas."
Nessa noite, Losskov fez uma descoberta alarmante.
Devido ao calor insuportvel que estava no seu camarote, 
decidira subir para o convs. Ali, encontrou Trosky deitado no 
poo, onde se instalara recentemente, com as costas viradas 
para as escadas. Trosky no sentiu Losskov aproximar-se.
Estava ocupado. Despejara um pouco de p branco, que guardava 
numa lata, nas costas da mo esquerda. Olhou para o p com um 
ar encantado e depois inspirou-o pelas narinas. Respirou fundo 
e susteve-se durante alguns segundos, como se estivesse a 
escutar o seu interior.
- Que grande snifo! - exclamou Losskov, amargurado.
Trosky virou-se bruscamente, como se lhe tivessem dado um 
murro na nuca. Os seus olhos escuros pareciam arder.
-        Maldito intrometido! - sibilou. - Seu espio! Porque e  
que andas por aqui s escondidas?
-        Desde quando e  que ests metido nisso?
-        Desde sempre! No me digas que tambm e  proibido? - 
Trosky fechou o casaco de l que vestia.  noite fazia frio, 
mas o ar era leve e agradvel. Podia-se respirar com 
facilidade, ao contrrio do que acontecia durante alguns dias 
quentes e sem vento. - No podemos tocar nas mulheres, temos 
pouco lcool e agora nem sequer o tabaco nos e  permitido?
-        O que eu vi no era tabaco, Jan!
-        O que era ento, parvalho?!
- No existe tabaco branco.
-        Ficou dessa cor por causa do sol. - A cara de Trosky 
estava sombria e parecia pouco disposto a falar.
-        D pelo nome de metilbenzolecognina. Ou seja: cocana. 
Onde e  que arranjaste essa porcaria?
-        Porcaria? Isso e  uma definio muito subjectiva. No 
existe nada melhor para aumentar a actividade do crebro. 
Quando se consome uma boa quantidade, o sistema nervoso 
central at rejubila. E ns estamos a precisar disso. Seno, 
nada se alegra neste barco.
-        Com que ento tu s agarrado  cocana! - lamentou 
Losskov.
-        Eu no lhe chamaria assim. Apenas tento animar-me um 
pouco.
-        Com esse veneno! - gritou Losskov.
-        Que j existe desde os princpios da humanidade! Os Maias 
e os Incas atribuam caractersticas divinas  planta da coca. 
Quando os padres dos Astecas faziam os seus sacrifcios 
humanos, retirando o corao do peito de jovens extremamente 
bonitos para oferec-lo ao deus do Sol, mastigavam folhas de 
coca antes de iniciar o ritual. Mastigavam-nas at o sumo das 
folhas elevar as suas mentes para os cus. Est bem, eu 
consumo cocana - acedeu Trosky e cobriu-se com um cobertor de 
l. - Podes ir contar tudo s mulheres!
-        No prximo porto, tu deixars o barco! - ordenou Losskov 
num tom de voz severo. Trosky ergueu a cabea e piscou os 
olhos.
-        Onde e  que isso ser, chefe?
-        Eu alterarei o rumo e iremos directamente para o Brasil. 
Logo que avistarmos terra, tu sers expulso do barco! No 
importa onde isso ser! Compreendeste?
-        Pensa bem, Peer! - respondeu Trosky, calmamente.
-        J no h nada a pensar.
-        Pensa bem no assunto, capito!
-        Tu ainda s capaz de viver sem esse p branco?
-        Sou sim, meu amigo. J o tinha largado. Quando nos 
conhecemos, eu estava limpo, limpinho. Mas depois comecei a 
adivinhar o que me esperava nesta viagem e e  o que de facto 
est a acontecer! Trouxe uma proviso e, quando notei que 
estvamos todos a comear a odiar-nos mutuamente, voltei a 
consumir. Sinto-me muito bem.
-        Agora muitas coisas que antes pareciam incompreensveis 
tornaram-se claras. Existem dois Troskys: um deles e  aquele 
que eu conheci em Hamburgo e no qual confiava e o outro e  
aquele que agora est a bordo deste barco - Losskov baixou o 
olhar para Trosky. Este estava deitado no colcho com um 
grande sorriso nos lbios. Nos seus olhos cintilava o brilho 
de um veneno, as pupilas estavam dilatadas e o seu olhar tinha 
uma rigidez estranha. - Quantas vezes j consumiste hoje?
-        Foi a primeira vez. Palavra de honra.
-        Tu ainda tens um sentimento de honra?
Trosky ergueu a cabea.
-        Esquece essa pergunta, meu amigo - disse, devagar. - Eu 
sou muito sensvel no que diz respeito  questo da honra, 
sobretudo quando um alemo fala nisso a um checo! Vai para 
baixo, palhao alemo!
Losskov virou-se sem dizer uma palavra e desceu as escadas. 
Helena esperava-o no salo. Vestia uma camisinha leve
e transparente e tinha um fino cachecol de l  volta dos 
ombros. A luz da lanterna penetrava pelo fino tecido da camisa
e deixava transparecer a nudez por trs dos vus acariciantes.
-        Acordei quando ias a subir as escadas - murmurou. - 
Ouvi-os a falar. Voltaram a zangar-se?
-        No. - Losskov sentou-se  mesa, em frente de Helena, e 
encostou a cabea para trs contra o espaldar almofadado, num 
gesto cansado. - Porque e  que os homens tm uns nervos to 
fracos? Querem dominar o mundo, o espao e o tomo. Mas no 
conseguem dominar-se a si prprios.
-        Falaram disso agora, a meio da noite?
-        Entre outras coisas. Eu aprendi muito. Amanh, mudarei de 
rumo.
-        Em direco  costa?
-Sim.
-        Ento e  mesmo por causa do Trosky!
-        No. e  por causa do medo. - Fitou Helena com um ar 
exausto. - De repente, sinto um grande medo no meu interior. 
Se continuarmos assim, exterminar-nos-emos uns aos outros.
-        Ns dois, tambm?
-        Ns tambm, Helena. E j temos meio caminho andado. Eu 
amo-te. Quero dormir contigo. Eu quero viver contigo da 
maneira que ns dois desejamos. E o que e  que estamos a 
fazer? Estamos a construir muros invisveis entre ns, apenas 
para darmos um exemplo aos outros! Porm, desta maneira 
estamos a destruir-nos aos poucos.
-        E se nos amarmos, Peter?
-        O Trosky atacar logo a Lucrezia.
-        E isso seria o fim do mundo?
-        Seria um caos! O Jan e a Lucrezia... Dois animais 
selvagens com instintos assassinos!
-        No e  tapando uma bomba que se a desactiva. Talvez tudo 
se torne mais pacfico, se decidirmos obedecer aos nossos 
sentimentos?
-        No sei - disse Losskov, cansado. - Eu s sei uma coisa: 
tenho de chegar o mais rapidamente possvel  costa!

Trs dias mais tarde,levantou-se um vento leve. As velas 
insuflaram-se e o barco comeou a avanar, pondo fim ao 
baloiar desgastante. Trosky gritou de alegria e beijou o 
vento. As inmeras velas apanhavam o vento, e a proa do barco 
cortava as ondas longas e cheias de espuma que se aproximavam. 
O vento durou quatro dias e quatro noites.
-        Temos de aproveit-lo! - decidiu Losskov. - 
Permitir-nos- recuperar uma parte do tempo perdido! 
Navegaremos sem parar.
Com esse novo horrio, voltaram a fazer os turnos da noite. 
Cada um deles ficava quatro horas ao leme. Quando era a vez de 
Trosky ou de Losskov, estes corrigiam o rumo, j que as 
raparigas no eram capazes de fazer os respectivos clculos. 
Porm, logo na segunda noite, houve mais um desentendimento 
entre Peter e Trosky.
Trosky, que tomara o lugar de Peter ao leme, lanou um olhar 
para o mapa e para o rumo que estava traado nele.
-        O que e  isto? - perguntou.
-        Eu mudei o rumo.
-         o que estou a ver. Esse rumo e  completamente ridculo!
- Antes pelo contrrio. Eu quero ir para a linha de navegao 
internacional.
- No era exactamente isso que ns queramos evitar?
- Mas agora tem de ser assim. Eu vou tentar aproximar-me 
de um outro barco para te entregar a ele. Quero que tu deixes 
este barco!
-        Ah! Com que ento as coisas so assim! - exclamou Trosky.
-        Sim, so assim!
- Isso vai causar-te problemas. - Trosky fitou Losskov com um 
olhar melanclico. Mas era um olhar que iludia. Atrs dele, 
escondia-se uma certeza perigosa. - Queres ser um heri e no 
fundo limitas-te a ser um parvo.
Oito horas mais tarde, quando Losskov voltou a pegar no leme, 
que antes estivera a cargo de Lucrezia, compreendeu 
imediatamente que tinham mudado de rumo. O sextante confirmou 
essa impresso: voltavam a singrar no antigo rumo que ia 
directamente para a Terra do Fogo.
-        Eu fiz o que o Trosky mandou - resmungou Lucrezia, 
enquanto Peter praguejava e tentava orientar o barco para o 
rumo anterior. - Tomei muita ateno.
-        A culpa no e  tua. - Losskov sentou-se no poo e esperou 
que Helena aparecesse com o pequeno-almoo e se sentasse ao 
seu lado. O vento soprava forte, e o barco avanara 
rapidamente.
-        Estamos a recuperar tempo, no ? - perguntou Helena.
-        O Trosky mudou de rumo durante a noite.
Helena olhou com um ar horrorizado para o mar e de seguida 
para Losskov.
-        No e  possvel... - balbuciou.
-        Eu queria ir para a rota internacional. Mas ele voltou a 
rumar em direco  Terra do Fogo.
-        Meu Deus! Qual de vocs matar primeiro o outro?!
-        Temos de manter a calma at vermos terra ou pelo menos um 
barco. Nessa altura veremos quem e  o mais forte.
Pouco depois, Trosky voltou para o convs. Dormira apenas 
cinco horas, mas parecia muito bem-disposto. Cumprimentou 
Mister Plump, que fizera as suas necessidades na proa, 
atirando-lhe com metade de um limo que estivera a comer e 
riu-se s gargalhadas quando o co lhe mostrou os dentes e 
desapareceu pelas escadas.
-        Um dia de despir a camisa! - disse, alegre. - E para o 
pequeno-almoo h ovos estrelados com toucinho. E uma 
Lucrezia, deitada nua na cama com a porta aberta! - Olhou para 
a bssola e abanou a cabea afirmativamente. - Eu j estava  
espera disto. Voltmos ao antigo rumo. Tu s mesmo teimoso, 
Peer! Se isto continuar assim, nunca mais chegaremos  Terra 
do Fogo.
-        A partir de agora no deixarei mais ningum tocar no 
leme!
-        Nunca mais? - perguntou Trosky com um tom de voz irnico.
-        Nunca mais.
-        Aguentars no mximo quarenta e oito horas! Depois, 
cairs para o lado! O super-homem apenas existe no cinema!
-        Em quarenta e oito horas terei alcanado a rota dos 
outros barcos.
-        Talvez. - Trosky sentou-se num monte de cabos ao lado da 
caixa de plstico que continha a ilha de salvao de borracha. 
Despiu a camisola e estendeu o seu tronco musculoso ao sol. 
"No h dvida de que ele e  mais forte do que eu", pensou 
Losskov. "Por isso terei de esperar at ter algum que me 
ajude. Sozinho nunca conseguirei expuls lo do barco." - 
Deveramos fazer um acordo, capito - pro ps Trosky.
-        Quando j se chegou  cocaina no h mais compro missos.
-        Eu no sou dependente da coca!
-        Ento porque e  que a consomes?
-        Isso e  outra histria que tem a ver com Praga. Eu era 
estudante quando os Russos invadiram o nosso pas em mil 
novecentos e sessenta e oito e mataram a nossa populao com 
canhes e metralhadoras sob o olhar impvido do resto do 
mundo, apenas devido ao nosso desejo de liberdade. Na quela 
altura, eu fazia parte de um grupo de resistncia que actuava 
nas florestas da Bomia e que sabotava as linhas de 
abastecimento sovitico. No podamos fazer mais do que isso. 
Afinal, o resto do mundo abandonara-nos. Pareciam im potentes 
perante o poder dos Russos. Apenas ns, os estu dantes, 
formados em pequenos grupos espalhados pelo pas no 
desistamos. Vivamos em cavernas ou grutas e praticvamos 
aquilo que os Russos descreviam como um acto herico quando 
eles prprios o faziam: ramos guerrilheiros! Con segues 
imaginar uma vida na floresta? ramos um alvo fcil para 
todos. Tremiamos com cada rudo que ouvamos. E um dia houve 
algum que trouxe um saco com p branco. Era cocaina. Nunca 
lhe perguntmos onde a arranjara. E nin gum quis tocar nela. 
At que eu, em primeiro lugar, experi mentei um pouco. Foi 
incrvel. Fiquei corajoso como um leo. Mas, por outro lado, 
sabia exactamente que se ficasse agarrado a esse veneno seria 
o meu fim. Sabia que existia o perigo de me tornar num escravo 
da cocaina e de paralisar o meu crebro. Aquele sentimento 
efmero de xtase podia vir a ter consequncias muito graves, 
como a runa do meu corpo. - Trosky cuspiu para o mar, como se 
ainda tivesse o gosto da cocana na boca. - Eu fui forte e 
consegui libertar-me 
da droga. Quando o grupo se separou e ns regressmos a Praga 
como estudantes normais, j que no havia hiptese de 
salvarmos o nosso pas, eu deitei todo o p que me restava 
para a sanita. E no senti falta dele at me juntar a vocs.
Foi convosco que voltei a precisar da cocaina. Foi fcil 
arranj-la em Hamburgo. - Trosky mostrou um sorriso 
amargurado. - Eu tenho um ar mais firme do que aquilo que 
realmente sou. E prometo-te que largarei a cocana quando 
chegarmos ao nosso destino. e  um compromisso que assumo.
-        Antes de ns termos contornado o cabo Horne e de nos 
dirigirmos para terra em Ushuaia j tu tornaste a nossa vida 
num inferno! Eu quero tentar evitar isso.
-        Dem-me algo para eu fazer! - pediu Trosky e, de repente, 
a sua voz parecia frgil. - Qualquer coisa de til. Essas 
observaes climatolgicas so um disparate, tal como os 
micrbios da Luzi! - Eu quero algo de palpvel, algo que possa 
atacar. No existem tubares nesta zona?
-        Acho que sim. Aqui ainda h alguns. Mas mais tarde 
entraremos numa zona de baleias.
-        Porque e  que no damos cabo de uma baleia? De uma grande 
baleia! Quero cort-la em pedaos e cozinh-la. Seria uma 
tarefa muito gratificante!
- Ento caa-a! - exclamou Losskov, rouco. A vontade de matar 
que Trosky expressava naquela frase metia-lhe medo. "Tenho de 
ir a terra ou encontrar um barco o mais rapidamente possvel", 
pensou. "Quantas milhas e  que conseguiremos percorrer com 
este vento? Est favorvel e deve ter por volta de trinta e 
cinco ns. Em breve poder atingir os quarenta ns. Isso pode 
representar mil milhas em sete dias. Meu Deus, mil milhas! Se 
o vento continuar assim, ainda teremos quatro semanas pela 
frente. Mas ele no continuar a soprar com tanta fora. 
Tornar-se- mais fraco ou ento transformar-se- numa 
tempestade. Nos dois casos, perderemos tempo e seremos 
desviados da nossa rota. Temos de contar com seis se~nanas. 
Seis semanas com o Trosky? Seis semanas rodeados apenas pelo 
mar e a partilhar um camarote com um homem que deseja cortar 
aos pedaos uma baleia?"
Trosky parecia ter lido os pensamentos de Peter.
-        Estamos a avanar a oito ns. e  bom, no achas? Temos de 
estar agradecidos pelas coisas boas que nos acontecem.
Losskov no lhe respondeu. Avanavam a alta velocidade pelas 
ondas.
-        Ento, no h compromisso? - perguntou Trosky.
-No, no h.
-        Est bem. - Trosky levantou-se e dirigiu-se para a proa, 
mas quando passou por Peter ainda disse num tom ameaador: - e  
isso que torna os alemes to antipticos:
pensam sempre que tm razo!
Durante o resto do dia, Trosky no falou com mais ningum, nem 
mesmo com Mister Plump, quando este lhe mostrou os dentes. S 
no final do seu turno da noite e  que quebrou esse silncio 
ameaador. Losskov estava ao leme, aps ter substituido 
Helena.
-        Quer dizer que eu serei excluido desta equipa? - Trosky 
encolheu o queixo. - Nem sequer posso fazer o meu turno da 
noite?
-        No, ns conseguiremos tratar disto sozinhos.
-        Eu nem sei porque e  que no dou cabo de ti.
-        Isso causar-te-ia muitos problemas. - Losskov abriu a 
parte de cima do seu oleado. Trazia uma pistola, pronta a 
disparar, presa no cinto.
-        Com que ento j chegmos a esse ponto - comentou Trosky, 
engolindo vrias vezes de seguida, como se tivesse falta de 
ar.
-        Sim. Chegmos demasiado longe!
Trosky fitou Losskov em silncio durante alguns segundos e 
depois foi para a proa e sentou-se no cabrestante. Permaneceu 
imvel, a observar o mar que ora se tornava verde, ora preto, 
no crepsculo, parecendo repugnante e ameaador, fundindo-se 
com o cu atravs das ondas.
No era apenas Trosky quem mudava de dia para dia. Lucrezia 
sucumbia igualmente  monotonia desgastante.
Passou a andar sempre nua no barco.
-        Quanto tempo e  que o santo do teu homem aguenta istO? - 
disse, um dia, para Helena. - Ser que e  necessrio eu saltar 
para cima dele?
-        Tu merecias uma sova! - respondeu Helena.
Isto foi apenas o incio. Lucrezia tornara-se rebelde e 
respondia de forma rabugenta a Losskov, quando este lhe dizia 
algo como:
- Ajusta o pequeno traquete!
-        No, no me apetece! Vem c e f-lo tu prprio!
Depois agarrava-se ao mastro numa posio provocante, quase 
indecente, e esperava que Peter viesse busc-la. Mas ele no 
vinha. Helena fazia o trabalho de Lucrezia, enquanto Trosky se 
ria s gargalhadas.
-        A luta das nossas gracinhas! - gritava. - Que prazer 
observ-las!
A vida a bordo tornara-se cada vez mais desgastante, o 
ambiente cada vez mais pesado e a maneira como se tratavam de 
dia para dia mais rude. Ocorriam exploses de comportamento 
inesperadas, provocadas por bagatelas ridculas, como, por 
exemplo, os arrotos de Trosky ou os seus peidos depois de um 
almoo constitudo por batatas fritas, ovos mexidos e cebolas.
- Porco! - gritava Losskov e cerrava os punhos.
-        Eu sou o dono dos meus intestinos! - respondia Trosky.
Losskov tambm estava a tornar-se agressivo. Verificou, 
assustado, que comeava a compreender Trosky, quando este 
disparava com arco e flecha contra cabeas ou peitos de 
mulheres. s vezes, at tinha vontade de dizer: "Passa-me o 
arco e a flecha!", mas conseguia sempre dominar-se e acabava 
por fazer outra coisa qualquer, como, por exemplo, esculpir 
figuras bizarras em madeira.
Quando Trosky pescava, utilizava pequenos peixes como iscas e 
ficava contente quando um peixe maior engolia um mais pequeno. 
Quando conseguia pescar um peixe maior, matava-o com um pau e 
sentia uma grande satisfao ao faz-lo.
As coisas tornavam-se mais dramticas quando Helena tocava os 
seus discos. Trosky corria pelo convs, tapava os ouvidos e 
berrava:
- Socorro! Socorro! Bum-da-da-bum! Bum-da-da-bum! Porque e  
que ningum d cabo desse Beethoven?!
O barco atravessava o Atlntico a todo o pano. A fora do 
vento era de quarenta ns e o mar estava agitado, mas no era 
perigoso. s vezes, o poo enchia-se de gua, quando as vagas 
mais altas se quebravam sobre o barco, sacudin do-o. Trosky 
props que rizassem a genoa e continuassem apenas com o 
traquete. Losskov, porm, recusou essa ideia
- Temos de aproveitar o vento ao mximo! - gritou pa ra a 
outra ponta do convs, onde se encontrava Trosky.
- Eu tenho o barco sob controlo!
Tinham passado apenas cinco dias desde que Trosky mudara o 
rumo do barco. Losskov aguentara-se durante trs noites; 
depois cara para o lado e dormira dezanove horas. Durante 
esse tempo, Trosky voltara a desviar o barco, rumo  Terra do 
Fogo, apesar dos protestos de Helena.
-        No te aproximes do leme, rapariga! - gritava, zangado, 
quando ela tentava entrar no poo. - Eu bato-te, garanto que o 
farei! A tua carinha bonita no te adiantar de nada. Podes ir 
chamar o teu queridinho e pedir-lhe que te ajude, mas tenho a 
certeza de que ele no te servir de nada durante as prximas 
horas. Agora sou eu quem manda neste barco!
E assim foi. Helena sacudiu Losskov e tentou acord-lo aos 
gritos, mas sem sucesso. Peter dormia como se tivesse sido 
anestesiado. Quando por fim acordou e subiu para o convs, 
estava uma manh clara e calma com uma brisa leve e o mar 
calmo. Trosky acenou-lhe alegremente.
-        Bem-vindo, capito! O barco est em ordem. No h nada de 
anormal a relatar. Est tudo anotado no livro de bordo.,
-        At mesmo o novo rumo? - Losskov sentou-se ao lado de 
Trosky.
- Claro que sim. Mais tarde, ficaro admirados ao verem que 
navegmos em ziguezagues pelo oceano. Diro que devamos ser 
malucos. Ou ento que estvamos bbedos. - Trosky ergueu-se e 
afastou-se do leme. Fora Losskov quem se recusara a trazer 
aparelhos modernos a bordo. Por isso, no tinham registador de 
desvio de rota, nem um piloto automtico. Tudo tinha de ser 
feito manualmente. - Agora podes voltar para a tua rota.
-        J nos afastmos muito dela, no ? - perguntou Losskov 
com calma.
- Estamos a dirigir-nos directamente para a Terra do Fogo! No 
h caminho mais directo!
Peter olhou para o Sol, calculou a posio do barco e 
anotou-a, juntamente com a data, no mapa. O que Trosky dizia 
era verdade. Estavam a navegar em direco a sudoeste. 
Passariam por entre a costa brasileira e a plataforma de 
Bromley e entrariam na bacia argentina que tinha mais de 
setecentos metros de profundidade. Se continuassem nessa rota, 
veriam surgir as ilhas Falkland a estibordo e a Jrgia do Sul 
a bombordo. Passando entre as duas chegariam ao cabo Horne.
Quando ocorreria isso? Dali a vinte ou trinta dias?
-        Ento o que e  que achas? - perguntou Trosky num tom de 
voz irnico, quando Peter acabara as suas anotaes.
-        Continuaremos neste percurso! - Losskov fitou Trosky com 
um ar amargurado. - No estou a desistir, mas quero 
simplesmente chegar o mais rapidamente possvel ao nosso 
destino. Mas garanto-te que ajustaremos contas quando 
estivermos em terra.

 tarde, Trosky estava a pescar, encostado  balaustrada, 
quando de repente soltou um grito. A grossa cana de pesca 
vergara-se com tanta fora que quase o arrancara para o mar, e 
Trosky viu-se obrigado a apoiar as pernas com toda a fora 
contra a balaustrada.
-        Apanhei-o! - berrava. - Apanhei-o! e  um tubaro! 
Consegui apanh-lo!
-        Nesta zona no existem tubares! - respondeu-lhe Losskov, 
que estava no poo.
-        Mas eu consegui apanhar um, seu parvo! Vem c ajudar-me!
Peter amarrou o leme e correu para perto de Trosky. Helena e 
Lucrezia tambm apareceram no convs; Lucrezia estava nua, 
como era hbito em dias de sol. Agarrou imediatamente na cana 
de pesca e segurou-a juntamente com Trosky. Felizmente, a 
linha era suficientemente grossa para no se partir.
Peter olhou para o peixe. Tratava-se realmente de um tubaro 
que tentava soltar-se, fazendo movimentos bruscos. A sua 
barriga clara virou-se para cima, emergindo da gua, depois 
voltou a mergulhar. Tinha uma fora impressionante. Helena 
tambm ajudou a agarrar na cana de pesca, e assim os trs 
seguraram-na juntos, medindo foras com o tubaro.
-        Isto e  inacreditvel! - exclamou Losskov. - No h terra 
por perto, mas existem tubares! O que e  que ele estar a 
fazer aqui?
-        Quis transmitir-me os cumprimentos da tia Vasca de 
Karlsbad! - balbuciou Trosky. - Onde e  que est o arpo? 
Mata-o! Se no, este maldito animal ainda nos vence!
Losskov afastou-se a correr, voltou com o arpo e observou o 
tubaro que lutava desesperadamente pela liberdade. Contudo, 
quanto mais se mexia, mais o gancho pontiagudo se emaranhava 
no seu palato.
-        Ataca! - berrou Trosky. - Tenho as mos a tremer. Losskov 
inclinou-se para a frente com o arpo na mo direita. 
Apontou-o para a gua, reuniu toda a fora no ombro direito e 
esperou que o tubaro voltasse a surgir  superfcie da gua. 
Nesse preciso instante, quando o enorme peixe estava no ar, na 
horizontal  sua frente, Losskov atirou o ferro mortfero.
-        Acertaste! - gritou Trosky. - Fantstico! O arpo est 
encravado no seu corpo. Agora dem-lhe linha!
Trosky cortou a grossa linha do anzol com a faca, o tubaro 
afastou-se rapidamente, o fio do arpo desenrolou-se a alta 
velocidade; depois, quando o animal se julgou enfim livre, 
houve um grande empurro que quase lhe rasgou o corpo. A linha 
rangeu e esticou-se como a corda de um instrumento.
O tubaro voltou a aparecer  superfcie da gua com o arpo 
preso nas costas. Trosky debruara-se sobre a balaustrada e 
observava o peixe que lutava desesperadamente.
-        Vem ter comigo - disse, rouco. - Meu amigo, tu j s meu. 
Eu esperei por ti. Esperei durante todo este tempo...
A luta pela sobrevivncia durou mais de duas horas, no fim das 
quais finalmente as foras do peixe estavam esgotadas. Trosky 
recolheu a linha do arpo com a respirao ofegante e, quando 
o tubaro se aproximou do barco olhando para ele com uns olhos 
pequenos, frios e assassinos, Trosky atirou um fio de ao com 
um gancho para a sua nuca e puxou-o para bordo com a ajuda do 
pequeno sarilho. O animal fazia movimentos bruscos com o seu 
corpo pesado, mexendo as barbatanas.
-        Cuidado! - exclamou Losskov. - Ele ainda pode atacar-te. 
Espera, que eu vou mat-lo.
Trosky, porm, no esperou. Aproximou-se do peixe com uma 
longa faca na mo. O seu rosto brilhava, coberto de suor, e o 
seu sorriso parecia artificial e sem expresso, como se usasse 
uma mscara. Pousou os dois ps sobre o arpo. O tubaro, que 
estava deitado de lado, fez um movimento brusco, tentando 
levantar-se.
-        Comigo, no! - exclamou Trosky com um tom de voz 
estranhamente montono. Agachou-se e esfaqueou o animal. 
Primeiro, espetou a faca nos seus olhos, depois na nuca e a 
seguir vrias vezes no pescoo, no corpo e sobretudo na 
barriga. Havia sangue por todo o lado e Trosky tinha os braos 
vermelhos at aos cotovelos. Porm, no parava de apunhalar o 
tubaro e, quando por fim o tinha morto e apenas os nervos do 
peixe estremeciam, levantou o brao, espetou a faca na barriga 
do animal e abriu-a com um golpe. Helena teve de reprimir os 
vmitos, tapando a boca com as mos. Lucrezia desapareceu 
pelas escadas. Trosky, por seu lado, ficou ajoelhado em frente 
do tubaro, no meio de uma enorme poa de sangue e de carne, 
com a respirao ofegante, e olhou para Losskov.
- Ele e  meu - balbuciou Trosky com uma voz rouca.
- Ningum quer tirar-to.
- Eu consegui venc-lo. Ele tem mais de trs metros.
- Levanta-te e vai lavar-te! - disse Losskov.
Trosky abanou a cabea.
- O tubaro e  meu!
-        Eu tomo conta dele, Jan.
Trosky parecia satisfeito. Levantou-se, passou por cima do 
enorme peixe morto, deixou cair a faca e foi at  proa, onde 
tirou gua do mar com a ajuda de um balde pendurado numa 
corda. Teve de se lavar cinco vezes de seguida, retirando o 
sangue da pele, e depois foi para baixo, a fim de mudar de 
roupa. Os nervos do peixe ainda estremeciam de vez em quando. 
Os intestinos saiam do seu corpo cortado.
- Tenho medo - balbuciou Helena, que ainda estava enjoada. - 
Peer, eu tenho tanto medo...

Ao cair da noite, o tubaro tinha-se transformado num novo 
alvo para Trosky. Estava pendurado numa corda e Trosky atirava 
facas contra o seu cadver.
Acertava quase sempre com a faca na carne, com o que ficava 
visivelmente satisfeito.

Passaram-se mais vinte e dois dias.
Sempre rodeados pelo mar e pelo cu com sol ou chuva. Os dias 
eram quentes e hmidos e as noites frias. Viviam numa enorme 
solido. O barco baloiava pelo mar, que durante as 
tempestades ficava coberto de uma espuma branca e, quando no 
havia vento, parecia uma enorme massa uniforme e azul. Sentiam 
dio por tudo o que os rodeava, uma raiva cega ao verem-se uns 
aos outros... Era a runa de quatro seres humanos que se 
encontravam sobre alguns metros quadrados de plstico e de 
madeira, alumnio e vidro, numa imensa solido.
Entretanto, o tubaro estava completamente desfeito devido s 
facadas que levara de Trosky. Porm, continuava pendurado na 
popa a apodrecer ao sol. Devido ao clima hmido, a carne no 
secava, decompondo-se aos poucos. Nem sequer o vento conseguia 
eliminar o cheiro adocicado a carne podre que se sentia em 
todo o barco, at mesmo na cabina, e que se colava s paredes.
Helena e Lucrezia tentaram vrias vezes cortar a corda na qual 
estava pendurado o cadver, mas Trosky empurrava-as para o 
lado e at chegou a tentar bater em Luzi.
-        Este peixe e  meu! - berrou.
Por fim, Losskov conseguiu cortar o tubaro ao meio com a 
ajuda de um machado que atirou contra o cadver apodrecido. 
Trosky soltou um berro, atirou-se para cima de Losskov e 
empurrou-o para trs.
-        Seu estpido! - exclamou. - Seu invejoso! S porque tu 
no tens um peixe, destris o meu. Mas eu aviso-te: a partir 
de agora no tocas mais no meu peixe! Quem se aproximar dele, 
leva com uma faca no corpo!
-        Eu no aguento mais este cheiro! - gritou Losskov.
-        Mas eu suporto-o! Para mim, o vosso cheiro e  muito pior!
Peter calculava a posio do barco vrias vezes ao dia. 
Aproximavam-se das ilhas Falkland. A temperatura estava a 
descer, mesmo quando o Sol brilhava com toda a fora. A gua 
do mar tornara-se fria, dado que se aproximavam do Plo Sul, 
embora este ainda estivesse a milhares de milhas de distncia. 
O pior eram as noites. Tinham de vestir grossas camisolas e 
gorros de l por baixo dos oleados que eram obrigados a usar 
devido s ondas que mudavam bruscamente. Quando nascia um dia 
quente que fazia subir as temperaturas, voltavam a despir os 
oleados.
Num desses dias, Lucrezia conseguiu cortar a corda na qual 
estava pendurado o cadver do tubaro e deit-lo para o mar, 
enquanto Trosky comia uma sopa de massa no salo. O cadver 
estava to podre que rebentou ao cair na gua. Lucrezia ficou 
to enjoada que teve de respirar fundo, at se sentir um pouco 
melhor.

Todos estavam habituados aos berros de Trosky, mas aquilo que 
ouviram nesse dia foi diferente. Trosky apareceu no convs de 
barriga cheia e satisfeito. A primeira coisa que fez foi olhar 
para o lugar onde costumava estar pendurado o cadver. Porm, 
o tubaro desaparecera. Restava apenas o poste e algumas 
cordas cortadas.
O grito que Trosky soltou nem parecia humano. O seu rosto, com 
uma barba selvagem de trs semanas, contraiu-se de uma maneira 
horrvel. Precipitou-se para a proa, olhou para o mar e depois 
uivou como um lobo.
Lucrezia, que estava na cabina, refugiou-se no seu camarote e 
trancou a porta.
Losskov pousou a sua pistola na mesa e deu outra a Helena que 
estava sentada num canto, aterrorizada.
- Juntos conseguiremos enfrentar esta situao! - gritou, num 
tom de voz duro. - Meu Deus, eu serei capaz de disparar contra 
ele!
-        Isso transformar-te-ia num assassino!
-        Estaria a agir em autodefesa, Helena.
-        Como e  que mais tarde vais explicar o que se passou?
-        Mais tarde? Quem e  que se lembrar de falar disso? - 
Riu-se, amargurado. - Direi simplesmente que uma vaga enorme o 
arrastou para o mar. Direi que ele no teve cuidado 
suficiente, que no apertou bem o seu cinto de segurana, que 
o vento soprava a quarenta e cinco ns e as vagas 
despenhavam-se sobre o barco. Quem e  que ser capaz de provar 
que tudo isto no e  verdade?! Eu poderia at anotar este 
acontecimento no livro de bordo.
-        Tu no serias capaz de matar um ser humano. Sabes muito 
bem que no serias capaz!
L em cima, Trosky continuava a chorar. De repente, 
precipitou-se em direco s escadas e desceu-as 
apressadamente. Reparou imediatamente na pistola de Peter e em 
Helena que pegou na dela.
-        Quem e  que foi? - berrou Trosky com uma voz rouca. - Foi 
aquela vadia com cio! S pode ter sido ela! Ela estava sozinha 
l em cima enquanto ns comamos a nossa sopa! - Ficou parado 
perto das escadas, cerrou os punhos e olhou para a porta do 
camarote de Lucrezia. - Sai da, sua estpida! A porta no te 
serve de nada! Eu arrombo-a com um simples pontap!
- Primeiro, ters de l chegar! - disse Losskov com uma voz 
fria.
-        E vocs pensam que podem impedir-me disso com as vossas 
pistolas? - Trosky riu-se s gargalhadas. O tom de loucura que 
se ouvia nesse riso causou arrepios a Peter. - Vocs querem 
mesmo disparar contra mim?
Trosky avanou um passo. Losskov levantou a pistola e 
apontou-a para o peito de Trosky. Este ficou imvel.
-        Eu amaldioo-vos! - clamou, rouco. - Que todos me oiam: 
eu amaldioo-vos! Quero que morram! Tanto me faz o que ir 
acontecer-me, mas quero que vocs morram da maneira mais cruel 
possvel! - De repente, comeou a chorar. Sentou-se ao lado de 
Helena no banco, encostou a cabea para trs, abriu a boca e 
soluou como uma criana. O seu corpo estremecia, e a saliva 
escorria pelos cantos da boca para a sua barba selvagem.
Era uma imagem horrvel, que teria suscitado compaixo se no 
se tratasse de Trosky.
-        Apanharemos outro peixe - animou-o Losskov. - Perto da 
Terra do Fogo h zonas com milhares de peixes. Existem focas. 
Ilhas inteiras povoadas por focas! E at mesmo pequenas 
baleias. Em breve, entraremos numa zona de baleias.
-        Este foi o meu primeiro tubaro - gemeu Trosky. - Lutei 
com ele durante trs horas. Ele pertencia-me.
-        Mas o cadver dele j estava a decompor-se!
-        Isso e  razo para deit-lo fora? Ns tambm estamos a 
decompor-nos. E algum nos atira para o mar?
- Isso ainda ter de ser decidido - afirmou Losskov.
- Quando a gua potvel chegar ao fim, teremos de decidir o 
que fazer. Talvez tenhamos de mudar de rumo, em direco s 
ilhas Falkland. As calmarias atrasaram-nos quase trs semanas 
e a gua j no chega para irmos at ao cabo Horne sem parar.
-        Mas os estpidos dos teus amigos viquingues foram capazes 
de faz-lo, no foram? - gritou Trosky. - Eles bebiam urina, 
ou o qu?
-        Talvez eles tivessem tido mais sorte e um vento mais 
favorvel, Jan. Queres um usque?
-        Vai-te lixar!
-        Se isso te tornar mais sensato...
Trosky fitou Losskov com uns olhos vermelhos. Depois, 
levantou-se do banco, lanou mais um ltimo olhar para a porta 
trancada, atrs da qual Lucrezia estava deitada na cama, a 
tremer, e voltou a subir para o convs. Helena encostou-se 
para trs com um suspiro. O revlver caiu da sua mo, 
resvalando para o cho.
-        Eu rezei - disse, devagar. - Tu realmente terias 
disparado?
-        No. - Losskov baixou a cabea. - Eu no sei.
-        Mas eu sei que eu teria disparado! - Helena fechou os 
olhos e o seu corpo estremeceu. - Eu teria mesmo disparado. 
Por isso e  que eu rezei.
No dia seguinte, Trosky vingou-se de Lucrezia.
Tudo aconteceu muito rapidamente, sem qualquer palavra ou 
gesto que o deixasse prever.
De repente, Trosky encontrava-se ao lado de Lucrezia, que 
estava deitada ao sol. Desta vez era ele quem trazia uma 
pistola. Disparou contra Losskov, que correu do poo para a 
popa, e a bala passou ao lado. Trosky no acertara de 
propsito, mas aquele tiro servia de aviso. Com uma fora 
enorme, Trosky agarrou Lucrezia; ela soltou um grito 
estridente, tentando defender-se. Trosky conseguiu com apenas 
uma mo atirar o corpo dela contra o convs e agarrar a sua 
cabea pelos longos cabelos. Depois, atirou-se para cima dela, 
ps os joelhos entre as suas pernas, estendeu as suas coxas e 
por um momento pousou a pistola no cho para abrir as calas.
Os gritos de Lucrezia tornaram-se estridentes, quase inumanos. 
Losskov aproximou-se, mas Trosky tinha de novo a arma na mo. 
Pressionou Lucrezia para baixo com o peso do seu corpo e 
disparou. A bala s no acertou em Peter porque este tropeou 
e caiu para o lado. Helena apareceu nas escadas e, quando viu 
o que se passava, agachou-se imediatamente,tentando desviar-se 
do tiro que Trosky disparara contra o tecto da cabina.
-        Tem de se pagar por tudo na vida! - gritou Trosky fora de 
si. - E agora chegou a altura de eu ajustar contas pelo que 
fizeram ao meu tubaro!
Com a pistola numa mo e segurando a cabea de Lucrezia com a 
outra, Trosky apoderou-se do corpo nu de Lucrezia com uma 
ferocidade quase animalesca. Os gritos de Lucrezia 
transformaram-se num gemido; depois, desistiu de lutar contra 
ele. Espreguiou-se, e deixou cair os braos para o lado, 
permitindo a Trosky agir.
Quando ele enfim a largou, Lucrezia parecia morta. 
Assemelhava-se a uma bonita boneca a quem se arrancara os 
membros.
Trosky olhou para ela e, de repente, ajoelhou-se, beijou 
carinhosamente as plpebras dos seus olhos fechados, a sua 
boca, o pescoo, o peito e todo o seu corpo. A seguir, deu-lhe 
uma grande bofetada.
-        Pronto, era s isto! - proferiu com uma indiferena 
assustadora. Abotoou as calas e deitou a pistola aos ps de 
Losskov. - E agora podes dar-me um tiro, meu amigo. Eu no 
fujo.
Losskov baixou-se e apanhou a arma, deixando-a porm pendurada 
na mo.
-        Vai-te embora! - disse, devagar.
-        O que e  que foi? - Trosky posicionou-se de pernas 
abertas em frente a Lucrezia que ainda no se movera. - Porque 
e  que no disparas? Tens escrpulos por eu estar desarmado? 
Os animais selvagens tambm no tm arma para se defenderem 
quando so caados e mesmo assim os caadores matam-nos! Eu 
sou um animal selvagem e tu podes matar-me  vontade, Peer!
-        Vai-te embora! - repetiu Losskov.
Trosky hesitou um instante, depois passou em passos lentos por 
Losskov, como se estivesse  espera que este o atacasse a 
qualquer momento, dando-lhe por exemplo um forte empurro e 
atirando-o para o mar. Esta era a grande oportunidade de 
Losskov de se ver livre de Trosky sem grandes problemas. 
Bastava continuar a navegar a todo o pano. Se Trosky casse 
para a gua, nunca alcanaria o barco a nado, j que este 
avanava a alta velocidade.
Ao chegar s escadas, Trosky ficou parado.
-        Eu no sei de que e  que tu ests  espera - declarou. - 
Nunca mais ters uma oportunidade destas!
Mal Trosky desaparecera pelas escadas, Lucrezia levantou-se 
com um salto, correu at  popa, desceu as escadas que 
normalmente serviam para tomar banho no mar, pendurou-se a um 
degrau e deixou o seu corpo flutuar nas ondas. Dez minutos 
depois, voltou para o convs, abanou-se como um co e torceu o 
cabelo.
-        Eu tinha de me lavar depois disto - comunicou a Losskov, 
que lhe atirou uma toalha. - Agora j me sinto melhor. Que 
besta!

A meio dessa noite, Helena acordou. Algum fizera barulho no 
salo. Levantou a cabea e julgou ver Lucrezia a passar para o 
camarote de Trosky. Era uma sombra clara...
Helena esperou alguns segundos e depois correu nas pontas dos 
ps para o convs. Peter Losskov estava sentado no poo. Atara 
o leme e estava a ler um livro  luz de uma lanterna a pilhas.
- A Luzi foi para o camarote do Jan! - disse, sem flego. - 
Agora mesmo, h alguns segundos.
- Finge que no viste nada! Que ela o mate  vontade!
- Duvido que o mate - expressou-se Helena, num tom de voz 
sarcstico. - Ela estava nua...
A partir dessa noite, Lucrezia e Trosky passaram a habitar 
juntos um camarote.
- Agora as frentes esto bem definidas - afirmou Trosky a 
Losskov. - Estabelecemos o equilbrio. No vale a pena teres 
vergonha e fazeres o papel de moralista. Vai ter com a tua 
Helena e goza uns bons momentos antes de morrermos todos neste 
maldito oceano!

Trs dias depois, houve uma tempestade. Com apenas o pequeno 
traquete iado, o barco danava nas vagas enormes, caa para 
enormes vales de gua e voltava a disparar para cima em 
direco ao cu cinzento. Caa de um lado para o outro, o 
mastro afundava-se no mar bravo; o barco, porm, no se 
afundava, dado que o lastro o mantinha sempre direito e as 
cmaras esponjosas no casco duplo faziam com que voltasse 
sempre para a superfcie. O oceano tentava dar cabo deles, sem 
piedade, lanando ondas enormes para cima do barco. Losskov e 
Trosky encontravam-se no poo, presos aos cintos de segurana 
e atados a cordas pelas quais podiam correr por todo o barco, 
em caso de emergncia. Quando uma vaga surgia no horizonte, 
apoiavam-se contra o leme e encolhiam a cabea. Nessas 
alturas, o barco ficava na vertical e era lanado para o ar, 
para um vazio cinzento e sibilante; em seguida, caa para a 
profundeza agitada e devoradora.
- Este maldito oceano no vai apanhar-nos! - gritava Trosky 
com um ar triunfante para o ouvido de Losskov. - Ns vamos 
mostrar-lhe que somos mais fortes!
Fitou Losskov, encharcado e com um olhar brilhante. O seu 
rosto, coberto pela barba selvagem, emanava fora e coragem. 
Era um homem que com cada onda que os ameaava se tornava mais 
forte, capaz de se rir numa altura em que os outros ficavam 
aterrorizados.
"Ele realmente e  louco", pensou Losskov, agachando-se ao ver 
uma onda aproximar-se. Porm, estava feliz por ele existir e 
se encontrar ao seu lado nessa altura.

Ser um ser humano capaz de sobreviver a uma tempestade que 
dura sete dias e sete noites?
Conseguir o seu corao e o seu crebro suportar tanta 
agitao num mar bravo e cheio de espuma, tornando-se num 
objecto indolente entregue a foras desenfreadas da Natureza, 
sendo rodeado pelo barulho ensurdecedor das vagas e o uivar da 
tempestade, apenas com um nico e pequeno consolo: 
"Sobreviveremos! No nos podemos afundar! O mar pode partir os 
nossos ossos, mas ns ficamos  superficie!"
Ser um homem capaz de aguentar tudo isso? Durante sete dias e 
sete noites?
Eles aguentaram. Helena e Lucrezia, sempre presas por ganchos 
na cabina, e Losskov e Trosky no poo, pendurados entre os 
cabos, agachando-se cada vez que uma onda se despenhava sobre 
o barco e aconchegando-se o mais possvel um ao outro para 
reduzirem ao mnimo a superfcie deles, e separando-se de novo 
logo de seguida, para tentarem desesperadamente manter 
manualmente o barco sobre as ondas, arriscando as suas vidas 
constantemente.
O medidor de vento falhava. A sua escala chegava apenas at 
aos sessenta e cinco ns, quando nessa altura o vento j 
soprava no mnimo a oitenta ns. Isso representava uma 
velocidade do vento de mais de cem milhas! Nessa situao, no 
valia a pena pensar em navegar ou tentar definir a posio do 
barco. J no havia sol, apenas um cu cinzento uivante, que 
de vez em quando era trespassado por pedaos de nuvens, para o 
qual o oceano uivava.
Foram sete dias e sete noites.
A partir do quinto dia, Trosky e Losskov revezaram-se; cada um 
dormia cinco horas. Pode parecer absurdo, mas eles realmente 
dormiam. Amarravam-se  cama e ficavam inconscientes mal se 
deitavam. Helena ou Lucrezia tinham de acord-los, e eles 
subiam, meio tontos, para o convs, onde eram recebidos por 
enormes vagas que atiravam grandes quantidades de gua para a 
cabina.
-        J h muito que devemos ter passado pelas ilhas Falkland 
- disse Losskov ao sexto dia. - A tempestade sopra para 
sudeste. Estamos a aproximar-nos da Terra do Fogo!
-        E e  l que queremos ir! - berrou Trosky contra o vento. 
Nem sequer era possvel ouvir o seu riso; apenas era visvel 
no seu rosto. - O cabo Horne est a preparar-nos uma recepo 
adequada. O maldito do cabo sabe como deve tratar um homem do 
mar!
-        Ser que os icebergues tambm o sabem? - gritou Peter 
para o ouvido de Trosky. Este olhou para ele admirado.
-        Porqu os icebergues?
-        Com o vento que h, e  possvel que o gelo seja arrastado 
at aqui. At mesmo nesta altura do ano!
-        Mas o vento est a soprar na direco oposta!
-        Ns estamos a aproximar-nos do gelo.
Cobriram-se com um oleado e agacharam-se no poo.
O mar despenhava-se por cima deles, esmagando-os como se
fosse um enorme punho. As bombas de gua tinham atingido o 
limite das suas capacidades. A gua chegava aos joelhos de
Trosky e Losskov.
-        O que e  que diz o boletim meteorolgico? - gritou 
Trosky.
- Forte tempestade. E temperaturas a descer. Isso preocupa-me.
- Quando e  que utilizaste o rdio pela ltima vez? - Trosky 
olhou para Losskov com um ar assustado, como se tivesse 
descoberto algo de horrvel. - Meu Deus, s agora e  que me 
lembrei disso! Ser que a nossa posio e  conhecida?
- No, desde Tenerife que no demos sinal.
- Desde Tenerife. . .? - Trosky engoliu em seco. - Tu ests 
completamente doido?
-        O rdio serve apenas para situaes de emergncia, e at 
agora ainda no surgiu nenhuma! Os Viquingues tambm no 
tinham rdio.
-        Meu Deus! Seu imbecil! - Trosky agachou-se. Uma vaga 
enorme despenhou-se sobre o barco. - Isso quer dizer que ns 
j no existimos para o resto do mundo! Peer, cus, ser que 
tu no entendes? H vrias semanas que ns j no fazemos 
parte do mundo dos vivos! Estamos mortos para o resto do 
mundo! Devorados pelo oceano Atlntico! Deixmos de existir! - 
O olhar de Trosky voltou a mostrar um tremelicar perigoso. - 
H muito tempo que j fomos esquecidos.
-        O Dieter Randler est  nossa espera em Ushuaia.
-        Ns nunca l chegaremos!
-        Quem e  que diz isso? - Losskov tentou cobrir-se mais 
ainda com o oleado. - Depois desta tempestade, o Sol voltar a 
brilhar. Isso e  uma lei da Natureza que tambm e  vlida no 
cabo Horne. E basta aparecer o Sol para sabermos onde nos 
encontramos. Nessa altura, teremos conseguido. J falta pouco, 
Jan. Devemos estar a dirigir-nos para o cabo Horne.
-        Desde Tenerife que ele no d sinal de vida... - murmurou 
Trosky. - Quem ser capaz de compreender isso?
"Os Viquingues tambm no tinham rdio..." Meu Deus... Riu-se 
de uma maneira histrica, deu um murro na barriga de Losskov, 
saiu de debaixo do oleado e foi ao longo da corda at s 
escadas. Depois soltou o gancho e deixou-se cair para dentro 
da cabina.
-        Sabem que agora nos tornmos numa espcie de "holandeses 
errantes" - gritou para as raparigas que ficaram horrorizadas. 
- Sim, e  verdade! Agora somos uns fantasmas! Peer fez com que 
deixssemos de ser seres vivos!
Despiu o oleado, sentou-se ao lado do rdio e ligou a bateria. 
Os ponteiros de controlo oscilavam de um lado para o outro. 
Era sinal de que a mquina funcionava.
-        Eu vou dar noticias do Alm. Quer o nosso viquingue l em 
cima queira, quer no!
Enviou a mensagem de socorro, mas ningum lhe respondeu. 
Tentou vezes sem fim. Porm, era como se a tempestade 
engolisse todos os sinais.
-        Eu sabia que isto iria acontecer! - exclamou Trosky e 
teve de desistir, resignado. - Tenho a horrvel sensao de 
que demos cabo de ns prprios.
Na oitava noite, ningum ficou no poo e o leme tinha 
simplesmente sido amarrado. O barco danava no mar por entre 
as enormes vagas e estavam todos a dormir nos camarotes, dado 
que tinham ouvido no rdio que a tempestade iria amainar e que 
o centro se deslocaria para o mar de Schouten. Precisamente 
nessa noite, em que todos pensavam por fim ter superado a 
grande prova, o barco foi abalado por uma forte pancada.
Trosky, que estava a dormir profundamente ao lado de Lucrezia, 
com a sua grande mo pousada no peito dela, despertou 
repentinamente e sentou-se. Lucrezia virou-se para o lado, 
ainda meio a dormir.
-        O que e  que h? - murmurou. - Tu sabes o que ...
-        O que eu ouvi no foi nenhuma onda! - Trosky estava bem 
acordado. O barco movimentava-se de uma forma estranha, 
diferente do habitual. Trosky tinha uma grande sensibilidade 
para esse tipo de coisas. - O barco bateu contra algo.
-        Ter sido outro tubaro?
-        No sejas parva! - Passou por cima do corpo nu de 
Lucrezia e pegou nas calas. No mesmo instante, ouviram algum 
bater  porta.
-        Todos para fora! - gritou Losskov. - Estamos a meter 
gua!
-        Bem me parecia - disse Trosky. - Meu Deus, eu senti o que 
estava a acontecer.
Abriu bruscamente a porta e viu Helena vestida com um oleado a 
correr para o topo da proa. A parede, que era resistente  
gua, tinha j um buraco. Losskov encontrava-se nas escadas e 
estava a vestir uma camisola.
-        Que grande porcaria! - gritou ao ver Trosky.
-        Onde e  que ?
-        No topo da proa! Ainda no sei o que est a acontecer l 
fora. Apenas sei que temos um rombo.
-        Mas ns somos "inafundveis"! - disse Trosky com um 
sarcasmo amargurado na voz. - O cabo Horne deve ser de outra 
opinio.
Correram para o convs e no foi difcil descobrir o que 
acontecera. O barco encontrava-se numa zona com enormes 
pedaos de gelo. Aquilo que viam at parecia engraado: os 
inmeros blocos de gelo de variadas formas danavam sobre a 
superfcie preta da gua. Parecia um puzzle desfeito com uma 
largura no superior a trezentos metros e um comprimento de 
cerca de quatrocentos metros. Formava uma pequena mancha 
branca naquele enorme oceano e era proveniente da regio polar 
sul, de uma distncia de milhares de milhas. At poderia 
chamar-se-lhe uma colnia migratria de pedaos de gelo que se 
perdera no mar. E foi exactamente em direco a ela que o 
barco fora arrastado, esbarrando contra um dos pedaos de 
gelo.
Uma ponta do gelo encravara-se na proa como um machado, 
permitindo que a gua entrasse no barco que, entretanto, j 
estava ligeiramente adornado para a frente. Parecia que ia 
mergulhar no mar.
Trosky correu para a frente e debruou-se sobre a balaustrada. 
O buraco j estava abaixo do nvel da gua e o topo da proa 
enchera-se de gua. Aproximou-se a passos lentos de Losskov, 
que entretanto soltara o leme e dava ordens a Helena e a 
Lucrezia. Mandou-as iar o genoa II para alm do traquete, 
permitindo assim que o barco aproveitasse melhor o vento e 
avanasse por entre os pedaos de gelo. J no valia a pena 
tentar desviar-se. Encontravam-se no meio do gelo, mas entre 
cada um dos pedaos havia espao suficiente para se poder 
contorn-los.
-        Qual o cntico que sabem cantar? - perguntou Trosky 
amargurado. - No Titanic cantaram A minha alma eleva-se, 
Senhor, mas infelizmente eu no conheo a letra dessa msica.
-        A parede do barco aguenta-se! - exclamou Losskov, 
decidido. - No iremos afundar-nos!
-        Diz isso ao mar!
-        Apenas h gua no topo da proa!
-        O barco tem o focinho na gua!
-        Dentro de alguns minutos teremos achicado tanto que 
poderei pr uma bomba de gua suplementar na proa. Ento vocs 
tero que dar  bomba manualmente. Eu necessitarei das 
baterias para outros fins.
-        Estou a compreender! - Trosky mostrou um sorriso forado. 
- Agora, de repente, lembraste-te de que tens um rdio.
-        Ns no iremos afundar-nos! - gritou Losskov, nervoso. - 
Mesmo que a proa do barco esteja dentro de gua ns 
continuaremos a navegar.
-        E daremos a volta ao cabo Horne?! Ser que existe um 
Prmio Nobel para a megalomania?
Trosky voltou para a proa. A bomba estava a funcionar bem e o 
barco endireitava-se aos poucos, mas era provvel que o mar 
ganhasse aquela batalha. O barco fora construdo com o fim de 
nunca se afundar. Fora submetido a vrias provas; contudo, 
nunca ningum acreditara seriamente que algo acontecesse. 
Assim, as trs bombas de que dispunham tinham um tamanho que 
satisfazia mais a vista do que as verdadeiras necessidades em 
situao de emergncia. Trosky voltou para o poo. Losskov 
conseguira atravessar a zona de gelo sem danificar mais o 
barco. Tinham de novo o mar sem obstculos pela frente. 
Analisaram a zona circundante com a ajuda de um holofote e 
Peter pareceu confiante.
-        Eu vou para o lado de fora tentar tapar o buraco - 
declarou Trosky. - No conseguiremos resistir contra a presso 
de gua. - Despiu-se e hesitou um pouco. O ar estava frio e a 
gua tinha apenas alguns graus de temperatura. - Se daqui a 
pouco vires um pedao de gelo com uma forma um pouco estranha, 
serei eu.
Passou por cima da balaustrada, avanou pelos cabos das 
defensas e depois voltou a subir rapidamente. Lucrezia deu-lhe 
um roupo e secou o seu corpo. Trosky tremia de frio.
-        Eu s consegui apalpar o buraco. e  suficientemente 
grande para caberem duas mos nele. Se o mar se acalmar, 
poderemos tap-lo amanh.
- Como? - perguntou Losskov. Era uma pergunta simples, mas ao 
mesmo tempo muito complexa. Trosky ficou calado. Helena 
apareceu com um grande copo de usque na mo, o qual Trosky 
bebeu de uma s vez.
-        Que material e  que temos  disposio? - perguntou.
-        Nenhum.
-        Isso e  impossvel! - balbuciou Trosky.
-        O barco e  inafundvel.
-        Ao menos uma lona! E alcatro! Posso tentar tapar o 
buraco com uma lona coberta de alcatro. Assim, poderemos 
vedar a parede do lado de dentro depois de termos retirado 
toda a gua do barco.
-        Eu no tenho alcatro. Apenas tenho trs placas de fibra 
de vidro e um balde com cola especial para polister que, 
porm, s pode ser utilizada sobre superfcies secas.
- e  a soluo! Colaremos uma placa do lado de dentro do 
buraco! E depois navegaremos o mais rapidamente possvel para 
a costa... No importa que costa! Nem que seja terra habitada 
por pinguins!
-        E como e  que podemos evitar que a gua entre no barco 
enquanto o estivermos a esvaziar?
-        Eu prego tbuas do lado de fora! - gritou Trosky.
-        Pregos num casco de plstico?
-        Mais tarde taparemos os buracos provocados pelos pregos 
com fita-cola!
- Podemos tentar - concordou Losskov. - Rizem todas as velas! 
Se Deus estiver connosco, mandar-nos- sol amanh.
Mas Deus no os ajudou. Proporcionou-lhes outra tempestade.
Enquanto no rdio anunciavam que o tempo iria acalmar, cada 
vez mais vagas batiam contra o barco e lanavam a gua para o 
convs. A fora das ondas fazia aumentar o tamanho do buraco. 
A presso da gua era to forte que Helena de vez em quando 
subia as escadas, avanava ao longo de uma corda at ao poo e 
gritava para Losskov:
-        Tenho medo que a parede da proa se parta! J est a 
deixar passar a gua. A Luzi est a bombear no salo.
- A parede vai aguentar-se! - gritou Losskov atravs da 
tempestade. - No tenhas medo, Helena!
Depois de ela ter aparecido pela terceira vez, Trosky 
perguntou:
- Tu realmente acreditas que vai aguentar-se?
-        No, o mar pode dar cabo de toda a parede.
- Isso quer dizer que este e  o nosso fim?
- Ainda no. Por enquanto, o barco est inteiro.
- At quando?
Losskov apontou para cima, para o cu.
-        Pergunta-Lhe a Ele!
Trosky mostrou um ar teimoso.
- Vai para baixo! - berrou. - Eu fico a segurar o leme 
sozinho! Manda o sinal de SOS!
- Se e  que algum nos ouvir!
- Agora devemos estar mais prximos da Terra do Fogo.
-        Segundo os meus clculos, estamos a aproximar-nos 
rapidamente do arquiplago dos Estados.
-        Isso seria maravilhoso!
-        Se no tivermos em conta os recifes  volta. - Losskov 
segurou-se  corda. - E mesmo que nos oiam... quem e  que nos 
vir buscar com esta tempestade? Quem e  que nos encontrar 
aqui? Eu nem sequer sei qual a nossa posio. Encontramo-nos 
algures no oceano Atlntico, a norte do arquiplago dos 
Estados ou ento mais longe, perto do cabo Horne. Onde e  que 
nos podero procurar?
- Experimenta! - gritou Trosky. Uma nova vaga empurrou-o 
contra a parede do poo. Quando toda a espuma branca acabara 
de escorrer, a sua cabea emergiu da gua. Tinha a boca aberta 
e tentava apanhar ar. - Basta que nos oiam! e  a nossa nica 
esperana, Peer!
Losskov ficou sentado durante uma hora ao lado do rdio dando 
sinais de SOS. Atrs dele, Helena e Lucrezia davam  bomba 
tentando tirar a gua do cho que entrava por fendas da proa.
-S-O-S... - dizia Losskov. - Aqui barco  vela Helu. D-J 
trezentos e quarenta e oito. Quatro pessoas a bordo. Duas 
mulheres e dois homens. Fala Peter Losskov, Hamburgo. S-O-S... 
S-O-S... Temos um rombo... Estamos a meter gua na proa... A 
parede no est a vedar... S-O-S... S-O-S... Eu no sei quanto 
tempo o barco ainda aguentar... Em breve a bomba de gua j 
no servir de nada... S-O-S... S-O-S... Encontramo-nos perto 
do arquiplago dos Estados. Estamos a ir com o vento para 
sudeste.
Peter esperou. Nos auscultadores ouviam-se vrios barulhos e 
rudos. Depois um leve assobio. E, pelo meio, muito difcil de 
ouvir e pouco clara... uma voz!
-        Eles esto a ouvir-nos! - gritou Losskov. - Conseguem 
ouvir-nos!
Repetiu a mensagem em ingls, sempre intercalando o SOS, o 
sinal internacional de socorro. A voz que se ouvia, muito 
baixinha e ao longe, respondia-lhes em espanhol. Depois falou 
em ingls, um ingls muito precrio e interrompido por 
interferncias.
- Aqui Pablo Cerroso. Pablo Cerroso. Encontro-me em Rio 
Gallegos. Sou amador. Rio Gallegos. Onde e  que esto? Recebi 
o vosso S-O-S! Dem-me a vossa posio!
- Um amador de rdio! - exclamou Losskov, respirando 
pesadamente. - Apenas ele. Todos os outros ficam calados. Est 
em Rio Gallegos. Meu Deus, eu preciso de um barco! Um barco 
grande e forte que consiga alcanar-nos e que nos salve! E 
tinha de nos calhar um simples amador! - Riu-se, amargurado, e 
voltou a falar para o rdio.
-        Posio incerta. Algures perto do arquiplago dos Estados 
ou mais a sul. S-O-S... S-O-S... Pablo, v buscar ajuda! Se 
no, ns morremos afogados! Pablo, avise o maior nmero de 
pessoas possvel! Consegue ouvir-me, Pablo.. .?
No houve resposta. Apenas um assobiar e estranhos barulhos. 
Losskov virou-se para as raparigas. A gua no cho do salo 
estava a subir; j tinha um palmo de altura e elas no paravam 
de dar  bomba.
Losskov conseguiu estabelecer contacto por mais trs vezes. 
Uma vez era um barco a motor chamado La Paloma, ele prprio em 
situao de perigo, a outra era um cargueiro de nome Cordoba 
III, que indicou a sua posio. Encontrava-se a duzentos e 
cinquenta milhas de distncia do Helu, isto partindo do 
pressuposto de que realmente se encontravam onde Losskov 
pensava. O terceiro barco com o qual entraram em contacto foi 
o barco a motor Prince Polignac que lutava contra uma 
tempestade a norte das ilhas Wollaston. Encontrava-se muito 
perto deles, mas como haveria de encontr-los?
-        Estamos a tentar encontr-los - consolava-os um dos 
ocupantes do Prince Polignac. - Vamos dirigir-nos para o 
arquiplago dos Estados onde alarmaremos a Guarda Costeira. 
Deus esteja convosco.
A parede da proa aguentou todo o dia seguinte. Trosky ficou 
admirado, dado que entretanto o buraco tornara-se to grande 
que j no havia hipteses de tap-lo, nem mesmo com bom 
tempo. O Helu estava perdido, isso j todos tinham 
compreendido. Porm, continuava  superfcie do mar, com a 
proa mergulhada na gua, fazendo o convs parecer um 
trampolim. J no fazia sentido navegar com o traquete. 
Losskov mandou rizar a vela, mantendo-se porm perto do 
mastro, pronto para tentar restabelecer o balano em situaes 
de perigo.
Durante uma das suas horas de folga, Trosky dirigiu-se para o 
convs e afixou-se com um gancho  corda.
-        O que e  que h? - perguntou Losskov. - Estamos a meter 
gua?
-        No. Eu s queria dizer-te que s um tipo fantstico.
-        E para isso expes-te aqui ao perigo?
-        Acho que vale a pena.
-        Est bem! - Losskov mostrou um sorriso forado. Estava 
dentro do poo preso a quatro ganchos, completamente 
encharcado. - Daqui a pouco, eu venho c para cima e digo-te 
que tu s um tipo simptico. Que vamos esquecer tudo o que se 
passou...
-        Eu no vim aqui para pagar dvidas! - comentou Trosky 
rapidamente. - Nem penses nisso! Eu s quero sobreviver!
O Prince Polignac no apareceu. Nem sequer deu uma resposta. 
Apenas o amador do Rio Gallegos voltou a dar sinal, quando no 
terceiro dia Losskov voltou a emitir o seu sinal de SOS.
- Aqui Pablo! Aqui Pablo! Alarmei tudo e todos. Continuo a 
solicitar ajuda para vocs. Mas qual e  a vossa posio?
- Eu no sei! - A voz de Losskov tremia. - J no tenho meios 
para me orientar. Desde hoje que nem sequer um compasso temos! 
O mar est a brincar connosco. Teremos de abandonar o barco. 
Apesar de estarmos a retirar a gua com a ajuda de uma bomba, 
o barco est a encher. Pablo, o senhor e  a nossa nica 
esperana! No pare de chamar! Mobilize tudo e todos!
- Eu fao o que puder. Se ao menos soubssemos onde se 
encontram!
 noite, o leme partiu-se. Uma vaga gigante ergueu o barco 
para o cu e f-lo cair para um vale de gua. At mesmo 
Trosky, que normalmente insultava o mar e se agarrava com toda 
a fora ao gancho, soltou um grito selvagem. Depois, no 
conseguiu ver nada durante alguns instantes e, quando voltou a 
emergir, compreendeu que o barco, embora ainda se mantivesse  
superfcie da gua, estava praticamente inutilizvel.
Trosky dirigiu-se pela corda at s escadas e caiu para a 
cabina. Losskov e as duas raparigas estavam presas s varas 
para esse efeito.
-        Eu sei - disse Losskov e ps o brao  volta de Trosky. - 
O leme desapareceu. Tu, l em cima, no conseguiste ouvir a 
pancada, mas agora um dos camarotes tambm est a meter gua.
-        Quanto tempo iremos aguentar assim? - Trosky olhou para 
as raparigas. Durante aqueles ltimos dias, os seus rostos 
tinham adquirido feies duras e rijas.
-        Temos mais trs horas. - Losskov esfregou os olhos. - 
Teremos de ir para a ilha de salvao. Ainda bem que 
treinmos. Cada um de ns leva um saco com comida e gua.
Subiram para o convs, fixaram-se aos ganchos e prepararam a 
ilha de borracha. As enormes vagas empurravam-nos de um lado 
para o outro, mas, quando enfim tinham metido tudo em sacos de 
plstico, conseguiram segurar a ilha de todos os lados. 
Losskov tentou recapitular aquilo que levavam consigo: 
provises constitudas por po endurecido, gua em latas, 
barras de fruta cristalizada, chocolate de cola sem acar, 
tostas, carne em latas, bolachas e polpa de fruta. Tinham 
tambm comprimidos contra dores e febre, pomada para feridas, 
ligaduras e pensos adesivos, cobertores, cordas, pistolas de 
sinalizao, coletes de salvao, lanternas manuais a 
baterias, duas luzes de socorro vermelhas, camisolas, 
cachecis, botas de pele, casacos, um rdio transstor... A 
ilha ficaria cheia.
Eram quatro seres humanos e um co nas mos de Deus. Helena e 
Lucrezia entraram na ilha. Mister Plump encontrava-se ao lado 
da estrada a uivar e hesitava.
-        V, seu fedelho! - exclamou Trosky e deu um pontap a 
Mister Plump. O pequeno co caiu para a frente, bateu contra o 
colcho de ar e teria cado para o mar, se Losskov no o 
tivesse apanhado. Peter atirou-o para a ilha, antes que a onda 
seguinte se aproximasse.
-        Agora j reina a atmosfera certa entre ns! - exclamou 
Trosky, satisfeito. - A Blondie j est com aquele olhar 
assassino! e  a tua vez, Peer!
- E tu?
-        Eu salto para dentro da ilha quando a prxima onda me 
tentar arrastar do convs. - Olhou para o mar e avistou uma 
vaga enorme que se aproximava do barco. - Ateno! Soltem os 
cabos! - Desatou as cordas que amarravam a ilha ao barco, 
saltou para dentro dela, caindo para cima de Helena e Lucrezia 
e ainda disse: - Pardon, mesdames.
Depois, uma vaga enorme apoderou-se da ilha e arrastou-a 
do convs para o mar. Caram para a gua, Losskov fechou 
bruscamente a entrada e depois o oceano tomou conta da ilha, 
fazendo-a danar na crista das ondas e entregando-se a jogos 
cruis: Quem seria mais forte? O homem ou a Natureza?
Era a Natureza.
Mister Plump teve tanto medo que mordeu a perna de Trosky. 
Este porm nem sequer o sentiu, j que tambm estava apavorado 
e isso o tornava insensvel  dor.
-        Vamos conseguir! - exclamou, de repente. - Agora, nenhuma 
tempestade nos pode fazer mal. Para o mar ns somos leves como 
uma bola. Podemos estar descansados.
Ficaram deitados, apinhados no cho de borracha, respirando 
pesadamente e esperaram. Esperavam por qu? Que a ilha se 
rasgasse? Ou que chocassem com o barco? Por uma vaga que os 
atirasse to fundo para um vale de gua que a prxima vaga os 
despedaasse e o oceano os devorasse?
Losskov rastejou at  entrada e abriu-a um pouco. No 
esperara ainda conseguir ver o barco, mas este encontrava-se a 
uma distncia bastante curta e era atirado para o ar e de 
seguida caa para os vales de gua, voltando porm sempre  
superfcie, dado que as cmaras de ar ainda o conseguiam 
manter  superfcie da gua. Era uma morte lenta e horrvel, 
que poderia durar vrias horas. O barco ainda no desistira.
Losskov voltou para o seu lugar e tapou-se com um cobertor. 
Tinha frio, dado que, tal como os outros, estava completamente 
encharcado. Embora a ilha tivesse ficado um pouco mais quente 
devido ao calor dos seus corpos, continuavam a tremer, dado 
que no era apenas o frio que os fazia tremer, mas tambm os 
nervos, que vibravam como se levassem pequenos choques 
elctricos.
-        O barco ainda se encontra  superfcie da gua? - 
perguntou Helena.
Losskov abanou a cabea afirmativamente.
-        Est a bombordo e continua a lutar. - Fechou os olhos e 
encostou a cabea para o lado. - Apetece-me chorar.
-        Achas que abandonmos o barco cedo de mais? - perguntou 
Trosky.
-        No. Tanto no barco como aqui na ilha, estamos sempre  
merc do mar. Ns j no podemos fazer nada. Apenas nos resta 
uma luzinha no topo da ilha, que durar at as pilhas 
acabarem, e a esperana de que algum nos veja. Esperemos que 
aquele Pablo em Rio Gallegos tenha conseguido fazer algo. E 
que a tempestade acabe em breve.
-        No achas tudo isso muito pouco? - Trosky deu um pontap 
ao co que, cheio de medo, se tentara deitar no seu colo. 
Mister Plump ganiu e foi ter com Lucrezia que o segurou nos 
braos. Helena tentou dar um pontap a Trosky, mas este 
agarrou-lhe o p e riu-se. - E se ningum nos procurar?
-        Chegaremos a algum lugar.
-        Claro que sim. Mas, at l, ter-nos-emos transformado em 
mmias apodrecidas. Nos jornais ler-se-: "Encontrou-se uma 
ilha de plstico na Nova Zelndia com os restos mortais de 
quatro pessoas. No foi possvel identific-los. Deve 
tratar-se de uma antiga jangada de borracha da dcada passada. 
- Trosky riu-se s gargalhadas, soltou a perna de Helena e 
despiu o oleado. Tirou as calas e as botas e ficou deitado nu 
ao lado de Lucrezia. - Acho que nos deveramos todos despir. 
No sou nada amigo de constipaes, acho que e  uma doena 
estpida perante a qual o homem capitula.
Losskov voltou a olhar vrias vezes pela abertura da entrada.
-        Agora j no consigo ver o barco - disse,  terceira vez. 
- Isso no quer dizer que se tenha afundado, o que 
representaria mais uma esperana para ns! Imaginem que o 
barco continua a flutuar pelo oceano e o encontram. Sabero 
onde devem procurar-nos!
-        Ele e  mesmo um optimista! - exclamou Trosky. - Deve ser 
daquelas pessoas que dizem ao carrasco: "Toma, toma, que a 
faca no est bem afiada."
-        O mais importante e  que continuamos vivos! - Helena 
abriu um saco de plstico e tirou uma garrafa. Ergueu-a e
abanou-a pelos ares. - e  conhaque, amigos! Acho que o
merecemos.
-        Ela e  mesmo uma santa! - gritou Trosky e estendeu as 
duas mos em direco  garrafa. - Se me deixares beber um 
grande trago podes dar-me um pontap.

Dcimo quinto dia.
O mar estava calmo. Fazia calor, embora estivessem a 
dirigir-se para sul, o que podiam reconhecer a partir do Sol. 
A bssola que tinham trazido estava avariada devido  gua que 
entrara pelo vidro por uma pequena racha. Podiam apenas 
orientar-se com a ajuda do Sol ou das estrelas, o que queria 
dizer apenas aproximadamente.
A ilha era muito apertada, por isso, estavam encostados uns 
aos outros. o que lentamente se tornava insuportvel. Trosky 
estava l fora, sentado na borda da ilha. Tinha um chapu de 
linho na cabea e tentava apanhar peixes. Com algum engenho, 
transformara um alfinete num gancho e atraa os primeiros 
peixes com a ajuda de pedacinhos de salsicha de lata. Matava 
os peixes grandes com uma pancada na nuca e os pequenos 
esmagando-lhes a cabea entre o dedo indicador e o polegar, 
pendurando-os de seguida num gancho para servirem de isco.
-        Ele e  to cruel! - comentou Helena para Losskov e 
estremeceu. - H outras maneiras de matar um peixe.
-        Ele dir-te- que esta e  a mais rpida e a segura.
Comiam os peixes crus. Tinham um sabor horrvel, mas assim 
poupavam a pouca comida que lhes restava. No nono dia Trosky 
atirou os peixes cortados para a ilha e disse:
-        Tenho de adquirir a patente desta receita: peixes 
suavemente salgados!
Estava nu, e o seu corpo encontrava-se coberto de cristais de 
sal devido  forte evaporao. Pegou num peixe que acabara de 
apanhar, rasgou-o, retirou-lhe as entranhas com os dedos, 
raspou a carne ao longo do seu corpo coberto de sal e atirou-a 
a Lucrezia. Quando esta deitou a carne para o mar, enojada, 
ele riu-se s gargalhadas.
-        Vejam como ela est satisfeita! At dispensa uma 
especialidade como esta! Vocs no acham que vivemos como na 
terra das delcias?!
s vezes acontecia que ele vinha para o interior da ilha, 
pegava em Lucrezia, deitava-a de barriga para baixo e saltava 
para cima dela. Quando isto acontecera pela primeira vez, 
Lucrezia tentara defender-se desesperadamente, mas depois 
todos se habituaram quele comportamento de Trosky. J no 
tinham vergonha, e os conceitos morais que lhes tinham sido 
ensinados tinham-se perdido. Quando Trosky se rebolava para 
perto de Lucrezia, Helena e Peter estavam sentados ao lado a 
ler ou a ouvir msica no rdio ou ento nadavam no mar, sempre 
atados  ilha por uma corda.
Um dia, quando Trosky nadava sozinho no mar, Lucrezia comentou 
para Losskov:
-        Ele sabe nadar, mas no nada muito bem. De certeza que 
no sabe nadar longas distncias. Ele prprio me disse isso.
-        No tenhas medo - respondeu Losskov sem compreender. - 
Ele est preso  corda.
-        Se cortssemos a corda...
-        Luzi! - Losskov fitou-a, escandalizado. - Esquece isso! 
Rapidamente!
-        Eu odeio-o! Odeio-o! Quando ele est deitado em cima de 
mim, eu gostaria de ser uma bomba que explode juntamente com 
ele! s vezes, lembro-me de um filme japons que vi: havia 
duas pessoas a fazerem amor e, quando ele atinge o climax, ela 
espeta-lhe uma enorme faca nas costas.
Olhou para o mar, onde Trosky se deixava embalar pelas ondas, 
mergulhava, voltava  superfcie e ria-se, satisfeito.
-Agora... - disse Lucrezia, devagar. - Agora poderamos cortar 
a corda. A corrente arrastar-nos-ia a uma velocidade que ele 
no conseguiria acompanhar. Peer, e  s um simples corte com a 
faca e estamos livres dele! Por favor! Tu, que s o homem!
-        Mas no sou nenhum assassino! - Ps o brao  volta dos 
ombros dela, tentando acalm-la. Lucrezia comeou a tremer e 
chorou baixinho. - Tu falaste sobre isto com a Helena?
-        Sim. Ela est  espera que o Trosky se apodere dela 
tambm... O que e  que tu farias se isso acontecesse?
Losskov ficou calado. "Sim, o que e  que eu faria?", perguntou 
a si prprio. "Acabaria por matar o Trosky?"
Durante alguns instantes pensou o que aconteceria se no os 
encontrassem, se a comida e a gua chegassem ao fim e j no 
tivessem foras para pescar e apanhar a gua da chuva que era 
o nico meio de escaparem  morte por sede.
Era um pensamento to horrvel que Losskov preferiu esquec-lo 
imediatamente e repetir a sua "frase de motivao" que parecia 
um longo poema que tinha de decorar:
-        Eles esto  nossa procura. Eles vo-nos encontrar. Eles 
tm de nos encontrar.
Trosky nadou at  ilha, saiu da gua e esticou os msculos. 
Agarrou Lucrezia, puxou-a para perto de si pelos longos 
cabelos pretos e deitou-se sobre ela.
- Estes banhos so to rejuvenescedores! - disse, contente. - 
Diabos, eu sinto-me como seis bois de cornos compridos.
Enquanto estava deitado em cima de Lucrezia, esta fitava Peter 
von Losskov com uns olhos grandes. "D-me uma faca", gritava o 
seu olhar. "Por favor, d-me uma faca. Uma faca comprida que 
chegue at ao seu corao!"

Vigsimo stimo dia.
Helena e Lucrezia comearam a ter as primeiras lceras no 
corpo.
Embora tomassem banho regularmente e logo a seguir limpassem o 
corpo com toalhas turcas, o sal do mar pegava-se 
 pele. Estava em todo o lado. No s nas ondas, como tambm 
no ar, nas finas gotas de gua vindas das vagas. Colava-se a 
tudo, ao princpio, invisvel, e depois, quando a gua se 
evaporara, tornava-se visvel numa fina camada branca.
A pele queimava, rachava, ficava vermelha e comeava a 
sangrar. O sal estava em todo o lado, corroendo os poros, as 
feridas, as mucosas... No havia maneira de lhe escapar. 
Helena, que era mdica, cobriu as primeiras feridas com 
pomada. Mas de que e  que isso servia? A gua salgada era mais 
forte e destruia sistematicamente a pele.
- Esta variante nem e  assim to m - declarou Trosky quando 
depois de dois dias raspava a crosta de sal do seu corpo com a 
ajuda das costas de uma faca. - No iremos morrer  sede, nem 
chegaremos a terra em forma de esqueletos. Conservar-nos-emos 
bem salgados para a posteridade.
- Precisamos de chuva. - Losskov ergueu o olhar para o cu 
azul. O Sol brilhava ininterruptamente, de manh  noite. 
Mesmo assim o ar estava fresco; fazia cerca de quinze graus 
centgrados e o mar parecia-lhes frio. H vrios dias que j 
no tomavam banho. Vestiam calas e camisolas e s se despiam 
 noite, quando se deitavam um ao lado do outro, corpo contra 
corpo, por baixo dos cobertores e transpiravam. - Cus, como 
seria bom tomar um banho de chuva agora!
-        E dois dias depois estamos de novo cobertos de sal. 
Trosky, que entretanto tinha uma barba forte e comprida, 
passou as mos pelo cabelo e depois mostrou-as a Losskov. Por 
baixo das unhas havia cristais de sal, como se tivesse metido 
a mo em acar. - Eu sou uma salina viva! Aposto que se eu 
agora engravidasse a Lucrezia, ela daria  luz um saleiro!
-        Tem de chover! - exclamou Losskov to alto como se 
quisesse que o cu o ouvisse. - J deveria ter chovido! H 
nove dias que no cai um pingo do cu e isso e  completamente 
anormal nesta zona!
-        Nesta zona! Em que zona e  que estamos? e  verdade que 
este e  o vigsimo stimo dia da nossa gloriosa viagem numa 
ilha de borracha em direco  Terra do Fogo?
- Sim.
-        Tenho a certeza de que os Viquingues teriam inveja de 
ns. Nunca lhes ocorreria uma ideia destas. - De repente, 
Trosky fitou Losskov com um olhar chamejante. - Quanto tempo e  
que ainda aguentaremos isto?
-        Muito tempo.
-        Isso no e  uma resposta. - Trosky inclinou-se para 
Losskov. - Vamos falar um pouco no futuro?
-        Por mim, sim.
-        Continuaremos assim durante mais cem dias.
-        Que disparate!
-        Cem dias! - insistiu Trosky, parecendo muito seguro. - A 
comida acabou, a gua tambm, apenas resta a gua da chuva, 
mas essa tambm no e  suficiente. No nos estamos a dirigir 
para a Terra do Fogo, mas em vez disso estamos a cruzar o 
oceano Atlntico a sul, em direco  costa africana. Achas 
que isso e  impossvel?
-         pouco provvel.
-        Tu s um verdadeiro diplomata. Conheces a verdade, mas 
sabes exactamente como a hs-de esconder. Portanto, frica. 
Isso quer dizer mais cem dias. Sem comida, sem gua.. Apenas 
quatro seres humanos e um co. Espera! O co, no! Esse 
teremos morto e comido depois de vinte dias.
-        Errado! Antes disso, terias de matar a Helena.
-        At mesmo a querida Loirinha tem fome, e os teus fracos 
abraos no chegam para aliment-la. Suponhamos ento que j 
passaram cem dias. E, quanto mais dias passam, mais evidente 
se torna que quatro pessoas a bordo so de mais! Ests a 
compreender o que eu quero dizer?
-        Acho que sim - disse Losskov com cuidado. Tinha medo de 
provocar Trosky. O seu olhar era alarmante. Bastaria dizer uma 
palavra errada e haveria berros e gritos, zangas e ameaas. O 
inferno estava sempre iminente.
-        O que e  que achas? - perguntou Trosky. - Pensas que 
sobrevivers? e  mesmo por isso que estou a falar contigo 
sobre o futuro. Queria avisar-te de que serei o ltimo 
sobrevivente neste paraso de borracha!
Losskov respirou fundo. Sentiu o corao apertado, como que 
envolvido por cadeias. Respirava com dificuldade.
- Tu queres matar-nos um depois do outro?
-        Sim. E tu sers o primeiro. - Trosky sorriu. O seu rosto 
com a barba selvagem, coberta de cristais de sal, 
transformou-se numa mscara assustadora, parecida com os 
fetiches que os caadores de cabeas da Nova Guin tm 
espetados em varas ao lado das suas cabanas. - e  bom que 
saibas uma coisa, Peer: no podes fugir daqui. - Fez um gesto 
largo sobre o infinito do oceano. - Ou talvez at possas. 
Podes! Voluntariamente. Se fores um verdadeiro cavalheiro. 
Assim teremos uma pessoa a menos a beber gua. Guardar-te-o 
na memria como um grande senhor.
-        E depois matars as raparigas.
-        Imaginemos que j se passaram cento e vinte e um dias. 
Choveu, por isso temos gua, mas falta-nos algo para o 
estmago. No h peixe que morda o anzol e a fome est a dar 
cabo de ns. No se pode comer cobertores ou sacos de 
plstico, nem latas de conserva ou cordas de nylon. E sapatos 
s o Charlie Chapm comia nos seus filmes. Pode-se sobreviver, 
afinal a gua no falta...
-        Pra imediatamente, Jan! - exclamou Losskov. - Se no, eu 
bato-te!
-        Porque e  que o homem foge sempre  verdade? Porque e  
que nunca quer saber realmente qual e  a verdade nua e crua? 
Peer, a prxima ser a Helena! Daqui a cento e vinte dias ela 
ter emagrecido um pouco, mas mesmo assim restar suficiente 
carne no seu corpo.
-        Ests a esquecer que eu poderia agir antes de ti! - 
ameaou Losskov num tom de voz duro. - A maneira como tu 
encaras o futuro e  alarmante.
Deixou Trosky sentado  entrada e virou-se.
-        De que e  que esto a falar? - chamou Helena de dentro da 
ilha.
-        Estvamos a falar de receitas de cozinha para nos 
animarmos! - exclamou Trosky alegremente. - D imenso prazer 
quando se est esfomeado.
Na noite do vigsimo stimo dia, Losskov dormiu com a sua 
pistola. Escondeu-a num cobertor que servia de almofada. 
Trosky, que no deixou escapar esse detalhe, sorriu.
- Isso e  s a partir do centsimo dia - avisou. Apenas Peter 
o compreendeu. - Ns s vamos no vigsimo stimo.

Quadragsimo primeiro dia.
A gua tornara-se escassa; da comida restava apenas o 
chocolate, as barras de fruta cristalizada, algumas bolachas 
com sabor a mofo, torradas amolecidas e trs latas com po de 
centeio. Alm disso, Helena guardara cuidadosamente num saco 
trs latas com massa e carne de vaca, duas latas com salsichas 
e duas embalagens a vcuo com batatas descascadas. Guardava 
essas preciosidades como se fosse a me delas. Dormia ao lado 
da comida como se se tratasse de um tesouro.
Quem quisesse aproximar-se dessa comida durante a noite, tinha 
de passar por cima dela, o que ela notaria imediatamente 
atacando quem o tentasse.
Ela estava alarmada. No trigsimo sexto dia, depois de
uma discusso com Losskov acerca de Mister Plump, durante
a qual Trosky calculara que, se partilhassem entre si a comida 
e a gua que o co consumia, poderiam prolongar a vida
por mais um tero do tempo, Jan gritara num dos seus famosos 
acessos de raiva:
- Isto e  um nojo! At fico maldisposto! Tenho de beber 
qualquer coisa, seno vomito! - Rastejou at ao canto onde 
Helena guardava a comida, mas esta vedou-lhe o caminho e quis 
empurr-lo para o lado. - Sai do meu caminho, sua prostituta! 
- berrou Trosky e empurrou-a para o lado. Pegou na garrafa de 
conhaque e levou-a  boca. Bebeu trs longos goles antes de 
Losskov conseguir arrancar-lha dos lbios. A garrafa caiu no 
cho, e Trosky atirou-se com um grande berro para o cho, 
lambendo a poa de conhaque que se formara no cho de 
plstico.
-        Tu bateste-me! - exclamou a seguir e fitou Losskov
de cima para baixo como se procurasse o lugar certo para o
atacar. - Este homenzinho ridculo bateu-me! Bateu-me a
mim, Jan Trosky! Vais pagar por isto!
No quadragsimo primeiro dia, o mar estava bastante calmo. Os 
seus corpos estavam cobertos de uma crosta de sal e cheios de 
lceras, e eram atormentados por dores de barriga e 
alucinaes. Lucrezia, aptica, estava deitada no seu cobertor 
e apenas se dirigia para a entrada da ilha para fazer as suas 
necessidades, enquanto Helena guardava o saco com a comida e 
as garrafas com a gua da chuva como se se tratasse de um 
tesouro. Parecia que ia acontecer exactamente aquilo que 
Trosky previra: no iriam morrer de sede, dado que o cu lhes 
fornecia toda a gua necessria. Morreriam de fome.
Entretanto, j h muito tempo que tinham desistido de tentar 
calcular para onde a ilha estava a dirigir-se. Quando o vento 
girava, tambm a ilha se girava. Ora a corrente os arrastava 
para norte, ora para leste e depois, durante vrios dias, para 
sul.
-        Ns somos a medusa amarela no mar alto, l, l, l! - 
gritava Trosky. - Vamos para a Amrica, para frica, para Hong 
Kong e para o Havai. S a Terra do Fogo e  que no vemos, 
porque por ela j h muito que passmos! - Olhou  sua volta 
com um ar louco, levantou a ponta da barba e esperou que 
batessem palmas. - Isto e  que e  uma cantiga, no acham?! 
Deveriam escrev-la na parede para os nossos descendentes. e  
o hino nacional dos loucos a caminho do cabo Horne. Porque e  
que esto todos a olhar para mim dessa maneira?! Com esses 
olhos de carneiro mal morto! Seus mal-humorados! 
Ns somos a medusa amarela no mar alto, l, l, l!
A luzinha que piscava intermitentemente no topo da tenda h 
muito tempo que parara de piscar. Os contactos estavam 
oxidados, as baterias vazias e o mecanismo fora corrodo pelo 
sal. Uma vez, no trigsimo terceiro dia, Trosky julgou ver os 
mastros de um barco no horizonte. Losskov no os via, mas 
Trosky gritava como um animal e quis que lhe dessem a pistola 
de sinalizao.
Colocou o foguete vermelho na ponta da pistola, levantou o 
brao e disparou. No entanto, tudo o que aconteceu foi um 
pequeno dique, mais nada. O foguete permaneceu na pistola.
-        Que porcaria! - berrou Trosky. - Porque e  que isto no 
dispara! Eu estou a ver um barco! Um barco!
Tentou disparar e falhou de novo. O foguete no se incendiou. 
Losskov tirou cuidadosamente a pistola da mo frouxa de 
Trosky.
-        A plvora est hmida - disse. A sua voz parecia rouca. O 
sal dava igualmente cabo do cu da boca e da garganta. Trosky 
fitou-o.
-        Isso quer dizer que j no temos meios de chamar a 
ateno?
-        Suponho que no.
-        Os barcos passam por ns e no podemos fazer nada?
-No.
-Nada?
-        Podemos acenar! Gritar! E esperar que vejam esta mancha 
amarela no mar. Nem sequer podemos fazer fumo, porque os 
cartuchos tambm esto molhados. Tudo est molhado, at mesmo 
os nossos ossos.
-        Ento de que e  que estamos  espera? - berrou Trosky e 
agarrou-se s cordas.
-        Estamos  espera de um milagre - retorquiu Losskov, com 
um ar srio. - Eu voltei a acreditar em milagres.

Quadragsimo primeiro dia, algures no oceano Atlntico.
Helena mudara completamente. Quase que no falava com Losskov 
e, quando este estava deitado ao seu lado, apenas sussurrava:
-        No me toques! - Ou, ento, dizia mais baixinho e de uma 
forma mais penetrante: - Seu cobarde! Permites que essa besta 
faa o que quiser! Ele tem de desaparecer daqui! Ser que tu 
no compreendes isso? Ele tem de desaparecer! Sai do meu 
caminho, cobarde!
Sair do caminho. Numa ilha redonda e minscula que baloiava 
no meio do mar.

Em Ushuaia, na Terra do Fogo, Dieter Randler esperava h dois 
meses por um sinal de vida do Helu.
Depois de ter perdido o seu rasto, tentara mobilizar todas as 
pessoas possveis. Contudo, para alm de algumas palavras 
simpticas por parte das autoridades, no conseguira alcanar 
nada. Tanto em Dacar, como em Buenos Aires, ouviam 
pacientemente o que tinha a dizer e depois perguntavam com um 
sorriso:
-        Mister Losskov tem um rdio a bordo?
-        Sim! - respondia Randler. Adivinhava a pergunta que se 
iria seguir.
-        Ento porque e  que ele no d notcias?
-        Como e  que ele pode, se o barco se afundou?
-        E o que e  que podemos fazer se lhe aconteceu algo? Onde 
e  que devemos procurar? E, acima de tudo, o que e  que 
devemos procurar? Os destroos de um barco? Cadveres a 
flutuar em coletes de salvao? J olhou para o mapa?
-        Aquele barco e  inafundvel!
-        Ento ser encontrado.
-        Mas pode estar a flutuar por a, perdido.
-        Nesse caso tenho a certeza de que Mister Losskov enviaria 
um sinal de SOS. E nessa altura ser encontrado e salvo. Ele 
deu alguma noticia?
Randler teve de admitir que no tinha argumentos para iniciar 
uma busca, que naturalmente custaria muito dinheiro. Sobretudo 
era-lhe impossvel responder a uma pergunta bsica: onde, 
naquele enorme oceano, se encontrava o Helu? E porque e  que 
Peter no dava notcias pelo rdio?
A redaco do jornal em Hamburgo foi a tal ponto indelicada 
que chamou ao seu reprter Randler "um grande boi".
-        Desde o incio que eu tinha um mau pressentimento! 
exclamou o redactor-chefe, irritado, ao telefone.
Randler encontrava-se na administrao porturia de Ushuaia, 
na Terra do Fogo, onde depois de quatro horas de espera 
conseguira enfim entrar em contacto com Hamburgo.
-        Dois homens sozinhos sim, isso poderia dar certo - 
prosseguiu o chefe. - Mas quando eu vi as duas mulheres, 
fiquei logo arrepiado. Eu no deveria ter-lhe dado ouvidos! 
Foi dinheiro atirado pela janela fora. Est bem, isso at 
conseguiramos superar. Mas toda esta histria que o senhor 
comeou ter de ser concluida. Dieter! O senhor vai escrever 
um necrolgio dramtico a esses quatro loucos! Com tudo o que 
for preciso, para o tornar mais dramtico. "As ltimas horas 
dos heris do Atlntico", ou qualquer coisa parecida. Quero 
que se concentre sobretudo nas raparigas. O mais dramtico 
possvel, Randler!
-        E se eles ainda estiverem vivos?
-        Isso no me interessa!
O chefe bateu com o punho na mesa. Randler conseguiu ouvir, 
mesmo em Ushuaia, e imaginou perfeitamente a situao: o chefe 
Pfeiffer, gordo, com os culos na testa, sentado numa 
secretria coberta de fotografias. Do lado esquerdo, a 
fotografia da Sra. Pfeiffer, que em tempos fora cantora de 
revistas - pelo menos era o que se dizia - e que casara com o 
Sr. Pfeiffer para se vingar dele, por este ter escrito uma m 
crtica sobre o seu espectculo. Ao lado, uma fotografia do 
editor, o que no era compreendido pelos colegas, dado que 
nenhum deles sabia que ele mantinha uma relao com a Sra. 
Pfeiffer, o que por seu lado garantia uma posio vitalcia ao 
Sr. Pfeiffer. E, agora, ele batia com o punho na mesa e as 
fotografias voavam pelo ar e a moldura com a fotografia de 
Yvonne Pfeifter oscilava. Randler viu esta imagem como se 
estivesse no cinema.
-        Ainda est a, Dieter? - berrou o redactor-chefe.
-Sim.
-        Ento, o que e  que vai acontecer agora?
-        Eles esto apenas desaparecidos!
-        Mas isso pode dar uma ptima histria! Pode ser bem 
aproveitada. O senhor pode especular: onde e  que eles esto, 
porque e  que a esto e o que e  que estaro a fazer todos 
juntos? Ha... ha... ha! Uma viagem martima to dramtica... 
Randler, isso e  um material precioso! e  melhor do que 
qualquer necrolgio! Isto pode dar uma histria espectacular! 
Escreva!
Randler no escreveu. Alugou um quarto em Ushuaia, fazendo 
preces para que o pior no tivesse acontecido.
"Vou ficar na Terra do Fogo por alguns tempos", telegrafou 
para Hamburgo. E a redaco respondeu: "Est bem. Cuidado para 
no queimares o traseiro!"
Era uma piada irnica que se referia ao clima de um pas cujos 
montes esto eternamente cobertos de neve e tm enormes 
glaciares. Uma terra no fim do mundo, estranha, como nenhum 
pintor seria capaz de imaginar.

Um dia o pedido de socorro de Pablo Cerroso chegou  
administrao porturia de Ushuaia: "Barco  vela, Helu, 
encontra-se em perigo! Est a meter gua! SOS! Posio 
completamente desconhecida. Algures perto do arquiplago dos 
Estados."

Dieter Randler empenhou-se ao mximo. Pediu a todas as 
instituies oficiais que estavam ao seu alcance que 
iniciassem uma busca e enviou imediatamente uma mensagem 
telegrfica para Hamburgo. A resposta foi rpida: "ptimo! 
Publicaremos pgina de titulo com barra vermelha: '~Os 
solitrios na tempestade. Quero relatrio dirio pelo 
telefone!"
Dieter Randler foi com um helicptero da Guarda Costeira at 
ao cabo Horne e com um hidroavio para o arquiplago dos 
Estados.
No havia sinal de Losskov. Nem sequer pelo rdio. Apenas 
tinham uma certeza: quando o pedido de socorro fora enviado 
todos eles ainda estavam vivos. O barco andava perdido. Estava 
a meter gua - isso podia querer dizer muita coisa. Se o barco 
no se enchesse completamente de gua, aguentar-se-ia  
superfcie. Mesmo durante uma tempestade. O Helu era como uma 
rolha.
Enquanto a tempestade durasse, seria impossvel encontrar o 
barco; mas, logo que se acalmasse um pouco, trs avies 
levantariam voo e controlariam todos os quadrados do mapa 
durante vrios dias seguidos. As autoridades de Ushuaia deram 
o alarme a todos os barcos que se encontravam na zona do cabo 
Horne, do arquiplago dos Estados e da Jrgia do Sul. Segundo 
os clculos efectuados  base da velocidade do vento e das 
correntes, o barco deveria encontrar-se algures nessa zona do 
Atlntico Sul: era apenas um ponto branco, quase impossvel de 
ser avistado no meio das cristas de espuma brancas.
-        O senhor est consciente de que as hipteses de os 
encontrarmos so muito reduzidas? - perguntou o chefe da 
administrao porturia de Ushuaia a Randler.
Este abanou a cabea afirmativamente. H quatro dias que no 
mudava de roupa e s dormia apenas algumas horas, sentado, 
enquanto os avies eram abastecidos e revistados. As mensagens 
de rdio dos outros barcos no eram nada animadoras. 
Visibilidade reduzida e uma ondulao muito forte. O vento 
soprava a quarenta e cinco ns e em certas zonas atingia quase 
a velocidade de um furaco, sendo ento a visibilidade igual a 
zero.
Pablo, em Rio Gallegos, tambm no tinha novidades. A ltima 
coisa que ouvira fora o grito desesperado de Losskov:
"Temos de abandonar o barco! O leme partiu-se. Estamos a meter 
gua num camarote. No consigo controlar o barco."
-        Os senhores tm de levar em considerao que eles dispem 
do melhor equipamento para situaes de emergncia que existe 
actualmente no mercado - suplicava Randler s entidades 
argentinas. - A ilha de salvao e  amarela e tem uma luz de 
socorro. Se eles abandonaram o barco, tm grandes hipteses de 
sobrevivncia! Os senhores tm de continuar a busca!
-        No podemos fazer mais do que estamos a fazer. Se ao 
menos tivssemos uma vaga ideia da posio deles...
Era o eterno mistrio, a pergunta crucial: onde e  que se 
encontrava o Helu?
Randler ficou calado. Nessa altura, deviam estar na ilha de 
borracha, algures no oceano. Estremeceu ao imaginar a cena.
Quanta gua teriam levado? Durante quanto tempo teriam comida? 
As raparigas estariam a aguentar emocionalmente tudo aquilo? 
Qual seria o estado de esprito deles? Quando e  que chegariam 
ao ponto de exausto em que permaneceriam silenciosos e 
morreriam aos poucos?
Depois de quarenta e quatro dias, as buscas haviam terminado. 
Dieter Randler tentou convencer todas as entidades oficiais, 
embora j soubesse a resposta que lhe iriam dar.
- Depois de quarenta e quatro dias, j no resta esperana - 
diziam-lhe em toda a parte. - Os barcos naquela zona no nos 
do noticias. O tempo est normal e as ondas at so 
relativamente pequenas. O porta-avies britnico Essex, que de 
momento se encontra naquela zona, mandou sobrevoar as 
redondezas durante uma semana. Sem qualquer resultado. A 
tripulao do Helu pode ser considerada perdida.
Apesar de tudo, Randler permaneceu na Terra do Fogo.
- Eu recuso-me a acreditar que eles no voltem a aparecer! - 
gritou, quando falava ao telefone com Pfeiffer, o 
redactor-chefe em Hamburgo. - Eu conheo suficientemente bem o 
Peter von Losskov.
- Veja se compreende que o oceano Atlntico no e  nenhuma 
banheira! - berrou igualmente Pfeiffer. - Quarenta e quatro 
dias! Isso no e  brincadeira!
Pela primeira vez, Randler sentiu dio ao ouvir o tom de voz 
que se utilizava na sua redaco. At agora ele no fora 
diferente, afinal fazia parte da sua profisso ser-se bruto, 
se bem que nunca chegara a ser to cruel como aquele reprter 
americano que estendeu o seu microfone aos lbios sangrentos 
de um condutor entalado na cabina de motorista e perguntou: "O 
senhor sabe que daqui a pouco vai morrer? Diga-nos: qual e  a 
sensao? Em que e  que est a pensar? Ainda tem medo da 
morte?"
No quadragsimo quinto dia, Randler pagou do seu prprio bolso 
o aluguer de um hidroavio com o qual voou at ao cabo Horne e 
depois sobrevoou toda a zona. Estava um dia bonito e calmo com 
um cu limpo, uma verdadeira excepo. A gua parecia um pano 
azul.
Sobrevoaram o mar at que o ponteiro da gasolina sinalizou que 
tinham que regressar.
- No vale a pena - disse o piloto, um ingls que pertencia  
administrao argentina da Terra do Fogo. - No digo isto por 
causa dos quarenta e cinco dias... Isso at seria possvel. 
Mas quem e  que sabe onde eles esto?
Esta pergunta era repetida vezes sem fim. E depois a frase 
perante a qual Randler se calava, por ser to lgica: "Eles 
conheciam os perigos que teriam de enfrentar. Arriscaram-se 
voluntariamente. Aquilo que aconteceu era o risco que eles 
tinham assumido. Existe apenas um responsvel pelo que 
aconteceu: os quatro ocupantes do barco."

Sexagsimo nono dia.
Continuavam vivos.
Mas como e  que sobreviviam?
Trosky estava sentado  entrada da ilha e gritava. Helena e 
Lucrezia, cobertas de lceras, estavam deitadas nos 
cobertores, apticas e silenciosas, com o olhar fixo no cu. 
Losskov lavava-as de vez em quando, sacrificando uma tigela de 
gua da chuva para tirar o sal das feridas e racionava a 
comida: duas bolachas por dia, um pedacinho de chocolate, 
metade de uma torrada amolecida e um gole de gua. O sal no 
cu da boca ardia, fazendo crescer a vontade de beber at  
loucura. Tornava-se cada vez mais difcil engolir o que quer 
que fosse.
Losskov dava de comer s raparigas como se fossem 
recm-nascidos, pousava as cabeas delas no seu colo e 
esperava que tivessem engolido as bolachas. Depois, dava-lhes 
cuidadosamente a gua, olhando para cada gota desperdiada 
como se fossem diamantes a deslizar pelos lbios. Lucrezia 
estava fraca de mais para segurar o copo. Os seus lbios, o 
rosto e as articulaes estavam inchadas, as rbitas dos olhos 
inflamadas e a pele rasgada pelo sal e ferida.
Durante trs dias, Trosky observou Mister Plump, cabisbaixo e 
rangendo os dentes, enquanto este comia a sua parte da comida: 
uma bolacha, um pouco de torrada, um gole de gua e um pedao 
de chocolate. Trosky mexia os dedos, nervoso, virava-se e 
olhava para o mar, ou ento ia para a gua onde ficava 
pendurado nas cordas, a flutuar ao lado da ilha. Ali 
permanecia at comear a tremer de frio. Depois, saa da gua 
e enrolava-se num cobertor.
Nesse sexagsimo nono dia, Trosky parecia especialmente 
mal-humorado. H dois dias que Losskov observava preocupado 
como a loucura se apossava de Trosky, como j no tinha foras 
para lutar contra ela, como aquele ser completamente destrudo 
estava a caminho de uma catstrofe.
- Eu tenho fome! - gritou Trosky e bateu palmas. - Fome! Fome! 
Fome! - Estava sentado na borda da ilha e abanava as pernas na 
gua enquanto gritava cada vez mais alto. - Vamos ter carne, 
carne, carne e s falta pouco, pouco, pouco! - Repetia esta 
frase vezes sem fim. - Muita carne, carne, carne. Estamos 
ricos, ricos, ricos!
Com um salto, voltou para a ilha e deu um pontap na barriga 
de Losskov que perdeu o equilbrio e caiu, agarrando-se a 
Helena. A ilha baloiou fortemente e Trosky soltou um grito 
estridente, mais estridente ainda do que o berro de Lucrezia 
quando esta viu como ele agarrara Mister Plump com umas mos 
que mais pareciam alicates e o apertou contra o seu corpo.
- Temos carne! - exclamou. - Carne! Carne! Carne!
- Jan! - gritou Losskov. Tentou levantar-se, mas a pancada que 
levara na barriga paralisara-lhe as pernas. Ficou deitado em 
cima de Helena, sem se mexer, atirou-se para o lado, procurou 
uma pistola, encontrou-a ao lado da lata com as bolachas, 
engatou-a, apontou-a para Trosky e carregou no gatilho. Tal 
como acontecera com a pistola de sinalizao, tambm agora se 
ouviu apenas um pequeno estalido e mais nada. As munies 
estavam hmidas e a pistola avariara-se com a gua salgada.
Trosky riu-se alto, ergueu Mister Plump para o ar e pousou a 
mo esquerda na sua cabea. O pequeno co adivinhava o seu 
destino, gania e tentava morder Trosky, esperneando. 
desesperado. Fitou Trosky com os seus olhos grandes e tristes, 
que eram a nica expresso do sofrimento daquele ser. At 
tentou ladrar, embora tambm estivesse rouco e corrodo pelo 
sal. Quis morder a mo esquerda de Trosky que segurava a sua 
barriga.
-        Temos carne! - insistiu Trosky, de repente muito calmo. - 
Vamos continuar a viver.
Losskov fechou os olhos. Ouviu-se um barulho arrepiante quando 
Trosky torceu a nuca do pequeno Mister Plump. Foi apenas um 
pequeno gesto com a mo direita, a que se encontrava na cabea 
do co.
Trosky rastejou at  entrada da ilha, estendeu o co morto 
para fora e fez um corte com uma faca. Tirou-lhe o plo, 
cortou-o aos pedaos e depois mordeu na parte que lhe 
pertencia, uma magra coxa do co. O sangue escorria-lhe pelos 
cantos da boca, descendo pelo pescoo e depois pelo peito 
peludo. A sua barba era trespassada por riscos vermelhos. 
Parecia no dar conta disso. Virou-se para Losskov, que estava 
completamente enjoado, e atirou-lhe o resto do co para cima 
da barriga.
-        Carne! - gritou Trosky. - Carne! Uma semana de vida...
Comia como um animal selvagem e esfomeado e, de facto, era 
quase isso que ele era. Arrancava a carne do co com os seus 
dentes fortes e devorava-a com um olhar brilhante.
Helena estava deitada por baixo de um cobertor e no se mexia. 
Losskov no sabia se ela compreendera o que se passara, ou se 
nem sequer tinha a capacidade de se aperceber daquilo que 
acontecia  sua volta. Quando Peter a alimentava, ela comia e 
bebia com gestos quase mecnicos. Losskov arrastava-a para a 
borda da ilha quando ela tinha de fazer as suas necessidades; 
de resto, ficava deitada de olhos fechados sem responder a 
qualquer pergunta.
-        Ningum quer esta carne? - inquiriu Trosky. - Se vocs 
no quiserem, ele fica todo para mim!
-        Faz o que quiseres! - respondeu Losskov.
-        Seus hipcritas hipersensveis! - Trosky meteu o resto de 
Mister Plump num saco de plstico. - Comem filet mignon e 
salsichas de porco! Mas quando se trata de um cozinho 
estpido ficam cheios de pena! Animal e  animal e carne e  
carne. A mim soube-me muito bem!
-        Uma especialidade de Praga, eu sei. - Losskov apalpava o 
seu corpo. As entranhas doam-lhe devido ao pontap que 
levara. Porm, voltou a ter sensibilidade nas pernas e 
conseguiu mex-las.
Trosky fitou-o com uns olhos grandes e limpou o sangue da 
barba.
-        Eu no vou esquecer-me daquilo que disseste, seu parasita 
germnico! - gritou, com a respirao ofegante. - O prximo 
sers tu: carne e  carne.

Septuagsimo segundo dia.
A loucura reinava entre eles. No prprio crebro, em cada 
gesto de mo, no soprar do vento, no barulho das ondas, no 
baloiar da ilha de borracha, no barulho dos cobertores, at 
mesmo na respirao. Sempre a loucura.
Lucrezia e Helena aproximavam-se lentamente do fim. As lceras 
nos seus corpos estavam cada vez piores, e Losskov 
questionava-se como era possvel ainda haver humidade naqueles 
corpos ressequidos. Lavava-as todos os dias, na medida do 
possvel, com gua da chuva.
-        A gua serve para beber! - berrou Trosky, um dia. - Se 
desperdiares mais uma gota sequer, eu parto-te a cabea!
Havia algumas horas que estava sentado  entrada da ilha a 
observar Losskov, sem deixar escapar qualquer movimento. O seu 
olhar era frio e esfomeado. Os seus olhos movimentavam-se de 
um lado para o outro e constituam o nico movimento no seu 
rosto imvel.
Aproximavam-se agora de uma zona mais quente. Era possvel 
sentir a fora do sol, o mar que ficava mais calmo e a 
temperatura da gua que subia. J no adiantava de nada 
orientarem-se pelo Sol ou pelas estrelas. Afinal o que e  que 
representa o Sul ou o Norte quando se est rodeado de milhares 
de milhas de gua?
- Quem sabe se no vamos parar s ilhas Fiji? - troou Trosky 
uma vez, num dia de muito calor. - Talvez j estejamos no 
oceano Pacifico e nem sequer saibamos isso.
De vez em quando, at mesmo Trosky mostrava o seu fraco. 
Nessas alturas, ficava sentado  entrada da ilha, olhava para 
o mar coberto de espuma branca e chorava alto. Ou ento ficava 
em p, com o corpo todo direito, e berrava, libertando-se de 
todo o seu dio, do medo, da sua fora de viver e da sua 
horrvel impotncia.
Com a mesma rapidez, podia voltar a transformar-se, 
tornando-se um animal ameaador que ficava quieto a observar 
Losskov com um olhar frio, ou que media exactamente os pedaos 
de bolacha e que contava os pingos de gua, lambendo as gotas 
do pescoo de Lucrezia, quando esta no tinha fora suficiente 
para as ingerir deixando-as escapar pelos cantos da boca.
Neste septuagsimo segundo dia, Trosky parecia calmo. Estava 
sentado, encostado  parede de plstico e cantarolava uma 
melodia. Losskov j conhecia o texto: "Carne, carne, carne... 
Estamos ricos, ricos, ricos..." Aquela cantiga alertava-o. Por 
isso,ficava atento a cada movimento de Trosky, a cada 
estremecer, ao jogo das suas mos e aos dedos dos seus ps, 
que se contraam.
"A erupo do vulco est iminente", pensou. "Ele est a 
preparar-se. A loucura est a juntar as energias."
Sentou-se em frente de Helena num gesto defensivo. Tal como 
Lucrezia, ela dormia um sono constante. O esgotamento contnuo 
estava a dar cabo delas... Apenas os seus coraes continuavam 
a bater. Porm, em breve, estes tambm teriam de desistir. 
Deixariam simplesmente de bater, como um motor sem 
combustvel.
As raparigas nem sequer o sentiriam, tal como tambm j no 
sentiam as lceras no corpo. Os nervos tinham deixado de 
reagir.
Losskov no estava preparado para aquilo que aconteceu, embora 
instintivamente mantivesse a maior distncia possvel de 
Trosky. Distncia: uma palavra ridcula quando se trata de 
alguns centmetros de espao. De repente, Trosky saltou, 
silenciosamente, como um tigre, para cima de Losskov. Os seus 
olhos cintilavam, a boca estava contrada, e juntos caram 
para a entrada da ilha, agarrados um ao outro e incapazes de 
qualquer gesto a no ser apertarem-se cada vez mais um de 
encontro ao outro.
- Carne! - balbuciou Trosky, rouco. - Carne, mais carne...
Losskov sentiu um arrepio. Chegara a hora decisiva. Deixou-se 
cair para trs, para a gua, arrastou Trosky consigo e 
pressionou-o para baixo da gua. Trosky tentou defender-se. No 
punho direito, agarrava uma faca com a qual queria atacar 
Losskov; porm, por baixo de gua, j no tinha foras 
suficientes para acertar no corpo de Peter. Voltou  
superfcie, soltou um berro animalesco, procurou Losskov, que 
surgiu ao seu lado, e atirou-se para cima dele. Era uma luta 
desesperada e selvagem. Losskov mergulhou, agarrou as pernas 
de Trosky, que se mexia violentamente, e voltou a pux-lo para 
baixo de gua, onde, com as ltimas foras, ps os braos  
volta das ancas de Trosky e as agarrou, enquanto os seus 
pulmes se inchavam, ameaando explodir. Soltou um nico grito 
de medo. Sentiu uma horrvel falta de ar do peito at  
cabea, que parecia querer despeda-lo; porm, continuou a 
agarrar as pernas de Trosky e apenas voltou  superfcie da 
gua quando estava quase a sufocar.
Trosky voltou mais uma ltima vez  superfcie, com os olhos 
abertos e grandes. A sua cabea danava na espuma das ondas 
como se estivesse separada do resto do corpo e, de repente, a 
sua mo voltou a surgir, agarrada  faca. Losskov saltou de 
novo para cima dele, mergulhou-o na gua e martelou com os 
punhos na sua cabea. Atirou-o para longe com um pontap, 
nadou at  ilha, que flutuava lentamente, pendurou-se a uma 
corda e esperou.
Trosky no voltou a aparecer. As ondas rolavam regularmente e 
tapavam-no. Seria arrastado pelas correntes e iria voltar  
superfcie da gua algures, longe da ilha; mas isso j ningum 
veria e nunca ningum o iria encontrar.
Losskov encostou a testa contra a ilha e chorou. Ficou 
pendurado no exterior at ao momento em que sentiu como os 
seus msculos se tinham contrado na gua fria.
"Serei eu um assassino?", pensou. "Ser que eu me transformei 
num assassino? Que Deus seja minha testemunha: o Trosky queria 
matar-me! Queria comer-me, tal como comeu o Mister Plump! No 
havia outra sada."
Entrou na ilha com um grande esforo e deitou-se no cho. 
Atrs dele, Helena ergueu a cabea.
- Ele j c no est? - perguntou, com um grande esforo. Eram 
as suas primeiras palavras desde h alguns dias. Losskov tinha 
o corpo todo a tremer, devido ao frio e ao susto.
- Sim - gemeu. - Sim, ele desapareceu.
- Agora, j podemos morrer calmamente.
-Sim.
- Ns vamos morrer, no vamos?
- Vamos.
- D-me a tua mo! - Ela procurou a mo dele e levou-a  sua 
boca ferida e coberta de crostas. - Eu estou completamente 
calma. J reparaste?
Ele acenou em concordncia e comeou a chorar. As lgrimas 
correram pelo seu rosto, aproximou-se ainda mais dela, 
deitou-se ao seu lado e abraou o seu corpo coberto de 
lceras. O cabelo louro dela, que nas ltimas semanas crescera 
muito, cobriu os seus olhos.
- Eu amo-te - afirmou ela com uma voz fraca. - Estou to feliz 
por estares aqui. Morrer tambm pode ser bonito, Peer.
A noite caiu e eles continuavam vivos.
O prximo dia nasceu e eles ainda conseguiam ver a luz.
Mas j no sabiam que era o Sol. Simplesmente viam uma luz. 
Uma luz forte e intensa.

No septuagsimo quarto dia, o cargueiro Libert retirou-os 
do mar.
A ilha foi arrastada at ao navio por uma barcaa e depois 
iada com uma roldana. Envolveram Peter von Losskov, Helena 
Sydgriff e Lucrezia Panarotti em cobertores e levaram-nos para 
o camarote do capito. Tinham descoberto a ilha por acaso. O 
ajudante de cozinha vira algo de amarelo a flutuar na gua 
quando fora deitar os restos da cozinha para o mar.
- Existem baleias amarelas? - perguntou, sem compreender o que 
tinha visto.
- No faas perguntas to estpidas! - respondeu-lhe o 
cozinheiro irritado.
- Se existem baleias brancas, porque e  que no h-de haver 
amarelas? Eu vi uma delas l fora. Consegui apenas ver a 
cabea.
Ao ouvir isto, o capito alarmou a tripulao e mandou darem 
meia volta. O barco aproximou-se a alta velocidade do objecto 
amarelo.
- e  uma ilha de salvao... - declarou um oficial. Ps os 
binculos de lado e passou a mo pelos olhos. - Meu Deus, uma 
ilha por aqui! Eu adivinho o que iremos encontrar.
Uma hora mais tarde, depois de ter bebido dois conhaques, de 
que realmente precisou aps ter visto os corpos a serem 
lavados, tratados com pomadas e enfaixados em ligaduras, 
conseguiu novamente falar:
- e  impressionante ver o que o corpo humano e  capaz de 
aguentar. - Depois de lanar um longo olhar aos trs 
sobreviventes, que estavam a dormir profundamente, 
acrescentou: - Nunca mais sero as mesmas pessoas. Se e  que 
sobrevivero.
Eles sobreviveram.

Foram transportados por um hidroavio para um hospital
de Buenos Aires, onde permaneceram durante seis semanas.
Ficaram juntos num quarto. De um lado Helena, do outro
Lucrezia, e no meio Losskov. Juntos deram os primeiros passos 
e foram para o jardim da clnica.
Dieter Randler viveu os melhores momentos da sua carreira de 
reprter. Os seus relatos emocionavam os leitores e o Sr. 
Pfeiffer mal conseguia conter-se de entusiasmo. Chegou mesmo a 
gerar-se uma polmica entre os mdicos sobre as possibilidades 
de eles sofrerem danos irreversveis, enquanto Pfeiffer dava 
especial nfase a uma pergunta: "Devemos ter pena de pessoas 
que brincam desta maneira com a sua prpria vida? Devemos 
admir-las ou entreg-las ao seu destino? Porque e  que eles 
so heris? Ser que apenas aquilo que e  fora do vulgar e 
alcana os extremos tem valor nos nossos tempos? Os heris da 
Terra do Fogo? No, os tentadores de Deus da Terra do Fogo!"
- Isto vai ser o acontecimento jornalstico do sculo! - 
jubilava Pfeiffer. - Vamos transformar isto num grande sucesso 
aqui em Hamburgo! O Randler e  uma lesma! Manda-me 
relatrios mdicos! Temos de levantar a polmica: como e  que 
a idiotice pode transformar-se num acto herico? E assim 
pode-se aproveitar para falar das guerras...

O procurador da Repblica de Buenos Aires fechou as actas 
referentes ao caso Jan Trosky. As declaraes eram 
irrefutveis: num acesso de loucura, Trosky saltara para o mar 
e fora arrastado pela corrente. Quem vira os trs 
sobreviventes pouco depois de terem sido encontrados, 
compreendia perfeitamente que uma pessoa naquelas 
circunstncias era capaz de ultrapassar voluntariamente a 
barreira para a morte.
Losskov, Helena e Lucrezia aterraram em Hamburgo num dia 
solarengo de Outono. No aeroporto de Fuhlsbttel, um grupo de 
jornalistas esperava-os, e as cmaras de televiso estavam 
preparadas para a chegada dos trs.
Lucrezia olhava  sua volta com os seus olhos grandes e 
pretos, mas vazios; respondia a todas as perguntas apenas 
abanando a cabea e depois tapou o rosto com as mos.
Helena parecia cansada.
- No tenho nada a dizer! - exclamou para os microfones dos 
reprteres. - Estou viva e e  isso que importa!
Losskov olhou para todos os lados. As cmaras de televiso 
estavam apontadas para ele, os flashes das mquinas 
fotogrficas reluziam como relmpagos, e os microfones 
rodeavam-no como cobras.
- Antes de mais vamos  pergunta mais importante: como e  que 
se sente? - O reprter olhou com um ar entusiasmado para 
Losskov, como se este fosse uma diva de peito nu.
-        Pessimamente! - respondeu Losskov, alto. Os jornalistas 
riram-se.
-        Uma resposta muito clara! - As enormes cmaras de 
televiso rodeavam o rosto magro de Losskov. - Qual foi a sua 
maior experincia nesta viagem?
Losskov mostrou um sorriso sarcstico. "A minha maior 
experincia? Estas pessoas tm coragem de me perguntar uma 
coisa dessas?", pensou. Olhou melhor para os rostos que o 
rodeavam: eram lisos e gordos. Pareciam mscaras, ansiosas por 
sensaes, j que a prpria vida era to aborrecida.
-        A minha maior experincia? O homem sem mscara - declarou 
Losskov, calmamente. - O homem completamente despido. Despido 
de tudo aquilo a que ns costumamos chamar, cheios de orgulho, 
humanidade. O homem no estado zero! Consegue compreender isso?
-        No! - disse o reprter de televiso.
-        Eu j estava  espera disso! - Losskov levantou os dois 
braos e com um grande gesto afastou todos os microfones  sua 
volta. - Somos todos umas bestas!
Com a ajuda dos punhos abriu caminho por entre a multido, foi 
ter com Lucrezia, levantou-a do sof em que estava sentada e 
apertou-a contra si. Com o outro brao agarrou Helena.
-        Deixem passar! - clamou, alto e com uma voz dura. - 
Queremos sair daqui! No respondemos a mais ningum.
Estavam em transmisso directa pela televiso. O reprter 
olhou para a cmara e pediu a compreenso dos telespectadores.
-        Ouviram as palavras de Peter von Losskov! Os horrveis 
acontecimentos, sobre os quais ainda falaremos mais 
pormenorizadamente, tiveram nele consequncias mais graves do 
que se previa. Peter von Losskov ainda se encontra sob efeito 
de choque. Provavelmente, ir para uma clnica psiquitrica 
para ser tratado e ficar sob observao. Desejamos muita 
sorte a Losskov e s duas mulheres. Uma coisa e  certa: pela 
primeira vez, o homem conseguiu sobreviver por fora prpria 
setenta e cinco dias e noites no mar, conseguiu enfrentar o 
oceano Atlntico numa pequena ilha de borracha! Trata-se de um 
recorde nico. Os trs aventureiros da Terra do Fogo 
conseguiram-no e como vemos esto em ptimo estado, apesar de 
tudo...
Dois dias depois, Lucrezia Panarotti foi levada para uma 
clnica psiquitrica. Recusava-se a andar. Queria ficar 
deitada ou ento rastejava pelo cho. Voltou a mostrar a sua 
beleza estonteante, a pele ficou lisa, o cabelo voltou a 
brilhar como seda, mas os seus olhos grandes e pretos ficaram 
mortos e o seu olhar vazio.
Quando Losskov e Helena Sydgriff casaram, Lucrezia foi levada 
numa cadeira de rodas para a igreja. Ficou sentada na primeira 
fila e sorriu para Peter e Helena, sem porm os reconhecer. 
Entoava as cantigas como todos os outros, mas com um texto 
diferente.
-        Carne - cantava. - Carne, carne, carne...
Habitava um bonito quarto na clnica, juntamente com uma 
mulher que se julgava a Ana Bolena e dizia que fora decapitada 
pelo seu marido, Henrique VIII.
- Di-me a nuca! - exclamava s vezes. - O machado estava 
ferrugento. De certeza que vou ter borbulhas no pescoo. V l 
se consegues ver alguma...
s vezes ficavam sentadas  janela, uma em frente  outra e 
acendiam fsforos.
-         a tua vez! - dizia Lucrezia e esfregava as mos, 
contente. - Tu tens de morrer primeiro! e  a tua vez. O Trosky 
vai devorar-te...
Hoje em dia, gosta de ficar  janela, a olhar para o jardim, 
para os ramos que baloiam ao vento.
-        O Sol! O Sol vermelho! - diz, encantada. - Conseguem 
ouvir o mar?
s vezes, arranca a roupa do corpo, deita-se nua ao sol e 
abana as pernas no ar.
-        Eu adoro o sol, o mar e o vento.
E de repente comea a chorar. Uiva como a tempestade na Terra 
do Fogo.

Fim
